Em Forma De Asa

                                 (Florações Do Ócio)

 

                                                                  Laerte Antônio

 

 

Escrevivi

meu penúltimo ciberlivro

(sempre o penúltimo)

com a alma prenhe de vida:

transmutação do ócio

em sinergia

com intenções de dar flores

e frutos

a pedido de um sonho em mim —

poder colorir noites brancas

ou enfadonhas tardes

lendo-o de qualquer ponto:

do meio para o começo

ou fim,

de qualquer ponto

para quaisquer outros,

contanto que tivesse um sentido —

isoladamente-e-em-conjunto-

-em-conjunto-e-isoladamente:

tudo soltamente preso

por um nexo interior

tão necessariamente ontoconsciente

que nem se percebesse isso,

nem se visse ou notasse

tal como a longe flor que se abre

sozinha no cerrado

e só a brisa a embala

e o hialino orvalho a visita

fazendo-a coabitar

com o brilho ébrio dos astros —

e assim pudesse ler o meu livro,

pudesse lê-lo inacabavelmente,

inesgotavelmente —

até que me inteirasse

de que isso nada

com isso tudo

é um livro que sabe rir —

sim, sabe não ter fim

nem ter começo

ou meio,

porque é um todo

dentro de um tempo

que sabe brotar do atempo

e apenas ter saudade do futuro,

 já que a realidade não é mais

do que a nossa incapacidade

de poder suportar o sonho.

LA 21/02/0010

 

 

 

 

Necessidade urgente de florir

no íntimo do ser humano —

emprenhar-se de vida

e parir-se em deslumbres

que vão da larva

às asas de brisa

feitas do brilho das estrelas

e dos sonhos maduros do mistério.

LA 12/008

 

 

Viajar, viajar!

já que tudo é uma viagem

dentro de outras viagens.

Na mão o caderno e o lápis

para o diário de bordo.

LA 12/008

 

 

Em pleno viajar, em pleno viajar

por terra, mar e ar

e lá por dentro em nós

em pleno viajar

LA 12/008

 

 

Se fores até ali adiante,

percebes nosso escopo

e talvez goste da caminhada

e a empreenda por alguns passos

LA 12/008

 

 

Se alguém faz arte,

faz para saber de si —

conhecer-se,

organizar-se

e transcender-se.

O autor é o primeiro

e mais assíduo leitor

de qualquer obra.

O primeiro que se beneficia

do sonho tornado em coisa,

gestado pelo sopro,

irmão daquele que lhe insuflaram.

A arte está para a vida

como o tempo para o ser.

A empatia é o espelho

que faz o outro se ver

e saber que também sabe,

senão fazê-la,

crescer com ela.

LA 12/008

 

 

Entre tu e mim,

o poeta é intérprete.

Para contar —

finge-se eu

porque encarna o outro,

finge-se o outro

para esconder a si —

apenas um intérprete

da realidade.

Sim, o seu gozo é contar

para conhecer a si e ao outro

enquanto volta sem pressa

para Ítaca,

onde o espera

o sonho ressonhado.

LA 12/008

 

 

Zaidi, Zaidi,

seus sapatos voaram

em direção

ao nosso desabafo —

desabafo antológico

coroando este final de ano.

Zaidi, Zaidi,

você lembrou Davi —

Davi versus Golias.

As suas sapatadas,

ó ex-obscuro,

carreguem meu chulé

de aprovação,

como também o daqueles

(mais de mil advogados!)

que presto se ofereceram

para — gratuitamente —

o defender.

Zaidi, Zaidi,

seus sapatos voaram

em direção

ao dono dessa guerra —

em pouquíssimos segundos

tornaram-se sapatos

de renome.

Lançada está a marca:

Sapatos Zaidi,

os que fazem para ti

o que não terias coragem

de fazer.

LA 12/008

 

 

Mais Uma Vez...

 

Mais uma vez dezembro.

Mês das compras compulsórias

que chamam de Natal.

Natal que tem mudado

e nos tem encontrado outros —

nem melhores nem piores:

outros.

Apenas outros,

seu Dom Casmurro.

E o resto é como o resto

que ainda não era resto

mas que agora nos resta.

E como somos muitos mais,

compramos mais.

Só isso.

E isso é muito bom,

dizem os sábios.

Comprar-vender-comprar

é tudo o que sabemos —

e o quanto importa.

Assim o mundo se mantém em órbita

e fica tudo joia.

E quem faz joia

se chama ourives.

E não te prives

do brilho de as comprar.

Pois isso é bom,

bom e catártico,

dizem os sábios,

vender-comprar.

Felizes compras!

(Só não nos esqueçamos

de dar alguns centavos

para a comida dos pobres.

Assim todos parecemos

nos preocupar uns com os outros

e a nossa consciência

não fica rindo de nós

enquanto nos esbaldamos

ao lado dos miseráveis.)

Mais uma vez Natal.

Felizes compras!

LA 12/008

 

 

Senhores viajantes, se preparem

para mais uma órbita.

Sim, vamos para mais um ano.

Todos querem um ano melhor,

sob todos os aspectos: melhor.

Sim, todos se preocupam por um ano melhor,

mas é raro, raríssimo ver

alguém preocupado em ser melhor.

Pois é.

Hoje é dia de fazer tremer o orbe

com pólvora.

Feliz 2009,

cambada!

Com muito amor no bolso

e, nas mãos, muito dinheiro,

muito dinheiro

pra conservar tanto amor.

LA 01/009

 

 

Não cante nem assovie

ao lado do desgraçado.

LA 01/009

 

 

André aconselhava aos sabichões:

Antes de se entregar à difícil tarefa

de ajudar as pessoas a mudar,

dê uma olhada nas três últimas semanas

da sua vida.

LA 01/009

 

 

Buracos.

Sempre os eternos

buracos.

Em cima,

embaixo,

por fora e dentro:

em nós,

nas coisas,

no mundo:

só buracos.

Negros,

brancos,

rosados,

amarelos —

obsessivos buracos.

A vida?

O universo?

Só buracos

mais buracos.

Misteriosos,

deliciosos,

charmosos,

perigosos,

instigantes buracos.

Buracos.

LA 01/009

 

 

Agora, sim:

com a secretária trilíngue

sua empresa ia bem.

LA 10/009

 

 

Se usas luvas para colher rosas,

ainda não sabes dialogar com a vida.

LA 01/009

 

 

Conserva os amigos amigos,

e livra-te dos outros.

LA 01/009

 

 

Laura, Laura,

quando você me vinha,

só de lhe pronunciar o nome

minha língua lambia mel no céu,

no céu da boca.

Laura, Laura,

tobogã de venturas

entre colinas

e colunas.

LA 01/009

 

 

Há um descompasso desproporcional

no uso de nossa boca e ouvidos.

LA 01/009

 

 

Uma tardinha Dorothy me liga:

“Por que você não vem?

Esta chuvinha... este frio gostoso...

a noite vai estar boa,

deliciosa pra não dormir.”

Lembro-me bem que mal

acabou de pronunciar

a última palavra

eu já estava lá.

E foi amor, vinho e chuva

até sábado virar domingo

e domingo segunda-feira.

LA 01/009

 

 

A vida é uma luta desigual

num brigar pra não morrer,

num teimoso sobreviver.

LA 01/009

 

 

Sim, a vida é esse delicioso

comerem-se uns aos outros.

LA 01/009

 

 

A única esperança

da vida

seria o homem ser humano.

LA 01/009

 

 

Entre pães e brioches,

ó manhosa Antonieta,

conserva o riso, os broches

e a tua...

LA 01/009

 

 

Devagar, minha nega,

devagar,

assim a gente chega descansado.

LA 01/009

 

 

André?

Comia com pena e tudo

e ainda mostrava os ossos.

LA 01/009

 

 

Antes uma no dedo

que mil delas

causando sobressaltos

musicados por belos saltos.

LA 01/009

 

 

O Maneco?

Sempre nos ombros do muro.

Nunca foi disto nem daquilo,

mas aprecia jogar tijolos

na cabeça dos que estão

tanto de um lado como de outro.

LA 01/009

 

 

Tudo o que não entendemos

é o que mais nos atrai.

Ainda bem,

pior se fosse o contrário.

LA 01/009

 

 

Um tiro pela culatra.

Marginalizaram tanto o professor,

que a educação

ficou doente de cama.

Os professores

(do fundamental e médio)

eram tratados

(filosófica, psicológica,

política e socialmente

com a astúcia de quem implanta

as ruínas

de uma profecia autorrealizadora) —

eram tratados como incompetentes

por finórios treinados para isso —

para fazê-los se crer merecedores

de salários aviltantes

e se tornarem babás da sociedade,

com muita gente doente,

arrogante e induzida:

usada (entre tantas coisas)

para descer-lhes o pau,

fazer-lhes sentirem-se indignos

e pô-los contra a parede —

chamar-lhes de caretinhas despreparados,

malformados,

matadores de aula...

E assim foi, assim se cumpriu,

a profecia se autorrealizou:

cumpriu-se o talante e a vontade

dos manipuladores do sistema,

cujos mandantes eram (naqueles dias

e em sua maioria)

homens e mulheres ali chegados

pela política,

por conchavos, influências

e interesses puramente egóticos —

carreiristas-carreiristas-carreiristas

vigilantemente militantes.

Tais indivíduos, os gulatras,

tornavam (tornam) a escola

o que Foucault já havia dito

sobre as Instituições Totais

(a escola, o hospital, o presídio...

lembra?).

Dá só uma olhada:

a nossa educação no mundo

está lá atrás, bem lá atrás, atrás, atrás, atrás, atrás, atrás, atr... at... a...

 

Pois é, seus finórios,

a sua profecia autorrealizadora

tem se cumprido.

LA 01/009

 

 

Professores,

a sua profissão não é um ‘sacerdócio’,

é trabalho árduo e difícil,

trabalho muito duro —

precisa ser bem pago,

sem piadas psicológicas,

sem promessas amanhecidas

nem chantagens —

precisa ser bem pago.

Sim: requer cabeça-equilíbrio-e-fôlego —

conhecimento-atualização sem fim.

Professores, o seu trabalho

precisa ser bem pago.

Bem pago e reconhecido.

LA 01/009

 

 

O entendimento de lado

das coisas

é o que chamo de intuição —

sabedoria íntima:

uma espécie de ponte magnética

com outros degraus da Vida.

LA 01/009

 

 

Foi Beber A Ternura...

 

Foi beber a ternura dos teus olhos

e já meu coração trançou as pernas —

subiu aos céus e cavalgou escolhos,

cantou, dançou nas praças e tabernas.

 

Foi príncipe e bufão entre os refolhos

do teu corpo por horas mais que eternas

em que o tempo mugia a comer molhos

de feno em tuas mãos cruéis e ternas.

 

E declamou às pedras e aos espinhos

poemas que desfiava de si mesmo

e sabia voar com os passarinhos...

 

E se pintou de branco e carmesim,

dançou como tiziu lá no seu esmo...

E fez rir muito mais que um arlequim.

LA 01/009

 

 

A Loucura Dos Sãos...

 

A loucura dos sãos é preocupante,

muito mais que a dos loucos de verdade,

já que aquela ainda traz o tal desplante

de ter o charme da genialidade.

 

Aquela é muito mais contagiante

e buscada por toda a humanidade —

a arte, o crime, o belo, o hilariante:

tudo o que nos agrade ou desagrade.

 

Aquela tem um dom mais que instigante —

o salto para mais: mais claridade

que dê sentido ao nosso escuro instante.

 

A loucura dos sãos é a realidade

sobreposta ao real... e desgastante —

algo como a mentira da verdade.

LA 01/009

 

 

Quantas vezes naufraguei

tentando cruzar o cabo de sonhar-te

Só me restava um pedaço de madeira

que me levava até a praia onde não estavas

E assim fui destruindo as minhas naus

na tentativa de dobrar o cabo de sonhar-te

Foi então que me lembrei de trocar o nome

de Cabo Do Amor Perdido

para Cabo Do Amor Encontrado

E na próxima vez que naufraguei

mandaste-me tuas sereias e ninfas

levarem-me a nado para o teu castelo

em cuja cama da princesa, a tua,

me adulavam até a hora da sesta

E me vinhas generosa e feliz da vida

com uma bela corbelha

de cheirosas jabuticabas,

jabuticabas

de uma pele negra, lustrosa e fina

que eu ia degustando grato

e eternamente devagar

LA 01/009

 

 

A convicção

é como a fé —

antevisão.

LA 01/009

 

 

Magia é o Demiurgo

dar corpo de realidade

ao sonho

que Ele vê lá em nosso íntimo

depositado em Suas mãos —

nossa vontade-ousar

inseminados

em Seu querer.

Assim é que nascem

as belas obras.

LA 01/009

 

 

Negar a existência de Deus

é negar a si mesmo três vezes.

LA 01/009

 

 

Aprendamos uns com os outros

sem fazer de ninguém nosso modelo.

Contenhamos sempre a tempo

a tentação de ensinar.

Não nos levemos tão a sério,

até porque é dentre o humor e o riso

que podemos extrair

a seriedade que acrescenta.

LA 01/009

 

 

Empreguemos bem nosso riso.

Vamos precisar muito dele,

inclusive

em nossa própria terapia.

LA 01/009

 

 

Eta vidinha jurássica!

Sempre entre o rastejo e o voo.

LA 01/009

 

 

— Eta-pau! Mas é boa demais!

Boa demais, eta-ferro!

— Quem é que é boa aí, Leônidas?!

Era a mulher do Meia-efe,

um cara desse tamanhinho,

que sai da roda de amigos e explica:

É a goiaba, Zulmira, a goiaba

que Zé Pedro me deu

e acabei dinguli.

— Ah, bão, Leo, ah, bão!

Agora vem lavá a ropa

e arrumá a cuzinha!

LA 01/009

 

 

Domingo, depois das duas,

o amor pratica jiu-jítsu

até a tarde fazer beicinho.

LA 01/009

 

 

Marli?

Um pêssego

entre róseo e amarelo —

com aquela pilosidade...

quase invisível

a olho nu.

LA 01/009

 

 

Os que se têm por chiques,

vão se decepcionar.

E a maior decepção

é aquela que se tem

em relação a si próprio.

Sim, este será o galardão

dos mamíferos de luxo —

verem-se nos primeiros degrauzinhos.

LA 01/009

 

 

O coração humano

é belamente enganoso

como um shopping esplêndido.

Sonhos gerando sonhos

sonhando ressonhados

acasalando-se em transonhos —

belos, sempre belos,

maravilhosamente belos,

tão belos quanto falsos.

LA 01/009

 

 

Se o cara diz que vai subir pra cima,

temos um pleonasmo.

Se diz que vai subir pra baixo,

temos um patonasmo,

isto é, um caso patológico

ou de quem esteja vendo as coisas

por um sistema de sifão romano.

LA 01/009

 

 

Por vezes falar bobagem

arranca-nos do fluxo

de pensamentos maus.

Por isso é que São Pelustro

vezenquando dizia:

Cará!.. Cará!!... Cará!!!...

em meio aos muitos discípulos

que pela entonação

e seu cenho muito franzido

percebiam não se tratar

de um mero e simples legume.

LA 01/009

 

 

A Todos Os Bípedes Implumes

 

Bombas contendo urânio,

fósforo branco

e outros pistaches que nem sabemos —

sejam proibidas!

Não porque sejam incômodas às pessoas,

mas por fazerem mal à natureza.

As pessoas desaparecem

e o mundo nem nota (não é mesmo?),

mas a natureza

fica a nos dar o troco,

não é mesmo?

Por isso apelamos ao eu-logístico das pessoas:

Nada de danificar nosso Ninho voador, sim?

Nada de danificar nosso Ecos

enquanto se deliciam

em se matar uns aos outros,

sim?

LA 01/009

 

 

Aprendi que os homens não acreditam

que o que eles plantam

isto mesmo têm de comer e deglutir —

metabolizar em corpo e inconsciência.

LA 01/009

 

 

Se você não dá linha ao amor,

ele não sobe, não voa,

não bebe o vinho azul

na taça de fogo das manhãs,

não explode em vida em si mesmo,

não respira o que quer —

e morre.

E você fica sem o que jamais teve.

Por outra,

se você lhe dá a linha

de um coração confiante,

o amor então sobe e voa e bebe os delírios azuis

no cristal incendiado do ouro em chamas

que já lhe queima a linha... e veja:

agora é alma de vento leve solto livre

em sobe-e-desce longe, sempre mais longe

entre desejos que tentam alcançá-lo

e uma ágil mão

que há de querer ligá-lo a uma linha

e tê-lo para ela-dela

tal como você tentou fazer.

LA 01/009

 

 

Por estreitos sempre dantes,

rosas semidesfolhadas,

amoras já sugadas —

que fazer, senão buscar

por um não-saber zen?

Fingir-me barco por tais estreitos,

brisa e vento por tais rosas

e pássaro de amoras passas?

Em minha ex-adolescência,

que pedaço de mar já não foi singrado?

Que pétala restou intata?

Que amora não foi bicada?

Que fazer

senão recompor pelo sonho

o que me foi roubado?

E dar graças à vida

por saborear

o já saboreado,

isto é, o que me foi deixado?

Por mar, rosas e amoras

sempre dantes,

eis-me novo Ulisses

empreendendo o nostos

para a sua Ítaca.

LA 01/009

 

 

De Musa Para Amante...

 

De musa para amante, minha Nina,

é o que vai da garrafa para o vinho.

Uma é o brilho da taça cristalina,

a outra é o vinho e a ressaca, com carinho.

 

Uma é o sonho na concha nacarina

contado pela voz azul-marinho...

A outra é tango dançado na Argentina

e o fim de festa: a luz e seu espinho.

 

Uma é brisa acenando em cada palma —

delícias de não ser... chiliques d’alma,

fogo da arte, dom do imaginar...

 

A outra, o sonho feito realidade

com o vivê-lo farto e com vontade

e já: velhas cobranças a chegar.

LA 01/009

 

 

Se ela chegou e lhe disse que tem outro,

você já sabia que chegaria esse dia —

sabia de soslaio, ou bem de frente,

de frente lá no fundo de você —

bem de frente: sem mais nem de repente.

E agora?

Agora é chorar e cantar como puder —

chorar porque perder um afeto dói.

Cantar porque o canto é a força dos que sofrem.

Não fomos ensinados a perder,

por isso os olhos vazios

fazem-nos doer em alma-coração —

doer até termos vergonha de nós,

muita vergonha por não concordar com a vida

que viver é um perder-ganhar,

um ganhar-perder —

assombrações de um ontem e de um amanhã

que teimamos em não trocar pelo hoje-agora da existência

com medo talvez de não caber no hoje

o que chamamos de felicidade.

Se ela se foi (ou ele),

o próximo alguém será no mínimo

bem mais interessante —

pelo fato de vocês ainda não se conhecerem

e portanto serem um sonho bem bonito

e louco, louquinho por viver.

Agora é tudo mais belo,

porque sonho-fé

no anjo

que moverá as águas

do tanque de Siloé.

O homem sonha,

Deus escreve a peça,

a vida representa.

Saber ousar não se ensina —

aprende-se quebrando a cara.

LA 02/009

 

 

As pedras têm a cabeça dura,

mas algumas são bonitas.

LA 02/009

 

 

O apaixonado André

um dia deu à sua então Marilda

um anelzinho gracioso

com uma pedra verde,

não bem da cor dos olhos de Esmeralda

(que eram castanhos e espertos)

com quem quase se casou

não tivesse conhecido Marta

que depois de sete meses

lhe apresentou Marli

de cuja irmã (depois de um ano)

se apaixonou eternamente

até lhe ver a prima Maria

(depois de um ano e meio)

com quem vidradamente namorou

e como um doido amou amou amou...

Até que o noivo dela, o Bob,

(depois de um ano e três meses)

veio lá dos States

e casou (cartório e igreja)

e foram para o Texas

onde ele tinha uma fazenda chique

só de touros reprodutores.

Nesse meio tempo, veio vizinhar com ele

(com nosso André)

Horácio, seu primo irmão do peito

(gente de casa),

recém-chegado da Espanha e casado

com uma andaluza bem mais velha que ele —

um tipo tórrido,

mulher esguia cujas sandálias lhe cantavam

sob as pernas dançarinas

a lhe ondular as saias de granada...

..................................................................

 

Só um momento, por favor,

já volto —

estão batendo lá fora

e chamando por mim.

LA 02/009

 

 

Faça a sua poesia,

a sua.

Examine tudo o que se fez

e não se fez sobre Ela —

e faça a sua.

O poeta precisa ser-se.

Escreva principalmente

para você —

pra dilatar os odres da consciência:

atilar a aparelhagem

de ser-navegador

no multiverso cósmico da vida.

LA 01/009

 

 

Os homens,

inteligentes ou imbecis,

adoram ensinar —

principalmente o que não sabem.

É que quem ensina,

ensina sobretudo

o que gostaria de saber.

LA 01/009

 

 

Sabe o que é duro?

A ternura das pedras

que se fingem de coração.

LA 02/009

 

 

Não vai me dar um beijo,

nem nada ou coisa alguma

de alguma coisa?!

Se eu tivesse um durômetro,

mediria seu coração.

LA 02/009

 

 

Se deixas o amigo entrar,

vais ter problema.

Quem te disse que os amigos

são para se levar pra casa?!

LA 01/009

 

 

Quem ousa

leva o passo

para outro degrau,

ou para uma base ao lado

e, natural,

perca o equilíbrio

(por décimos de segundo)

ao mudar o seu passo

para o insólito...

Quem ousa quer-se outro

num sonho-mais.

Sem ousar não se cresce,

não se transcende a si e ao mundo.

Mas nem por isso ousar

é aventurar-se.

Sempre que se ousa

põe-se em perigo a si

e a outros.

O ousar não deve ter excessos —

não deve ser demais afoito

nem covarde.

É um verbo sem imperativo.

Mandar alguém ousar

é o maior descaramento,

a não ser que se pudesse

oferecer a própria cara

por parachoque.

Cada um deve saber a hora,

onde e o porquê de ousar.

LA 01/009

 

 

Águias De Plástico

 

Na Europa explode a empáfia.

Lê-se nas laterais dos ônibus

da Espanha:

“Provavelmente, Deus não existe.

Viva e goze a vida.”

Tal onda ateísta-hedonista não dimana

de uma ou outra mente solitária,

mas de associações de ateus,

de grêmios publicitários

de ressentidos e frustrados

numa investida contra o divino.

Não fosse hilário,

seria trágico:

tragicamente imbecil.

Sem o sentimento do Sagrado,

certos departamentos da consciência

ficam como que fechados,

“desabitados” —

o ser como um todo se prejudica:

não dispõe daquele vinho

que lhe dilata os odres do entendimento:

a rosa mística é pisada,

o mistério é debochado

e o intercâmbio entre humano e Verbo

não se dá —

não há como ser visitado

pela Sabedoria

ou pelo Espírito de Deus.

.....................................................................

Na literatura de hoje (e de há pouco)

uma meninada de cabeça branca

e cara morta de tédio

também brincam de odiar a Deus —

reafirmam a cada dez linhas

(em balbucios manhosos)

a absoluta Falta de Sentido:

aquele absurdismo de Camus,

que só via uma saída para o homem —

jogar-se pela janela.

A vida? Um amontoado de protoplasma

sem nexo, sentido ou finalidade.

Isto, desde eméritos de universidades

a pobres diabos com tiques e chiliques

de fazedores de arte

(alguns com pleno domínio

da técnica que exercem:

por isso aliciadores, galãs da mídia).

Vivem em feudos e clãs,

encastelados em instituições —

uma espécie de sociedade secreta,

podre de narcisismo:

algo assim... como

Sociedade dos Vates Vivos

(parodiando aquele belo filme).

Os que não vão pelos seus passos

não serão reconhecidos.

Cegos de ressentimentos

guiando cegos de ressentimentos.

Lembram aqueles fariseus —

“... não entram nem deixam entrar.”

Claro que tais bípedes sedutores

têm o direito de balbopensar,

isto é, de se julgarem livres pensadores

(presos à gagueira do seu pensar:

do seu balbopensar).

O que não lhes dá  (ou “daria”) o direito

de vomitar em mananciais

aonde vão se abeberar

centenas de milhares de adolescentes

e adultescentes —

suas aliciadas crias,

incautas presas.

Empáfia,

empáfia pífia e podre.

Só têm a oferecer

a sujeira que lhes engordura

os sentidos que não veem

senão falta de sentido

com uma única saída —

jogar-se pela janela.

LA 02/009

 

 

Os momentos

em forma de asa

passam ruflando, ruflando

em direção ao passado, a maioria,

e uns poucos deles, bem poucos,

ousando tecer seus ninhos

nos beirais do futuro

que tem como fundo

uma bela canção... ouvida

gostosamente em alma...

canção apenas ouvida

pela intuição.

LA 01/009

 

 

As tempestades nos fortalecem.

O que não pode nos matar

nos retempera —

está certo o bigode

do filósofo.

Os enganos nos dão astúcia

e as mentiras nos incitam

a buscar a verdade.

A traição

nos leva a procurar pessoas dignas.

A fraqueza nos ensina

a ousar com prudência —

e assim nos superamos:

não para a vingança,

mas para a miseridórdia.

LA 02/009

 

 

Não gostamos da realidade,

preferimo-la superada —

sonhada maior e melhor:

moldada pela cultura

e remoldada pelo transcender-se da arte.

A realidade é banal,

preferimos o irreal imaginativo —

o insólito ressonhado

de um pensamento a ultrapassar-se.

O real é o pó,

o irreal é o fluido —

ambos dão nova

e versátil argamassa:

uma transrealidade

a transmudar-se no âmago

da mente.

LA 02/009

 

 

Trabalhemos, Construamos...

 

Trabalhemos, construamos nossa choça,

que além de nosso mundo é bem-estar.

O mais seja o que a vida nos esboça —

ensinemos as dores a cantar.

 

E cocemos os mimos, nina-moça,

que amanhã não se tem o que coçar.

A gente frua tudo quanto possa

enquanto muda a vida, o chão e o ar.

 

Amigos? Sim: só os que são amigos.

Assim, bem menos riscos e perigos.

Longe dos santos quanto dos ateus.

 

Aprendamos a dar longas risadas,

e ponhamos a vida e outras nonadas

no lugar certo, isto é, na mão de Deus.

LA 02/009

 

 

Relacionar-se a dois é tão difícil,

que faz por merecer aquele prêmio

chamado sexo.

LA 02/009

 

 

Há pedras que fingem pulsar.

LA 02/009

 

 

As amizades

quanto mais estreitas

mais tendem a acabar.

É que para continuar crescendo

cada um tem de tomar

seu singular caminho

interior.

LA 02/009

 

 

Sim, a amizade acaba

quando se torna biodesagradável.

LA 02/009

 

 

A beleza de tudo ter um fim

está no próprio fato

de tudo ter um fim.

LA 02/009

 

 

O efêmero nos seduz

porque o temos como prazer

que sabemos estar por acabar.

LA 02/009

 

 

Entre a rosa e os espinhos

nossas mãos se deliciam

em ir colhendo a vida.

LA 02/009

 

 

Passamos para as rosas a beleza

do nosso medo de morrer.

02/009

 

 

Entre o amor, a rosa e nosso medo

a vida passa cantando,

ora de dor,

ora de contentamento.

A vida canta

porque sabe que a morte

será vencida pelo amor.

LA 02/009

 

 

Entre porcos e diamantes

existe sempre algo que encobre

e dá liga: a lama.

LA 02/009

 

 

Uma pessoa é sempre muito diferente de outra,

ainda bem!

Somos iguais apenas nas desigualdades.

LA 02/009

 

 

A vida não é um jogo.

Não é acasos acasalando acasos,

mas um processo de auto-e-panconsciência.

LA 02/009

 

 

Entre os homens estão degraus,

principalmente degraus interiores.

LA 02/009

 

 

Há momentos em que só nos resta

exercermos o direito

de ser idiotas.

Quando chegar tal hora,

não tenhamos escrúpulos —

sejamos requintados idiotas.

LA 02/009

 

 

No jogo há o jogo

e dentro dele

as jogadas —

que decidem o jogo.

A vida é o jogo,

o viver, as jogadas.

Jogadas?

Jogadas e por jogar.

LA 02/009

 

 

Cá entre nós:

que se vão os anéis,

que se vão os sapatos,

o Rolex (falso) —

mas nos restem as mumunhas,

as manhas,

os mimos da amada.

LA 02/009

 

 

Coisas Da Vida

 

Lembro-me sempre

(era menino de tudo):

numa noite de chuva e muito vento,

ele (o noivo) chegou bem mais tarde

e esquisito,

pela primeira vez eu o vi assim...

Disse que precisava da presença de todos...

e olhando para minha tia

(ele numa cadeira,

ela ao lado, no sofá),

olhando para a minha tia,

falou-lhe calmo, terrivelmente calmo:

Eu sinto muito, fulana, eu sinto muito

mas já não sinto nada por você... eu...

Houve um silêncio interior geral gelado...

Só minha avó fez uma frase interrogativa,

num tom suave, manso, sem força nem esperança:

Você precisou de oito anos, meu filho,

para sentir que não sentia nada

por minha filha?!

Ele foi se esgueirando

ensaboado

com palavras flexíveis e gentis...

Nunca mais o vimos.

Minha tia casou-se logo,

era moça bonita: um pedaço.

Casou-se com o filho do seu Paulo,

funcionário da Mogiana, bom vizinho,

viúvo havia muito, havia sempre...

Casou-se com seu filho mais velho,

moço elegante, alegre, professor...

e foram dar aulas os dois

bem longe, longe, lindamente longe.

Sim, lindamente longe.

Quando chegavam as cartas bonitas de minha tia

eu as saboreava como fossem barras de chocolate

(e pedia fossem lidas outra e outra vez) —

a distância misturada com as idéias que eu fazia

ia dando às palavras aquele sabor mágico das lonjuras...

LA 02/009

 

 

Marilda sabia temperar a carne.

Sabia pô-la em marinada,

deixá-la curar nos condimentos

de finas especiarias

a esticar a fome...

Aí, quando o apetite queimava,

ela levava o material ao fogo

até a degustação,

e satisfação total.

LA 02/009

 

 

Por dúvida das vias,

veja bem aonde põe os pés

ou as rodas.

LA 02/009

 

 

Se acreditas no te-amo-você-me-ama,

já és um bípede semidepenado.

Para amar amar amar...

não precisas crer,

só amar amar amar...

LA 02/009

 

 

Crer, só em Deus?

Depende do Deus.

LA 02/009

 

 

Mas Deus não é um só?

Um só entre muitos.

LA 02/009

 

 

Quem é Deus?

Se eu soubesse,

já não seria eu,

mas Ele.

LA 02/009

 

 

Quem espera

sempre se cansa.

Quem não espera

nem o cansaço alcança.

LA 02/009

 

 

As guerras vêm e vão

para não ser em vão

guerrear.

Já o amor vai e vem

pra mostrar que seu bem

é amar amar amar

LA 01/009

 

 

Se o amor não vai bem das pernas,

dá-lhe uma cadeira de rodas —

das simples, tu o empurras;

das motorizadas, ele te foge.

Escolhe o que for melhor.

LA 02/009

 

 

Os que se veem raramente

têm a doce impressão

de serem bons amigos.

LA 02/009

 

 

Em termos de amizade,

a distância

mantém as coisas no lugar.

LA 02/009

 

 

Uma saudade de Teresa

tirando a roupa

e olhando-se no espelho...

Tirando a roupa bem devagarinho

como se estivesse sozinha.

Teresa sabia,

ah, se sabia!

LA 02/009

 

 

A beleza das coisas

é dizermos que elas são belas

até acreditarmos

no que outros acreditaram —
talvez para afirmarmos,

como eles, que a vida vale as penas

do seu voo.

LA 02/009

 

 

Felizes dos que viram antes!...

Não precisaram de um depois sem esperança.

LA 02/009

 

 

Toda vez que não fomos felizes

será que realmente desejávamos

tê-lo sido?

LA 02/009

 

 

Não ser feliz

tem suas compensações —

vive-se eternamente

buscando sê-lo.

E nesse buscar ousado

pode-se até dizer

que se é, que se é feliz

ao menos em querer sê-lo.

LA 03/009

 

 

Aos adversários se vence

insuflando-lhes a dúvida

sobre o que pensam de nós.

LA 02/009

 

 

Uma visita

tumultua as águas

do nosso lago —

física e metafisicamente.

LA 02/009

 

 

Não ter conhecido muita gente

não me fez falta —

já que não as conheci.

LA 02/009

 

 

Fale bem dos seus inimigos

até levarem a seus ouvidos

que você fala bem deles.

Logo você verá

que até eles

precisam de cafuné.

LA 02/009

 

 

Se não acredita

na mentira dos outros,

como é que arranjará amigos?

LA 02/009

 

 

Se exiges que cada amigo

o seja de verdade,

que vais fazer com tanta?

LA 02/009

 

 

As crianças adoram palhaços,

amam os arlequins —

gostam da vida como ela é.

LA 02/009

 

 

Seriedade é bom.

Quem gostaria de ver um coveiro

feliz da vida?

LA 02/009

 

 

Claro! Adequação,

proporção, na hora certa,

faz bem e conserva o emprego.

LA 02/009

 

 

Esperar quem não vem

põe espinhos na espera.

Desejar ser amado

é sentir um vazio

com a saudade do que gostaria

que tivesse sido.

A fé de que isso é possível

vai moldando no sonho

as mãos do provável.

Se a mente persiste

a crisálida ganha asas.

LA 02/009

 

 

Quem poderia garantir

que o que sonhaste, e não foi,

seria bom ou ruim,

caso fosse?

LA 02/009

 

 

Muitas vezes

choramos o que pensamos ter perdido

sem nunca tê-lo nosso.

LA 02/009

 

 

Se pudéssemos nos desamarrar

do passado ressentido,

certamente daríamos rumo e alento

às nossas possibilidades de hoje.

LA 02/009

 

 

A indecisão não cria —

amarra.

Torna-se fé sem obras.

LA 02/009

 

 

A mente canalizada

para um propósito e fim

faz toda a diferença.

LA 02/009

 

 

O viver disciplinado

lembra o discípulo-ourives

a receber das mãos da vida

o ouro do entendimento

e a transformá-lo em raras joias.

LA 02/009

 

 

Vida-vento-barco-vela,

se navego, vou a ela,

se fico, ela está comigo.

LA 02/009

 

 

Em geral um comboio descarrila

depois de ter forçado rodas, trilhos e estruturas

por muitos anos e vezes.

O maquinista atual tem tanta culpa

quanto o primeiro.

LA 02/009

 

 

As tais frases “bonitas”

são as que dizem aquilo

que queremos ouvir.

LA 02/009

 

 

Meu pensamento é mais que barco,

meu sentimento é mais que vela —

não preciso de passagem

cada vez que quero vê-la.

LA 02/009

 

 

Se esperas só um pouco,

nem precisas te matar.

E enquanto esperas

inventa um pouco de alegria —
faz teu viver dançar, cantar...

e morre, sim, mas de prazer,

morre de amor.

LA 01/009

 

 

Melhor que uma mulher?

Só nenhuma.

Nenhuma em sua casa

e muitas pela vida —

todas loucas por repartirem-se,

doarem-se copiosamente.

LA 01/009

 

 

Os homens estão podres,

mas as sementes se aproveitam.

LA 02/009

 

 

Você mora aqui?

Estou só de passagem.

E mora onde?

Estou só de passagem.

LA 02/009

 

 

Todos querem o céu,

mas não querem morrer.

LA 02/009

 

 

Berlim. O filme

“La Teta Asustada” leva

o Urso de Ouro em festival.

Mas não foi só o ouro

(disse Marilda,

fazendo assim... com as mãos)

que La Teta levou...

aliás, foi pelo que levou

que lhe adveio o ouro.

Aí o pai a interrompe:

Conheces, Marilda, o mito andino

sobre “o susto”?

— Não, meu herói.

— Então cuidado com as batatas!

LA 01/009

 

 

Não estamos de passagem —

estamos nos construindo.

LA 02/009

 

 

Se a pedra que rolaste até o cimo da montanha

caiu,

deixa-a lá embaixo,

que é lugar dela,

e vira, vira logo a página,

e já não estarás

entre a montanha e o vale.

LA 02/009

 

 

O estado místico

é, para mim,

esse sentir que Deus nos é,

e poder vê-Lo

e caminhar com Ele

em nossas sensações —

que é já estar em Casa:

em Sua-nossa Casa.

Sentir Sua presença,

esse queimor no sangue,

é desfrutar do gozo

de ser: ser-Nele-por-Ele-com-Ele —

viver no Seu amor

e vê-Lo em nosso amá-Lo.

LA 02/009

 

 

Sim, Deus é espírito e verdade

e o nosso coração é o templo

onde podemos adorá-Lo —

sempre em espírito e verdade.

De modo algum estamos sós

em nossa caminhada —

há sempre um caminho

dentro do caminho:

um caminhar por dentro,

um caminho-caminhante.

LA 02/009

 

 

Não é de hoje

que metemos os pés num caminho

que vai se transformando no que somos.

LA 02/009

 

 

Fazemos sexo porque fazer sexo é bom,

como foi bom para aqueles

que nos presentearam seus genes.

Para o homem, basta a mulher ser bonita.

Para ela, também é isso com algo mais

que lhe é ditado pelo prístino

instinto de segurança.

A arte é o velho modo, sempre em pauta,

de encontrar reconhecimento

e atrair o sexo oposto.

Macho e fêmea se gratificam

de modo bem diferente —

para ele, o prêmio basta.

Para ela, o prêmio deve ser suplementado

por gestuais encomiásticos —

flores, passeios, presentes,

poesias e reafirmações do amor.

E, claro, por mais outras coisas

que a gente com o tempo

adivinha ou não.

LA 02/009

 

 

É nas crises que se conhece

o potencial criativo

dos Estados

e dos seres humanos que os compõem.

Se a crise é mundial,

o emergente (que se preparou

em silêncio)

poderá surpreender.

No que toca ao indivíduo,

a crise serve de termômetro

de sua força de vontade

e de inventividade.

LA 02/009

 

 

Os que se julgam sábios

cometem um engano antigo:

sabedoria

não é brinquedo de tolos.

LA 02/009

 

 

Os homens de boa vontade

são os que constroem

para a alegria e para a paz —

os que buscam o que é bom para si

sem prejudicar o outro.

Amam a Deus, a si e ao outro.

São mansos e altruístas —

vivem e ajudam a viver.

Leves, sabem e ensinam a canção

que ajuda na travessia.

LA 02/009

 

 

Sessenta anos após as bombas,

e os “zoinhos” já refizeram tudo.

Tudo de derrubar o queixo.

Isso é que é dar a volta por cima!

Não há como não lembrar

aquela Fênix

renascida das próprias cinzas.

Se o amor humano

fosse ao menos do tamanho

de sua vontade ressentida,

por certo a convivência humana

teria hoje o mesmo brilho mágico

dessas duas cidades japonesas.

Beleza pura.

Pena que o que um homem ergue,

não demora,

vem outro homem e derruba.

Mas mesmo assim sempre vale

a sua força de vontade

(principalmente a ressentida).

LA 02/009

 

 

Não, pão de pobre não cai

com a manteiga para baixo —

porque não tem manteiga.

E sorte dele —

essa musse amarela

não é coisa saudável.

LA 02/009

 

 

Quando ela via o vizinho,

quase caía de susto.

E foram sustos e mais sustos,

até que um dia

o marido não aguenta:

Por que se assusta, Marilda,

sempre que vê o Francisco?!

— Eu!?... Nada não, meu bem, é que ele,

ele me lembra meu finado avô...

— Mas você não me disse...

— Sim, ele morreu moço,

só o vi em fotografias...

Ele era,

era de matar de amores,

dizia minha avó.

— Matava tanto, que morreu, Marilda?

— Sim, benzinho: morreu baleado.

Ah! Ele era irresistível,

palavras de minha avó.

LA 02/009

 

 

Ele vivia o que aprendeu a viver,

embora os adversários

lhe detestassem a vivência.

LA02/009

 

 

A filosofia

virou teologia,

a dialética da fé —

que se foi diluindo,

diluindo

até

homeopatizar-se —

pela manipulação.

LA 02/009

 

 

Agostinho é tão platônico,

que Platão diria que Agostinho

teria sido seu melhor aluno

e o encarregado de publicar (mais tarde)

o resumo do que escreveu —

transfusemas teofilosóficos.

LA 02/009

 

 

A igreja nascente procura amamentar

o Cristianismo despontante

com a fé-ciência-razão

buscada e parafraseada

dentro da filosofia grega —

tal filosofia,

dialetizada e sincretizada,

servirá de travamento

(desde cedo e cada vez mais incrementado)

da doutrina cristã.

Suas vigas mestras lhe são colunas

de um tempo virtual

a preservar o seu núcleo

(que ela-Igreja pretende intocável)

enquanto fortalece as estruturas continentes

com Aristóteles (readmitido) a partir do século 12

e de Platão desde sempre incorporado.

A filosofia buscada nos pagãos

criou estruturas e respostas

para todo o seu corpo doutrinário.

Agostinho, antes doidivanas,

encontra sua fé

(e se converte)

num livro de filosofia (Hortensius)

escrito por um tal Cícero...

Sim, se converte,

se refugia numa quinta

( escreve e estuda dia e noite),

até que aos 33 anos se faz batizar por Ambrósio.

Dali a poucos anos

era ordenado padre,

depois de mais um pouco

era bispo de Hipona.

E quando os vândalos fazem ruir o Império Romano,

ele tem na mão sua pródiga pena

donde saíra o melhor da Patrística

e o mais sólido da Escolástica.

Platão e Aristóteles

são os pais ideológicos do ocidente

e a carne da sopa do oriente.

LA 02/009

 

 

O homem adora ensinar

o que não sabe —

é que vê lá consigo

que precisa aprender.

LA 03/009

 

 

O maior bem

é termos por companheiro

de viagem-aprendizagem

e crescimento-entendimento

o Espírito de Deus.

LA 03/009

 

 

Os genocidas,

os ditadores,

os assassinos,

os torturadores,

os predadores do corpo

e da alma

têm uma terrível dívida

com toda a Humanidade.

LA 03/009

 

 

Se a água que tens na tua mente

é sagrada,

então entra no Ganges —

serás curado.

LA 03/009

 

 

Se lá na tua fé

não há grilhões —

então és livre.

LA 03/009

 

 

Cala para o amigo

e para o inimigo —

não deixes que ninguém pise

o território do teu coração.

LA 03/009

 

 

Saber,

ousar

e calar

formam um tripé antigo —

desprezado pelos tolos.

LA 03/009

 

 

Sim: há mais coisas entre o céu e a terra

do que o próprio céu e a terra.

LA 03/009

 

 

Lê tudo o que puderes,

passa pelo crivo,

pelo tamis do teu entendimento.

Um multiler, panler —

leituras, releituras, transleituras

e vai agregando ao teu acervo:

agregando e reciclando

em remoalhos de remoalhos

metabolicamente reprocessados

pelo tempo e a memória —

até que tudo,

tudo vá se transformando

na tua própria alma:

teu ser em ser-se.

LA 03/009

 

 

As pedras nos olham com uma cara

de quem sabe mil e mil coisas

mas que não adiantaria nos contar.

LA 03/009

 

 

As pedras sabem que por dentro

também somos de pedra.

E nos saúdam sem que percebamos:

Olá, irmãos do avesso, olá!

LA 03/009

 

 

No fundo, no fundo sabemos

que as pedras são menos duras

que a dureza que lhes atribuímos.

Aliás, não são bobas,

sabem que a dureza que vemos nelas

serve para nos justificarmos.

LA 03/009

 

 

Excelência,

também queremos

Cartão Corporativo

para a nossa tapioca,

jantarezinhos românticos

e (ninguém é de ferro)

para as nossas esticadinhas

até (agora o roteiro é este)

os principados árabes.

Dubai é mesmo divino,

bem que Vossa Excelência nos falou.

LA 03/009

 

 

Se der certo,

está certo.

Se der errado,

está certo.

Sim, as nossas incertezas

são paridas de certezas

que certamente

pensamos estarem certas.

Onde não cabe a dúvida

também não cabe o certo.

Onde não caberia o ódio

não cabe o amor.

A rosa sem espinho

só é mais uma flor.

LA 03/009

 

 

O vento abraçou tão forte o jasmineiro,

que arrancou seus lencinhos

perfumados e brancos

e os levou a outras árvores mocinhas

dizendo-lhes que os trouxera

da primavera

do outro lado do sonho.

LA 03/009

 

 

Água de morro abaixo,

fogo de morro acima...

se a mulher quer viajar,

seu moço, não a reprima.

LA 03/009

 

 

Ah, que vontade, nega,

de conjugar com você

o verbo amar

até bem madrugadinha!

LA 03/009

 

 

Marilda?

Matou um do coração

e mais de cem do bolso.

LA 03/009

 

 

Sim, vale bem mais que as penas

quando quem dança é a mulata.

LA 03/009

 

 

Castanha em chapa quente

pede outras mãos que a tirem.

LA 03/009

 

 

Entre as pedras

não ficará uma erva

que se preze.

LA 03/009

 

As pernas de Marilda tanto que correram

que chegaram bem antes do seu corpo

e se atiraram nos braços do garotão

ali na praia.

Ele as deixou sobre a toalha

sob o guardassol

e foi surfar.

Dali a muitas horas

um turista cor de pimenta

explica ao garotão:

Olha, eu fiquei com a parte de cima

e a dona mandou pegar o resto...

Posso levar?

— Claro! E leve-lhe isto, sim?

Era algo enrolado numa toalha,

duro como uma pedra

e com a forma (tateável) trivial

conhecida de todos.

LA 03/009

 

 

Uma vagina inteligente

conserva a casa,

sim: toda a casa

de pé.

LA 03/009

 

 

Para podermos ver

temos que subir nos ombros

que se nos oferecem.

LA 03/009

 

 

Gosto do penates

e de suas penas.

LA 03/009

 

 

Gosto de Rosa

e de todas as suas pétalas.

LA 03/009

 

 

Gosto do vinho

e de suas risadas,

belas nonadas.

LA 03/009

 

 

Também acho mais bela

a mulher do vizinho,

mas só isso.

LA 03/009

 

 

Se houvesse o nada

ia ser bem melhor que tudo —

exatamente por ser nada.

LA 03/009

 

 

Você, Marilda,

faz lembrar uma banana

amarela e pintadinha

no auge de ser comida.

Mas sossegue —

se a banana amanhã está passada,

você só vai estar melhor.

LA 03/009

 

 

Belas, gostosas praias!

Delícias gaias

sem blusas

nem saias.

LA 03/009

 

 

Que prenda, chê!

Parece um pêssego do avesso.

Com uma fruta dessa

você tem sucos no verão

e geléias no outono-inverno.

LA 03/009

 

 

Em cena uma diva dessa,

a gente não vê praia,

não vê mar...

A cabeça tilintada

de coruscantes martelinhos —

só pensa no verbo amar.

LA 03/009

 

 

Modéstia à parte,

todas as nossas praias

são lindonas:

risonhas faces

fofozudas.

LA 03/009

 

 

Saúde e felicidade

demandam contínuo movimento —

movimento por fora e por dentro,

como uma viagem dentro de outra viagem.

LA 03/009

 

 

Um pouco de felicidade

é necessário e bom.

Muita não: atrapalha —

a busca é bem melhor que a coisa,

posto que a coisa achada

já não é que outra coisa

de quando era sonhada —

achar é vermos que não era

senão enquanto achávamos que era.

É entre buscar e achar

que nós mudamos

e, mudando,

somos outros num mundo

que também já é outro.

LA 03/009

 

 

Nenhuma idade

nem perspicácia

ou saber algum nos basta

para lidar

com as mumunhas do amor.

LA 03/009

 

 

O amor

são nossos belos enganos,

nossos chiliques e fricotes

de mistura com os pistaches

de nossos narcisismos

e ridículos.

Mas tudo isso é bom,

sim, bom demais —

e o quanto temos.

LA 03/009

 

 

O arlequim e seus ridículos,

o amor e suas maiêuticas.

A tradução dos mistérios

depende das hermenêuticas.

Se Platão disse nonada,

também disse o que santos

foram buscar (noite cerrada)

com a cara deslavada

e tradução ajeitada.

LA 03/009

 

 

Senhor Proust, modéstia à parte,

também já vivi à sombra

das raparigas em flor.

LA 03/009

 

 

Laurinha era um bem-me-quer.

Desfolhei-a, desfolhei-a toda —

até encontrar a mulher.

LA 03/009

 

 

O amor se foi?

Pois dê graças a Deus.

De que outra forma poderias

arranjar outro e ver

que este de agora é bem melhor?

LA 03/009

 

 

Nosso mal é pensar que pensamos

e não sabemos pensar

nem as nossas feridas.

LA 03/009

 

 

Mariana era bela

como um poema zen —

vaziamente bela.

LA 0/009

 

 

Ela era crocante,

crocante como um biscoito.

Só que o marido

preferia brioches...

que nem aqueles

de Maria Antonieta.

Claro que lhe guilhotinaram

o que um homem mais preza.

LA 03/009

 

 

Um dia lhe disseram

que ela havia recasado.

Ele então se enforcou...

e no outro dia contou o sonho

ao analista

que lhe responde:

Não foi sonho não, André,

eu e Marilda nos casamos.

LA 03/009

 

 

Viva O Tempo!

 

Quando ela era moça

voava por sobre cercas,

grades e muros.

André, o maridão,

olhava o seu relógio de bolso...

e sorria.

E quantas vezes não afagou

com os olhos e dedos

seu precioso relógio

de bolso

e sorriu

num silêncio dourado!

Sim, quantas vezes. Até que um dia

ela cessou seus vôos. O próprio telefone

emudeceu, emudeceu, emudeceu

até perder a voz de vez.

Daí por diante

sempre que o relógio da sala

(era um belo casarão)

dava as suas horas

alegremente sonoras,

ele tirava do bolso

seu Ômega de ouro maciço

e sorria com ele na concha da mão

a ouvir-lhe o fino tinir entre rubis...

Era um olhar luminoso

e um sorriso transparente —

pareciam amar e agradecer

carinhosamente o tempo,

o tempo que fazia tudo o mais

ser esquecido com uma alegria

que tilintava e dançava em sua mente

como as peças em constante harmonia

no universo confidente

do amigo cúmplice e fiel —

seu precioso relógio de bolso.

E sempre que taças tiniam cristalinas

num efusivo brinde

ele pensava:

Que viva o tempo

e, dentro dele, a espera calculada.

LA 03/009

 

 

Bons tempos aqueles.

A filha da vizinha

(todo domingo às quatro e meia)

tomava banho com a mangueira

no quintal —

só de calcinha

(que no meio do ritual

ela abaixava para ensaboar...).

Os meninos enfiávamos os olhos

pelos desvãos do muro

e viajávamos por montes e vales,

por montes e vales,

por montes...

sempre com a mão muito ocupada.

LA 03/009

 

 

O beijo de Rosinha

tinha gosto de goiaba,

sem as sementes, claro.

LA 03/009

 

 

Osvaldinho era tão alto

que era comum Laurinha namorar

sentada no pilar do portãozinho.

LA 03/009

 

 

O Largo da Boa Morte era enorme.

O Alemão, filho do médico do Posto,

tinha uma Baratinha pé de bode tão bonita

que toda mocinha queria dar uma volta.

De vez em quando ele dava uns trocados pro Juca,

que era bom no estilingue,

pra quebrar (antes do anoitecer)

a lâmpada do poste em frente da casa da Rita.

Aí os dois namoravam invisíveis

dentro da Barata bordô,

sempre impecavelmente brilhando,

coruscando

com as rodas de raias niqueladas

e pneus faixa branca.

LA 03/009

 

 

... e o pensamento passou,

passou sozinho —

sim, não pude alcançá-lo

com outro e outro:

perdi-o para sempre —

não haverá o poema.

Nunca mais pensarei

outro tal como ele —

viajando sozinho,

desgarrado dos seus afins.

LA 03/009

 

 

A melhor droga

é vivermos sem ela.

É sabermos inventar

(ou provar)

aquele gozo em buscar

as delícias do intelecto —

o sentimento-razão

de passar pelos sentidos

outras gamas de saboreá-los —

a beleza de não se precisar

mais que da graça de viver

para crescer

rumo a outros em nós

e outros fora de nós —

numa interdependência

vital

que galvaniza os homens

e as coisas.

LA 03/009

 

 

Não, senhor, Deus não morreu,

foram os homens,

muitos homens que morreram

no que Ele lhes era.

Sim, tais homens já não deixam

que Deus os seja.

O problema vai ser quando o homem

já não tiver amigos,

nem forças,

nem ninguém a seu lado.

Quem lhe há de ser o mestre e amigo

naqueles dias em que já não sabe?

Quem lhe irá falar

no silêncio de sua alma?

Em que braço vai segurar

e que voz vai ouvir

que lhe alegre

e aqueça o coração

naqueles dias frios e sozinhos?

Finalmente, quem irá junto com ele

naquela viagem em que os que nos amam

não podem nos acompanhar?

Não, não acreditem que Deuspai morreu —

são os sonhos dos homens

que já não sabem sonhá-Lo,

por isso se esqueceram de que Ele os é

à espera de que eles O sejam.

LA 03/009

 

 

Ser homem

é bem mais que ser macho —

envolve mil e mil coisas mais,

principalmente ser humano.

O mesmo vale

para a expressão ser mulher.

LA 03/009

 

 

Escrevo

para pôr ordem na casa —

reorganizar-me,

sim, colocar as coisas

em seus muitos lugares.

Muitos?

Sim, sempre que mudamos,

as coisas já demandam

outros lugares lá em nós.

Desconstrução-reconstrução —

isto mesmo: renascemos

de nossos próprios escombros:

de nós outra vez caos

a recriar nosso cosmos.

Escrevo

para saber o que não sei

por fora de mim consciente —

o inconsciente só sabe

quando quebra a casca do sonho

e sente o sopro da vida

para então poder voar

com as penas que a vida impinge

depois de nos depenar.

Escrevo

para continuar vivendo —

escrevivendo.

LA 03/009

 

 

Quando o bilionário expirou,

desligaram os aparelhos

que o mantinham ofegando.

Tão-logo tiravam as borrachas sondas

cateteres

agulhas ataduras gazas esparadrapos

viram que seus despojos lentamente

se transformavam em notas e moedas

sujas e ensebadas, de todas as fases de sua vida

e das partes mais ricas do mundo:

moedas e notas (coisa estranha!)

em visível putrefação.

De sorte que seus filhos (todos banqueiros)

puseram tal húmus monetário

num saco plástico,

meteram-no num esquife (lacrado)

e, velando-o rapidamente,

enfiaram-no num jazigo,

sem palavras, sem olhos embaçados.

E voltaram correndo para seus postos

porque tinham aprendido

com os enfermos tiranos do mundo

que tempo,

tempo é dinheiro.

LA 03/009

 

 

Passarão dias e noites,

mas meus gozos de amá-la,

esses serão comigo.

Sua lembrança em mim

é como o caroço entranhado

na doce carne do pêssego.

Extraí do seu corpo

os tesouros do efêmero.

E assim vinguei-me da morte:

antes que ela viesse,

morri de amores.

LA 03/009

 

 

Tudo o que carregamos

em alma-coração —

isto é nosso:

seja bom, seja mau —

isto é nosso.

A nossa volta para casa

será mais longa

ou menos longa

a depender do que levamos

em alma-coração.

LA 03/009

 

 

O rio é em nós.

São águas escuras e profundas

que temos de atravessar.

Se os bolsos do desejo

vão cheios do ouro da ambição,

como iremos transpor as nossas águas?

Para nos livrarmos da correnteza

precisamos aprender a ser leves —

alijarmo-nos de nós

e do mundo.

LA 03/009

 

 

A Vida É Graça...

 

A vida é graça sem alternativa.

Uma vez dada, vai restar vivê-la.

E qualquer que te seja a bela estrela,

só a verás de longe e sempre esquiva.

 

Sopraram-te no barro com saliva —

ao menos a metáfora é singela.

E, aí, começa-te a medonha e bela

saga no mar do tempo que te ativa.

 

... mas tens o amor e o humor na caminhada.

Ambos podem tornar a tua estrada

nas delícias da infância em tobogãs.

 

Vai devagar! Sim: vê se não te cansas.

Até porque as nossas esperanças

são amanhãs manchados de amanhãs.

LA 03/009

 

 

Fim de verão vai se imbricando

com o início do outono —

duas jarras

a misturar seu conteúdo.

O épico

vai dando entrada

para o lírico —

a Cavalgada das Valquírias

vai se perdendo no desfiladeiro...

e entre ramos e folhas

já se ouve a Berceuse

de Brahms.

Apesar de tratada por algozes,

a natureza ainda é pontual.

LA 03/009

 

 

Amy tanto canta

como espanta.

E é pelo espanto

que encanta.

Amy é louca,

loucamente

interessante.

Amy é um caso

dela

para com ela.

Amy n’est pas son amie,

c’est-à-dire —

n’est pas amie de soi-même.

Est-ce qu’elle est francaise?

Oh, no! Sh’is english.

LA 03/009

 

 

Por que a senhora me deixou

ir à escola descalço,

tão malvestido e sujo?

Por que não me amparou

quando mais precisei?

Por que me entregava ao algoz

que por pouco não me matava

fazendo vazar meu sangue

e meu mijo me molhar as pernas?

Por que a senhora deixou o algoz

me arrancar da escola

e me levar criança de tudo

para o trabalho forçado?

LA 03/009

 

 

Quando você se suplanta

e mostra o de que é capaz

criando obras de talento,

então seus inimigos são outros:

os de intelecto insuficiente

e perfidamente invejosos.

Despreze-os sem se esquecer deles —

tenha-os no rabo do olho,

senão destroem você.

Mas não os persiga

nem lhes faça mal algum —

eles cairão por si mesmos.

LA 03/009

 

 

Ama a Deus, a você e ao outro.

A vida é muito preciosa

para usurarmos o amor.

LA 03/009

 

 

Se não gostas do que vês,

estás no caminho certo.

E mãos à obra junto com aqueles

que também não gostam do que veem.

LA 03/009

 

 

Sem o sentimento da verdade

e a procura da beleza,

o homem é muito pequeno.

LA 03/009

 

 

Se você coleciona doenças,

falarão de sua pessoa

encarecidamente

e até com simpatia.

Se coleciona êxitos,

tentarão enterrá-lo com pazadas

e pazadas de silêncio.

LA 03/009

 

 

O fraco é aquele que apanha

cansado de bater.

LA 03/009

 

 

Querer que nos compreendam

é uma baita de uma noia. Muito egoísmo,

e um dos estrepes do relacionamento.

Respeitar e julgar-se respeitado,

amar e julgar-se amado —

já não é bastante, chê?

LA 03/009

 

 

Deuspai ao criar o homem Se exaltou ao máximo,

por saber talvez que o homem

já nasceria com inveja Dele

e a querer dia e noite

passar-Lhe a perna

e fazer-Lhe pirraças.

LA 03/009

 

 

A melhor maneira

de se entender uma mulher

é usar o sétimo sentido.

LA 03/009

 

 

Acabar com uma amizade

é mais fácil que começá-la?

Não sei não. Já vi amizades

acabadas

sobrevivendo no puro ódio.

LA 03/009

 

 

A arte é útil

quando você está bem.

Bem inútil

quando estamos sem fulcro

em nós mesmos.

LA 0/009

 

 

A verdade e a mentira das coisas

somos nós.

O tempo existe para nós

e não o contrário disso.

Existe como conduto

essencializador da vida.

O tempo torna o ser plástico:

ontoviajável

por multiversos de si mesmo.

Perceber-se e perceber as coisas

é expandir-se dentro e fora

em registros reprocessados

e interligados ao que sabemos

e ao que estamos a caminho

de saber.

LA 03/009

 

 

O melhor da arte

é subirmos degraus por nós mesmos —

pondo luz nos esconsos

do nosso antigo castelo.

Quem a faz lucra,

quem a manuseia, igualmente:

lá no fundo precisamos

das mesmas coisas

para nos realizarmos

nas nossas diferenças.

LA 03/009

 

 

Sexo e cheque

precisam de fundos.

LA 03/009

 

 

A insatisfação,

a não-conformação

são os tesouros dolorosos

da alma.

LA 03/009

 

 

Morrer por uma coisa é uma pena,

mas se você insiste...

posso até ir ao enterro.

LA 03/009

 

 

Morrer é chato,

sempre muito chato.

Mas, pensando bem,

não fazemos outra coisa —

morremos a vida inteira.

LA 03/009

 

 

Progredir é gostar de enganar-se —

é tentar fugir de algo mais essencial.

Progredir só é necessário

para não se ser atropelado,

mas só isso.

Quando não acertamos

os passos interiores com os de fora,

estamos nos enganando.

LA 03/009

 

 

Para os outros

nossas tragédias

são comédias.

LA 03/009

 

 

Querem-nos coerentes

para nos pear,

nos dirigir

como a seus cães.

LA 03/009

 

 

Querem-nos francos,

sinceros,

para colher-nos os pensamentos

como num confessionário —

para usar nossa pessoa

contra a nossa pessoa.

LA 03/009

 

 

O paradoxo mostra que os opostos

se explicam

e se resolvem em um novo conceito.

LA 03/009

 

 

Os pobres só não são ricos

porque os ricos não deixam.

Os primeiros são arrogantes,

os segundos invejosos

e esses dois vivem igualmente

de se explorar.

Os miseráveis sobrevivem

das ridículas migalhas

desses dois.

Já a elite os teleguia

a todos eles.

LA 03/009

 

 

Fale bem dos seus inimigos,

eles ficarão embaraçados,

não saberão o que fazer.

Mesmo assim não os poupe —

fale sempre bem deles.

LA 03/009

 

 

Experiências

é o nome que damos

às nossas cabeçadas,

ao nosso quebrar a cara.

Dizem que elas ajudam,

mas eu preferia

não me machucar tanto.

Tenho muito que aprender

e uma só cara.

LA 03/009

 

 

Não ver as coisas como elas são,

de duas uma —

ou você é um louco

ou um artista.

LA 03/009

 

 

A estupidez,

a tristeza,

a falta de apetite

deviam ser pecado.

LA 03/009

 

 

Não é o são,

mas o enfermo

que precisa do amor

que geralmente não há.

LA 03/009

 

 

Sim, as mulheres são esfinges —

ou as deciframos

ou nos matam de prazer

de não nos dar prazer.

LA 03/009

 

 

Os homens são terríveis.

Sim, tão terríveis que inventaram a sociedade —

esse comerem-se uns aos outros.

LA 03/009

 

 

A melhor maneira de nos vingarmos da morte

seria sermos felizes.

LA 03/009

 

 

Sim, ser feliz, não raro,

dá um trabalho danado.

E a maioria prefere

não fazer nada.

LA 03/009

 

 

Em geral a beleza

não é sadia,

mas mesmo assim adoramos

seu narcisismo.

Sua loucura trivial.

LA 03/009

 

 

Agradeça a Deus quando não responde

às suas preces.

É que em vez da resposta

Ele decidiu

livrá-lo de bobagens.

LA 03/009

 

 

Ouvir música é bom —

arranca-nos de nós

e leva-nos para onde ela quer:

tornamo-nos seus reféns,

isto é, reféns do passado

que ela desenterra.

LA 03/009

 

 

O maior erro é vermos

as coisas muito de perto.

LA 03/009

 

 

A soberba acumula,

já a dor despe

as máscaras.

LA 03/009

 

 

A fraqueza ou a força de uma pessoa

tem base no seu passado.

LA o3/009

 

 

O objetivo de viver

é vermo-nos,

é percebermo-nos de dentro

para fora,

de fora

para dentro.

Quem se vê

vê o outro,

vê o tempo e o que há fora dele:

o espaço.

LA 03/009

 

 

Sim, temos uma tarefa com nós mesmos,

que é acompanharmos no tempo

nosso desenvolvimento e crescimento

e nos tornarmos criadores

de situações benéficas e favoráveis

a nós, à vida em nós

e à nossa volta.

LA 03/009

 

 

Sou a única pessoa no mundo

com quem me assento

e posso despir todas as máscaras

sem que isso me faça mal

ou me destrua.

LA 0/009

 

 

Perder amigos é bem normal —

principalmente quando se cuida com disciplina

do próprio crescimento.

LA 03/009

 

 

Quem é o homem, que hoje está

e amanhã já não existe?

Entre a vida e a morte

só podemos viver

enquanto a vida nos é dom e graça.

O mais... que sabemos do mais?

Neste momento a grande atriz

(ceifada tão de repente)

vai precisar de outras luzes

que não apenas as da Broadway.

LA 03/009

 

 

Sem a ilusão

o violino teria menos uma corda.

LA 03/009

 

 

Simples ou complexa,

a vida é o que é:

dom e graça.

LA 03/009

 

 

“Sinceridade”, “sinceramente”

são hoje imagens de cera

no museu do cinismo humano.

LA 03/009

 

 

As pancadas vindas de fora

nos ferem, doem bastante,

mas a gente as vai curando,     

curando

até que outras novas

as fazem esquecidas.

O diabo são aqueles machucados

vindos de nossas próprias mãos...

Ah, esses doem demais!

LA 03/009

 

 

Você já teve aqueles amigos sérios e adultos,

tipos que sentam virados para você

e falam mirando nos seus olhos?

Pois até isso eu já tive!

LA 03/009

 

 

“Te juro!”

“Siceramente...”

“Francamente...”

“Pela saúde de meus filhos!”

Pela alma da minha mãe!”

Frases assim a experiência

nos faz chamá-las

de arcaísmos morais.

LA 03/009

 

 

Aquele que deixou de ser medíocre

vai perder muitos amigos.

LA 03/009

 

 

O engano, a desilusão

são hóspedes assíduos

do amor.

LA 03/009

 

 

Há músicas que fritam bolinhos

na cozinha do nosso passado.

LA 03/009

 

 

Citar idéias é fácil,

o duro é pô-las em prática

ou transformá-las em obra.

Por isso muitos nos dizem:

“Tenho tantas idéias tão bonitas!”...

julgando que não as temos.

LA 03/009

 

 

Fui deixando aqueles amigos

que me alugavam para ouvir

suas genialidades

e jamais admitiriam

que o que diziam

eram copiosas bobagens.

LA 03/009

 

 

O melhor desta vida

não nos vem por esforços hercúleos,

mas pela graça —

dons que alegram o coração

e nos remoçam as esperanças.

LA 03/009

 

 

Hoje se sabe que o mundo

se equilibra

sobre um vender-comprar,

comprar-vender —

e nada, nada mais.

Cabe a cada um desconfiar

que a vida é muito mais

do que a sociedade

nem se importa de saber.

LA 03/009

 

 

O mentiroso é sempre fascinante,

sempre eloquente,

explica e sabe tudo,

sempre doutor em transparência,

de tal sorte que aquilo que nós vimos

não era aquilo que nós vimos,

mas outra coisa que não a coisa

daquilo que imaginamos

ser a verdade da mentira...

E o mundo o adora e aplaude —

pedra de canto

da sociedade.

LA 03/009

 

 

A maioria dos homens

hominizam o diabo,

deixam o pobre possesso

de hominidades —

e fazem horrores

em nome dele.

LA 03/009

 

 

Perdoar ao inimigo

é fazer-lhe o maior dos desaforos.

LA 03/009

 

 

Quem hoje se envergonha de seus velhos ridículos

não está fazendo outra coisa

senão ridicularizar-se.

LA 03/009

 

 

Nossos ridículos nos enriquecem —

passam-nos e repassam-nos

pelo filtro da consciência,

pelo crivo do nosso entendimento —

fazem-nos ver com lentes de aumento.

LA 0/009

 

 

Tive uma bela vizinha

que se casou com um fantasma.

Pouco depois da lua de mel

ele desapareceu.

LA 03/009

 

 

A política é a arte

de saber vender imagens —

arquétipos que respondam

aos sonhos e esperanças

de um povo

nas premências do seu tempo:

no exato momento

em que verdade e mentira

se fazem desinteressar.

LA 03/009

 

 

Ninguém domina mais as mulheres

que as próprias mulheres.

LA 03/009

 

 

Sem mistério, meu caro:

você é

o que pensa,

o que sente,

o que sonha,

o que espera

no que faz —

isto é você,

não há como negar-se

para você.

LA 04/009

 

 

A miserabilidade

nunca teve argumento.

E o que não tem argumento

segue igual —

não muda e, não mudando,

não acaba.

LA 03/009

 

 

Uma doença

mais antiga que a lepra

(e pior que ela

porque não se vê com os olhos)

é o narcisismo.

É doença nefasta,

doença de lesa-humanidade.

É a doença do “eu mereço”,

“não tenho culpa”,

“não há pecado”,

“faria tudo de novo”,

“acabo com você”,

“só me arrependo do que não fiz”,

e por aí vai —

tripudiando na vida

e no mundo.

LA 03/009

 

 

A morte não sei o que é.

A vida também não sei.

Mas entre as duas sinto

o eterno da poesia.

Se a morte é coisa da vida,

deve ter seu lado bom.

O mistério (para mim)

são as delícias de não saber.

LA 03/009

 

 

A morte é um jeito

que, aliás, a vida encontrou

pra ser chata em outra parte —

lá onde ninguém sabe

nem viu

nenhum tigre que rugiu

nem os pulinhos

do tiziu.

LA 03/009

 

 

A morte é dose forte.

O bom é não tomar,

isto é, poder adiar.

LA 03/009

 

 

A morte é tão boçal,

que a gente se envergonha —

fica sem graça.

LA 03/009

 

 

Não, não pulo o teu muro.

Quero te amar,

e não mifur!

LA 03/009

 

 

Laura é divina, perfeit...

Isto é, seria perfeita

não fosse o seu excesso

de caráter.

LA 03/009

 

 

Era ocultista —

namorava a vizinha

em projeção astral.

LA 03/009

 

 

O amor tem essas coisas...

essas doces coisas.

Que se cuidem os diabéticos!

LA 03/009

 

 

O charme do amor

é ele ligar mais para o dinheiro

que para si.

LA 03/009

 

 

O amor, como as crianças, —

adora se molhar.

LA 03/009

 

 

Sim, o amor é cego,

mas só do terceiro olho.

LA 0/009

 

 

Não... o terceiro olho

não fica aí embaixo,

mas entre as duas sobrancelhas —

um poucochinho acima,

palavra de gurus.

LA 03/009

 

 

Depender de um guru

é ser fantoche

de não se conhecer.

LA 0/009

 

 

A necessidade da bênção

é do tamanho

do medo da maldição.

LA 0/009

 

 

Não, você não precisa de um guru

para saber

“seu grau de iluminação”,

“a grandeza da sua estrela”,

“seu lugar cósmico na vida”...

Apenas volte atrás três dias

e de lá ao seu momento-agora,

lembre o que pensou, sentiu, falou,

viu, ouviu, imaginou,

comeu, bebeu e fez —

tudo o que fez, e deixou de fazer,

isto é você.

LA 03/009

 

 

Em papinha de homem e mulher

só Maria da Penha

bota a colher.

LA 03/009

 

 

Ensinaram-me que a culpa

é da culpa que a inculpa —

portanto: de ninguém tal culpa

senão da culpada culpa

que, se pedir desculpa,

torna-se inculpe culpa

e evapora-se não-culpa.

LA 03/009

 

 

Ensinaram-me que o erro

foi um treino do acerto —

portanto: equívoco do certo

que chamaram de erro

não tendo outro nome decerto

para justificar que o erro

não foi nem erro por certo.

LA 03/009

 

 

Ensinaram-me que a verdade

é o avesso da mentira

que, pensando ser verdade,

se gaba por ser mentira —

sendo a mentira na verdade

uma verdade de mentira,

é que a mentira é uma verdade.

LA 03/009

 

 

Ensinaram-me que o amor

é tão um só com o ódio,

que em geral vira odiento amor

e o amor amoroso ódio —

de sorte que o belo amor

é um lindo poema de ódio

que se traduz por amor.

LA 03/009

 

 

Ensinaram-me que a vida

é concubina da morte

que, tendo inveja da vida,

prepara-lhe negra sorte —

pois que amarga ou doce a vida,

por existir a morte,

é sensato sorrir pra vida.

LA 03/009

 

 

Não, não gostei do pôster.

Esta pose de semidesmaio

é muito século-XIX.

Prefiro a femineza viva:

aquela emanação-mulher

com olhos e sorriso sem vergonha.

LA 03/009

 

 

Nossos olhares se cruzaram no ar

e foi aquela gala

de beija-flores.

LA 03/009

 

 

O maior bem do amor

é podermos esquecê-lo.

LA 0/009

 

 

O mais belo do amor

é não precisar nem sê-lo.

LA 03/009

 

 

As loucuras do amor

são mais gostosas de lembrar

do que fazer.

LA 03/009

 

 

Se não investimos no amor,

como depois lembrar-lhe

o charme, as delícias

e as desfalcadas poupanças?

LA 03/009

 

 

Mesmo não tendo dado certo

o amor é a coisa mais certa

dentre as nossas incertezas.

LA 03/009

 

 

Misture as lembranças más

com as boas

e faça dar um saldo positivo.

LA 03/009

 

 

Exija pouco da vida,

que não gosta dos fracos

nem dos tais delicados,

e aprenda, cara, aprenda a ser feliz

mesmo na desventura.

LA 03/009

 

 

Melhor é adaptar-se

do que decaptar-se

pelo machado do mundo

ou pela guilhotina

da vida.

LA 03/009

 

 

Os amores que inventamos

são logo desinventados

pelo relacionamento.

LA 03/009

 

 

Mas que é que se vai fazer

por esses sertões de Deus

senão amar amar amar

até dar calo no desejo?

LA 03/009

 

 

De fodapse em fodapse

HIV vai dando os seus pulinhos.

Manha, esperteza e charme.

Vai poder!

Sim, cientistas afirmam

que o vírus da aids

faz como as sinapses neuroniais

para saltar de uma célula

imunológica

a outra.

E assim esse espertinho

se espalha por todo o corpo.

Conclusão:

o safado é mesmo pulador.

LA 27/03/009

 

 

Chuvas

 

Saudade, nega,

uma saudade-vontade

daquelas chuvas

e dos bolinhos com café fresquinho

nas tardes saborosamente longas

de jamais te esquecer.

Saudade, nega,

uma saudade-falta

do fumegar daqueles sonhos

entre amor, café, bolinhos

e a nossa facilidade

de fazer, fazer, fazer

chover.

Lá fora o vento,

o vento que gemia

entre os ramos despojados

Outono-inverno bocejavam

seu frio e brumas pelo ar...

Aqui dentro: amor, bolinhos,

café ou vinho

entre almofadas

e asas de fogo ou almas,

almas que sobem e desaparecem

subindo da lareira...

E a beleza, minha nega,

a beleza sem tempo ou pressa

de podermos fazer fazer

fazer

chover.

LA 03/009

 

 

Malas Prontas

 

Vou-me embora pra Dubai,

lá me disfarço de rei...

et cetera e mulheres mais

mulheres e gostosamente mais

mulheres: das formais

às mais triviais,

das bem sentimentais,

das racionais —

aquelas entre siderais

e terrenais:

mulheres e mulheres mais

mulheres bem universais

ou bem tribais,

doidonas e normais,

sempre atuais, mulheres mais

mulheres: sempre mais

porque jamais iguais.

LA 03/009

 

 

Sonhei que tua piscina tinha secado,

virado pó como um rio do agreste.

E me alegrei, não sei por que me alegrei.

Depois já não era piscina o que secara,

mas algo sem forma interior em mim —

sim, era em mim que secaram as águas

que se conformavam em todos os teus contornos.

Sem maré cheia

como chegar ao teu castelo?

LA 03/009

 

 

Devastação

 

Devastação geral.

Não querem ver vegetal de pé.

Orla de mares,

margens de rios, riachos, regos,

tudo passa pela fúria em derrubada

dos gulatras.

De geração em geração —

da pedra ao machado,

do fogo ao veneno,

da serra às bombas,

aos mísseis nucluares:

devastação geral.

Quem os segurará?

Uma raivosa síndrome

das derrubadas.

Até o púbis humano,

faz tempo,

entrou em derrubada ciliar.

Parecem mais é minhocas,

regos d’água —

deslavados, desenxabidos

em aridez nua e crua,

minhocando/lesmando

num deserto...

Na mulher só restou

(quando restou)

uma ilheta de comprido,

logo acima

do sorriso vertical.

Ficou com a cara escanhoada

como soldado

recém-chegado da guerra.

Devastação geral.

LA 03/009

 

 

Haiti

 

Arrasado pela guerra,

pelas chuvas,  pela lama,

furacões, doenças

e a perene miséria,

o Haiti tem sobre a sua cabeça

uma nuvem negra, espesso-felpuda.

Sua gente por muito tempo

sofre tais sombras, tais horrores.

Sua terra sofreu

a mão de ferro do mundo,

a ladra opressão dos donos.

Esta desventurada terra,

a mais pobre do continente,

praticou

e pratica a magia negra —

o vodu,

feitiçarias das pesadas

em pactos medonhos.

Foi o modo que encontraram

de resistir (passivamente)

aos donos: ódio com trevas vivas.

(E só sairá desse caos

pelo oposto do que praticou.)

Este país lembra bem

aquele adágio latino —

um abismo chama outro abismo:

Abissus abissum invocat.

O Haiti precisa de ajuda.

O Haiti está sendo ajudado.

LA 03/009

 

 

Quando Rosinha, lá do outro prédio,

me manda beijos,

também disparo minha ternura

e nos acasalamos no ar

numa explosão de afetos.

No caso, não usamos antimísseis,

mas pró, pró-mísseis.

LA 03/009

 

 

O que é de poetas brasileiros

ensinando a fazer poesia —

não dá nem pra computar.

O que eles fingem não saber

é que os professores de literatura

e seus críticos

nunca sabem fazê-la.

LA 03/009

 

 

Com a Internet

quem ama a poesia

(e a faz)

como processo

de autoconhecimento

já não depende dos donos —

é só dar-lhe as asas de um site.

O ideal é publicar

dois ou três livros,

distribuí-los ao redor

e o mais,

o mais é ir pondo aos olhos

do mundo inteiro

através de um caprichado site.

Bons tempos!

É o fim dos clãs,

dos feudos.

Bons tempos!

A poesia

já não precisa do papel,

é ar, é mundo, é luz —

entra e sai pelas retinas

e vive a um clique de nós.

LA 04/009

 

 

A literatura,

sendo um processo,

não dá para ensinar a fazê-la.

É um processo autófago:

quando você vai ver,

já não está, — comeu-se.

E ela não se congela no tempo,

jamais se congela —

o leitor a atualiza

a seu modo e a seu tempo.

LA 03/009

 

 

É como a busca do novo,

quando você o consegue

ele já não o é.

LA 03/009

 

 

Sim, as coisas não duram —

ou se devoram ou mudam

em e por si mesmas.

LA 0/009

 

 

O melhor que fazemos

é não saber das coisas.

Sim, não sabê-las

para poder intuí-las

por um saber de lado —

o que vê por outras gamas

e constrói

por mãos interiores.

LA 03/009

 

 

Como você acaba de ver,

ensinar

é a maior das tentações.

Ninguém escapa.

LA 03/009

 

 

O melhor de nossos tempos

é existir a Internet.

Pelo nosso site

todos sabem quem somos

e fazemos

ou pensamos ser

e fazer.

Literalmente,

virtualmente —

outros tempos:

triunfo dos que amam escrever,

mas se recusam

a bajular.

LA 03/009

 

 

Queensboro.

Passarás por ela várias vezes,

mas nunca te encontrarás no outro lado.

É apenas uma ponte por fora de nós —

só leva a lugar nenhum,

embora já faz cem anos

nos concede travessias.

Temos de construir a ponte

do nosso ultrapassarmo-nos,

assim nos veremos outros

tão-logo nos transpomos.

Queensboro está cansada.

Também nós estamos cansados

de atravessarmos pontes

sem irmos nunca além de nós.

LA 03/009

 

 

Moda

 

A moda pegou nos States.

Mais um gajo faz chacina.

Hoje, num asilo de idosos:

doentes do mal de Alzheimer.

Sim, a moda pegou.

Um narcisismo que extrapola.

Mesmo como assassino hediondo,

o indivíduo quer refletir-se,

quer desesperadamente aparecer.

Doença pura,

doença humanofóbica,

psicoegolatria:

pessoal e social.

Esta foi a terceira chacina

na terra de Luther King

neste mês de março.

Apenas relato.

Não julgue que penso dessa gente

isto ou aquilo, apenas vejo

um modo diferente de matar.

Cada povo com os seus modos loucuras,

os nossos não são menos perversos.

Sim, o homem é o homem

onde quer que seja.

LA 29/03/009

 

 

Conhecimento e autoconhecimento

devem ser busca assídua do dia-a-dia

ao lado de outras mil e mil necessidades.

LA 03/009

 

 

Não precisas descobrir algo por que morrer,

mas saber por que viver.

LA 03/009

 

 

Sempre tirei um tempo

para fazer o que mais gosto —

ler-escrever.

E jamais negligenciei minha profissão

pela arte. Dava a cada uma

o que é de cada uma.

Não fui fantoche de nenhuma delas.

LA 03/009

 

 

Em geral construímos o cenário

de nossos dias —

o da ribalta e o do poscênio.

LA 0/009

 

 

Não saberemos nunca o que dói mais —

se a calúnia dos inimigos

ou o silêncio dos amigos.

LA 03/009

 

 

Quem nos dias maus não se desespera

nem se faz arrogante na prosperidade

alcançou o equilíbrio.

LA 03/009

 

 

Não se levar muito a sério

é um modo de não despencar

no narcisismo tolo.

LA 03/009

 

 

Se não podemos fazer o melhor,

pelo menos o que fazemos

deve ser feito

com um sentimento de verdade.

LA 03/009

 

 

Não duvidemos, nunca duvidemos

que um amanhã vem vindo aí

diferente de todos os amanhãs

porque trazendo sonhos

gerados num futuro transonhado.

LA 03/009

 

 

Se não puder ser feliz,

invente um modo de sê-lo

e viva-o como se fosse

a sua verdade.

LA 03/009

 

 

Os inventivos, pequenos e anônimos,

não raramente, beneficiam a maioria.

LA 03/009

 

 

Odiar é enfraquecer-se,

além de se fazer do tamanho

do inimigo.

Neutralizar a ofensa

pelo perdão

é livrar-se dela

e do ódio nela imanente.

LA 03/009

 

 

O que eu tinha,

o que eu tinha nas mãos...

um tanto me vazou por entre os dedos,

outro punhado me roubaram

e muita coisa a ferrugem comeu.

Mas meus melhores amigos

e companheiros de jornada:

o amor, a fé, a esperança —

estes meu coração soube guardar.

Guardei também (aliás, mais que guardei:

assimilei em alma-coração)

as palavras do Galileu,

o Cuspido e Pregado,

de modo que eternamente em mim

eu-as-sou-elas-me-são —

num só corpo, num só espírito.

Sim, não reclamo,

gozo de boa companhia.

LA 03/009

 

 

Aquela cela especial para bacanas

está para acabar.

Se passar mesmo a lei

vai ficar bem difícil

pro cara salvaguardar o “seu”.

Claro: isso não valerá

para a elite.

LA 03/009

 

 

André dizia

que as mulheres que não existem

são as que mais adoramos.

LA 03/009

 

 

Velho Tipo

 

André casou nove vezes

e foi baleado

por dezesseis trabucos.

Felizmente, dizia sua mãe,

só pegava de raspão,

quando pegava.

André era do tipo sonso,

calmo, sorriso fácil,

jovial,

sempre afagando com os olhos...

Podre de rico (desde os tataravós),

fazia o estilo vagabundo,

largadão.

Na média e velha cidade

não eram poucas as mulheres

que desfaziam dele

quando estavam com o marido.

.......................................................

E assim foi, assim foi, assim...

André (para usar termos da época)

pintava, bordava e chuleava.

E assim foi, assim foi, assim...

 

Aos cinquenta e poucos,

foi para a Europa... e adivinhem!...

Entrou para sempre

na Ordem dos Franciscanos.

LA 03/009

 

 

Mais Uma Reunião

 

G-20 chegou anteontem,

pegou o rango na casa da rainha,

reuniu ontem

e hoje voltou pra casa.

Claro: quem era rico voltou rico,

quem emergente, emergente,

quem sub, sub.

Nem faltou o espetáculo

colorido dos protestos —

o pau comeu solto em Londres.

E vamos ao que importa,

espiemos, por uns segundos,

a reunião:

................................................................

????!!!!????!!!!???...............?

!!!!!??????!!!!??!!....!!!???...

.............??!!!!......????!!!!!......

......................?...........................!!!!..........?

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Risos, risos, muitos risos

....................................................................................

 

Mais uma vez

o reaprendizado:

choveram no molhado,

jogaram pó no deserto.

Mas nem por isso

menos esclarecidos,

menos convictos —

é cada um pra si

e muitas nuvens para todos.

O chefe da nação líder

fez um discurso

muito menos simpático

que seu sorriso e pessoa,

que resumo num adágio,

já que o adágio é coisa antiga:

Para a vida e a economia

não existe garantia.

LA 02/04/009

 

 

Passei lá na Daspu

e te trouxe estes paninhos.

Disseram-me que é só vesti-los

e eles se tornam visíveis.

Toma, nega, veste logo,

que tô que tô!

LA 04/009

 

 

Tinha-o como braço direito,

mas nunca soube que ele era canhoto.

LA 04/009

 

 

Velha Dança

 

O homem não soluciona,

apenas modifica.

Sim, tais modificações,

nem bem ainda feitas,

já começam a clamar

vorazmente por outras —

abismos engolindo abismos.

Mais uma vez os grandes

tropeçam na sua empáfia,

caem nas próprias armadilhas.

Fingiram que o mercado

fosse auto-regulável.

Fingiram não ouvir

o ruir por todo o mundo

da ideologia

do capital.

Dominadores,

sem a maromba,

vacilam pelo arame

que pensavam

ter armado para outros.

Os dominados —

no chão, na lama, na vala.

A sujeição das nações

e das pessoas

aos interesses das elites —

os donos,

a minoria predatória.

Desemprego,

terrorismo.

Os ricos

fazem o mundo dançar.

O mundo inteiro dança,

dança sobre o insustentável —

a mesma dança à mesma música,

o mundo inteiro dança,

dança sobre o insustentável —

só mudam os requebros

de cada povo.

LA 04/009

 

 

— Entre os chipanzés, meu bem,

ninguém é de ninguém.

— Entre os homens também.

LA 04/009

 

 

Há mulheres que ouvem cantadas

todo o santíssimo dia —

são as mulheres dos tenores.

E aquelas que jamais ouvem —

são as surdas.

LA 04/009

 

 

Melhor que comer pudim

é não sofrer de diabetes.

LA 04/009

 

 

Melhor que uma mulher

é nenhuma,

que seja a nossa.

LA 04/009

 

Uma no dedo

é melhor que mil delas

na passarela.

LA 04/009

 

 

Sério mesmo, só a morte.

O resto a gente faz rir.

LA 04/009

 

 

Meu amigo tinha uma cara

de quem amava o sofrimento —

curtia,

adorava o status de corno.

LA 04/009

 

 

Uma amiga me disse

que não fazia nunca em pé.

Sofre (perguntei) de labirintite?

Não! É que o cara

pensa que não valeu.

LA 04/009

 

 

André corrigia a canção:

Ninguém é de ninguém —

deu brecha, a gente traça.

LA 04/009

 

 

Amanhã será um outro dia.

— De quem é mesmo esta frase?

— De uma mulher muito ferida,

após perder tudo o que nunca teve.

É a frase dos infelizes,

dos orgulhosos vencidos.

LA 04/009

 

 

Os acostumados a ganhar

são aqueles a quem a Vida

olha com certo riso...

porque sabe que quando perdem

alguma coisa

se esquecem de tudo o que ganharam.

LA 04/009

 

 

A beleza da vida

são as suas incertezas —

que encarecem o momento.

LA 04/009

 

 

Se um dia eu te perder,

perco o que nunca tive.

LA 04/009

 

 

Se um dia você me trair

eu me mato de rir

por você não ter tido tempo

de tê-lo feito bem antes.

LA 04/009

 

 

Os óculos escuros

nos permitem não revelar

o que sentimos pelo morto,

além de atocaiar os vivos.

LA 04/009

 

 

Se te matas,

como vais rir do que fizeste?

LA 04/009

 

 

Não, não te mates.

Vais precisar levar

um relatório consciente

de tua estada aqui.

LA 04/009

 

 

O que somos é coisa nossa.

Sim, temos de saber o que fazer 

com o que somos.

LA 04/009

 

 

Nosso julgamento

será nossa consciência

bem dentro de si mesma

vendo-se  no cristal

de seus atos

com uma lucidez

que dói.

LA 04/009

 

 

Fez muito bem, Amy,

muito bem em tirar os trapinhos

e mostrar os coelhos pra gente.

Lamentável

foi não mostrar o resto,

Amy.

LA 04/009

 

 

Ensaios Sensuais

 

Fulana foi convidada

a posar nua,

mas o marido pagou duas vezes mais,

e ela abriu mão.

Uma vez, pela revista.

Outra vez, por não ter se mostrado.

Não demorou

surgiu outra proposta

e outra mais e mais outra e outra...

que o esposo ia cobrindo duplamente,

ia cobrindo, ia cobrindo até que...

Faliu.

Aí fulana teve que posar

para ampará-lo:

deu-lhe cinco por cento

e o botou num asilo.

Um mês depois casou

com o dono da tal revista.

LA 04/009

 

 

A Marilda?

Era doida dos dois lados —

do avesso e do direito.

O cara se apaixonava

por fora e por dentro dela.

LA 04/009

 

 

Quando o amor dói muito

o caboclo então finge

que não é nada.

Assim o amor,

que só era de uma parte,

já não dói —

porque vira desaforo.

LA 04/009

 

 

Marilda me disse

que com a língua do Gene Simmons

não precisava de mais nada.

As amigas, que a ouviram,

gritaram juntas: Aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!...

Aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!... Aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!...

Aí quem gritou foi o dono da boate:

Acabaram?!?!?!...

Já que estão acabadinhas,

vão trabalhar!!!

LA 04/009

 

 

O futuro se escreve no presente,

sim: não está escrito —

somos nós que o escrevemos.

LA 04/009

 

 

Os Crievos

 

Quanto mais se desentendem

os crievos —

criacionistas e evolucionistas,

tão mais depressa verão

que não podem edificar

sobre os seus terremotos.

A falha tectônica

há de ser preenchida

com o meterial dos dois lados.

Sim, tais conteúdos sísmicos

abalarão desde os cemitérios

até os berçários da mente.

Muitos potes se quebrarão

até que a água se torne

fluente,

bem filtrada e potável.

Os copérnicos e galileus

reaparecem de tempos em tempos

para desengordurar

teorias e doutrinas

e reforçar,

reassestar as lentes

no cosmos a bailar

em seus giros e elipses

estonteantemente perfeitos,

até que outros reparos

já sejam requeridos

pela renovação

do nosso entendimento,

nessa eterna ourivesaria

a tilintar e a brilhar

em glória e graça divinas.

Só precisamos

(mais uma vez)

focar a nossa aparelhagem

(o que somos lá em nós)

mais para o centro da verdade.

E enquanto não se torne pacífico

de onde é que a água brota,

para onde ela vai

e quando é ou não potável,

vamos lendo, relendo e translendo

( e certamente aprendendo)

por entre as cataratas de loucuras,

cascatas de arrogância

que se vão despejando

da boca dos crievos.

E é claro: dando graças

por vivermos outros tempos.

LA 04/009

 

 

Infelizmente

há muitas exceções,

mas a mulher

quanto mais civilizada

tanto mais, sim: muito mais

deliciosamente sem vergonha.

LA 04/009

 

 

Assim como a beleza

depende de quem a vê,

também o amanhã jamais seria

sem o suporte do hoje.

LA 04/009

 

 

Não esperava,

mas ela veio.

Virou um barraco

minha mansão

de sonhos.

LA 04/009

 

 

Era tão bela nua

que o marido lhe queimava

dia sim, dia não

toda a roupa.

LA 04/009

 

 

Os ridículos do amor

são o que há de mais belo

no amor.

Sem eles

só haveria bocejos,

longos e insuportáveis.

LA 04/009

 

 

Tinha os olhos de quem acorda

chupando jabuticaba.

LA 04/009

 

 

Tinha um marido torto,

tão torto

que andava em elipses

que ela orbitava tranquila

com um coração de ouro

e sorriso de diamantes.

LA 04/009

 

 

Uma amiga me disse,

com um riso bem sem vergonha,

que tamanho não é documento —

daí o elefante

não ser o dono do circo.

LA 04/009

 

 

Disse-me também a tal amiga

que seu pai era demais da conta

severo

e ia explicando os motivos

de ter aberto um prostíbulo —

só para vingar-se dele.

LA 04/009

 

 

Padre Antônio dizia na missa

(e isso aborrecia os fiéis)

que o que fazemos por vingança

são antes as delícias

do que adoramos fazer —

sim, que a vingança era um pretexto

para a nossa particular saciedade.

LA 04/009

 

 

A folha que cai

lembra a que vai nascer,

logo não dói vê-la cair.

LA 04/009

 

 

Assim como as pedras

percutem a água do riacho

e a fazem cantar

em infinitos tons,

também nosso pensar

vai desfiando notas

de uma canção

que não sabíamos existir.

LA 04/009

 

 

Na geometria

de uma poesia

sem aporia

meu coração te espia

todo alegria

na mesma via

por onde ia

a tua forma esguia

que não me via...

e quando um dia

me viu, em elegia

a tarde já descia —

chora a rosa que ria.

LA 04/009

 

 

A vida é sempre cara e coroa,

por isso não deves nunca

atirar a moeda.

LA 04/009

 

 

Num sorriso

o lábio superior

é compreensão,

o inferior —

desdém.

LA04/009

 

 

Os olhos escondem a alma.

LA 04/009

 

 

A vida é uma esquina

sem nenhuma placa.

O mundo, ao contrário,

o mundo é só placas.

LA 04/009

 

 

Se o amor não existisse

as pedras o inventavam.

LA 04/009

 

 

Ainda bem que ninguém sabe

o quanto fingimos não sofrer.

LA 04/009

 

 

O prosador arma laços,

o poeta se faz de besta.

No fundo são dois bobos

falando de si mesmos

na vida dos outros.

Bobos da corte.

LA 04/009

 

 

Toda vez que tentamos

nos esconder nas palavras

elas nos dedam

pela criança em nós que recorda.

Sim, a infância é um dedo duro

por toda a nossa vida.

LA 04/009

 

 

Só podemos crescer

quando esquecemos de fazê-lo

pela via que o mundo nos oferta.

LA 04/009

 

 

Se me varres da memória

te encontro lá no avesso

de lembrar.

E haverá um duplo outro

que não sabíamos existir.

LA 04/009

 

 

Marilda era vidrada pelos gêmeos

Pedro e Paulo

do Largo da Boa Morte.

E dizia que ambos se completavam

em suas deliciosas diferenças,

a ponto de lhe serem

uma só e deslumbrante chave

de seu castelo de fantasias —

os pães e vinhos do amor.

De modo que ela os tinha como um só amante,

e eles a dividiam

sem se lembrar de divisão

nem de multiplicação,

de sorte que cada um

tinha a sua Marilda total —

tamanha a habilidade

de nossa psicóloga-amante,

que os fazia sentirem-se únicos,

cada qual o mais amado.

Sofósio (lembra-se dele?) chamava a isso

de diarreia de hormônios.

Já André (ah, quase me esquecia do André!),

André não dizia nada

apenas tentava ser o terceiro amante —

já que provara ser

o terceiro gêmeo roubado

pelo obstetra que fizera o parto

(como se diz por aí: uma longa história.).

E tinha uma cara tão honesta,

um tal jeito de bom moço,

que Marilda acreditava

em tudo o que dizia

olhando dentro dos seus olhos

enormes e gulosos.

E viveram gostosamente

cada qual com seu quinhão

e ela com seu kit três-em-um,

felizes de nem saber.

LA 04/009

 

 

Se sabes andar nas nuvens

não dês ouvido aos amigos

que não podem fazê-lo.

LA 04/009

 

 

Aquilo que recriminam em nós

é porque foge

ao que gostariam que fôssemos

para tirarem proveito.

LA 04/009

 

 

Os que te chamam de ingrato

queriam-te refém

de seu interesse e vaidade.

LA 04/009

 

 

Receber de mão amiga

significa ter que pagar

em eternas prestações.

LA 04/009

 

 

Que a mulher não deva ao homem,

se não queira lhe pagar

com a moeda do seu corpo.

Agora, se for o caso,

que invista alto.

LA 04/009

 

 

Estão dizendo aí

que o espirro é erótico —
voz da ciência.

Tomem cuidado

quando forem apresentados

a pessoas “muito simpáticas”.

LA 04/009

 

 

Murro no nariz do outro

é entretenimento.

LA 04/009

 

 

Busquem antes os desordeiros,

os traficantes

e ladrões,

só depois as prostitutas —

um policial orienta seus homens.

LA 04/009

 

 

Muito vento, pouca chuva.

Quando muita, é bom correr,

que lá vem a enxurrada.

Às vezes dizemos coisas

só para fazer barulho

no silêncio.

Escrever

é buscar a sensação

de não estar sozinho.

Se ao menos surgisse algum ET

pra repartir conosco

a sua desventura!

LA 04/009

 

 

O Sr. Evo Morales

está fazendo greve de fome.

Como muitos que já fizeram,

vai acabar mais gordo.

LA 04/009

 

 

Chove, chuva, na minhalma

e vê se apagas a lembrança dela,

dela que é bela

e alegre como a palma,

como a palma sorrindo ao vento.

Chove, chuva, e vê se apagas

meu pensamento dela,

dela que nem as ondas, nem as vagas,

nem a fúria da procela

me arrancam do sentimento

que lhe sente o gosto e o cheiro.

Chove, chuva, devagar,

que ela agora está dormindo.

Posso ouvi-la respirar

ao meu peito bem baixinho.

Chove, chuva, a musicar

o sorriso e os sonhos dela,

dela que é bela, mas tão bela

que é impossível não lembrar.

LA 04/009

 

 

Há momentos em que o tempo não anda —

quando se tem dor de dente,

quando se está inadimplente,

quando se dorme na casa da sogra,

quando o cunhado lhe diz por telefone

precisar de um favor seu,

quando a psicóloga (amiga da patroa)

diz que vem para jantar,

quando o seu amigo do peito

quer que vá ver com ele

um imóvel para alugar,

quando seu empregado o convida

para ser padrinho do casamento,

quando o irmão caçula o visita

pra lhe dizer que foi mandado embora,

quando a empregada lhe faz saber

que está sem comida, roupa de frio

e a luz para cortar...

Sim, em momentos de assalto ou de ridículo

o tempo não anda.

LA 04/009

 

 

Libertação

 

Se a dor é muita agora, e te sufoca,

não te esforces para entendê-la no momento.

Nem a esboces em tela, música ou poema.

Apenas sofre-a procurando minorá-la

desfocando-te o mais que puderes de seu centro,

de modo a não sentir autopiedade,

mas vendo as coisas com olhos de quem vê a vida,

a vida que é bela, sagrada quanto inexplicável.

Vendo as coisas como quem vê um rio,

o mais longo deles,  — o que passa sem passar,

o que não passa passando e a um tempo é passado,

presente e futuro e outros desvios nem sonhados.

O que é um, o que é vários em si mesmo,

o que segura em suas mãos de água o tempo,

esse invólucro do ser a deslocar-se por duplo espaço:

interior e exterior a buscar multiversos

de uma realidade interligada a múltiplas gamas de si mesma,

dentro do infinitamente grande como igualmente dentro

do infinitamente pequeno.

Sim: como um rio que nos leva e nos atravessa

pelo simbólico em nós como nele

marulhosamente infinito: bebendo-se

e florindo espécies que nunca vimos,

belezas que não sabíamos que sabíamos.

Como um rio que nos é  e a quem somos

em busca de oceanos que nos seremos um no outro,

um pelo outro, um com o outro: muitos e

singularmente um.

Sim, um rio é nós por dentro e por fora

pelo sinuoso e infindo caminho do sentido

que vem do mar e marulhando volta a ele

sempre na concha nacarada que faz sonhar com o sentido,

sempre com o sentido.

Uma realidade tão fascinante quanto não podermos entendê-la.

Mas nem por isso nem mais ou menos verdadeira.

Nem por isso mais ou menos nós:

uma realidade sempre nós-mesmos.

Pessoal e coletivamente nós: nós-mesmos.

Diluída e concentradamente nós: nós-mesmos.

Realidade a chegar e já chegada,

existente e por existir,

por existir e já existente.

Aqui-agora e longe-além,

e com o ser e a vida, com a vida e o ser

num infinito zumbir de asas

por veredas e caminhos perfumados de uma libido santa

através de um viajar-se-construir-se

que é uma viagem dentro de outra viagem,

um sonho dentro de outro sonho,

ser pelo Ser

na odisséia que gera a volta, o nostos, que já não é volta,

mas ver o aqui-agora já partido, já viajado

de ser a ser-se, de ser a ser-se, de ser a ser-se...

até onde não mais exista onde,

nem aqui-espaço exterior,

nem espaço interior: o tempo.

Libertação.

LA 04/009

 

 

Orgulho, amor-próprio, autoestima,

tudo isso é bom, sim: muito bom.

Agora, se você deixa

que essas muletas virem arrogância,

tudo isso então é mau, sim: muito mau.

LA 04/009

 

 

Passou tanto, tanto tempo,

que agora vemos

que não passou tempo nenhum —

fomos nós que passamos pelas coisas,

mesmo porque os tempos estão bem vivos,

sim, moram dentro, moram bem dentro em nós.

LA 04/009

 

 

Cá estão, mais uma vez,

tempos em que não sabemos

para onde estamos indo.

Nem bússolas, nem astrolábios,

nem as estrelas já nos não ajudam —

nossa falta de rumo é interior.

Progresso é bom,

mas para onde nos levará?

A falta de rumo se repete

dentro dos tempos.

Babel se instala e desinstala

com a rapidez dos sonhos.

Mas uma vez, vivemos tempos

sem janelas nem portas.

Só nos resta esperar

que novos tempos

dissolvam as incertezas

feitas de sal ao sol.

O fio do sentido

(que é escarlate)

sempre ressurge

e cose os tempos.

Aí o homem

sente de novo o chão,

tão necessário.

LA 04/009

 

 

Quando partir

não olhe para trás,

senão leva com você

o que pensa estar deixando.

Quando partir

só leve o sonho de partir

e siga leve e solto —

livre dos grafitos

que lhe tatuaram

nos sentimentos.

Quando partir

faça-o como a brisa entre os lírios

e o sol que acaba

de lhes dar seu ouro,

a provisão de mais um dia.

Quando partir

vá pela mão da alegria

e pisará com firmeza

o seu caminho.

Quando partir

só tenha o partir

por companheiro

e o sonho aceso

em novidade de vida.

LA 04/009

 

 

Pernas de baobá,

seios de moranga,

e habilidades de quem faz

omeletes nos saltos finos,

Priscila (BBB-9)

leva mesmo jeito

e está no caminho certo —

vai abrir um sex shop.

Mourejará,

faça sol ou estrelas,

no departamento das coceiras.

LA 04/009

 

 

Um dia ela se foi

e o coração de André ficou frio

como um cadáver sepultado em seu peito.

Sim, ficou friamente triste

como quem perdesse a verdade e a beleza

que pensava ter consigo

após sonhar e trabalhar,

estudar e dedicar-se a mocidade toda —

disciplinada e seriamente

a mocidade toda.

Frio sentir, muito frio.

Continuou a fazer tudo o que fazia.

Álgido sentir. Ah, muito frio!

Cuidou da sua profissão

como se fosse outra pessoa.

Muito frio, álgido sentir.

A ler-escrever

como se fosse outra pessoa.

Frio sentir, muito frio.

E em meio ao frio, ao muito frio

buscou em si a luz filha da luz,

procurou vê-la ao passo que a sentia,

e envolto nela ver seu coração

a quem, se lembra, amou profundamente

sem nenhum autodó.

E a sós ou em meio a outros,

pela rua ou recolhido,

invocou brandamente a fé

que sempre cultivou

e cujos mecanismos estudou

fora e dentro de si.

Invocou brandamente a fé,

pedindo-lhe brandamente

lhe devolvesse um pouco

da lealdade confidente

e do amor fiel que lhe votara a vida toda

(lhe devolvesse um pouco da sua fé)

em forma

de companhia e salvação daquele estado triste.

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Foi então que viu brotar de sua dor

uma haste exuberante

encimada de magnífica rosa,

tão magnífica quanto vermelha —

plantada num belo vaso com a forma

de um enorme sapato de arlequim.

E aquela luz rorante sete vezes bela

da rosa

derramada sobre o tal vaso-sapato

devolveu-lhe o calor,

a força

e a alegria da vida.

LA 04/009

 

 

Aquela face do amor,

à nossa imagem e sonho,

que tanto procuramos,

está em nós mesmos.

Para achá-la

temos que ir tirando

uma por uma

as nossas próprias máscaras.

LA 04/009

 

 

Quando distante,

o amor é saudade

e um só pensamento.

Quando na cama,

é um só corpo.

LA 04/009

 

 

Quanto mais distante,

mais vivo o amor.

A distância o rega de sonhos.

Tanto que, quando perto,

tende a murchar

por falta de água.

LA 04/009

 

 

Se dependes do amor de alguém,

ele deixa de ser amor.

O amor é que depende de dois

para poder ser um,

e florir.

LA 04/009

 

 

Se choras pelo que acabou,

não vês o que está despontando.

LA 04/009

 

 

Também já tive saudade

do que jamais existiu.

Já ouvi cantar o sabiá

quando cantava o tiziu.

LA 04/009

 

 

Quanto a Andrea Bocelli,

a natureza não lhe deu olhos

porque fora covardia

dar tanto

a um só.

LA 04/009

 

 

Gostar do que se faz,

isto sim é curtir a vida!

LA 04/009

 

 

Não espere por dias melhores,

nem por tranquilidade

para realizar a sua obra.

A vida depende muito mais dos vulcões,

das tempestades, dos furacões

que dos céus de brigadeiro.

LA 04/009

 

 

A mentira é muito mais veloz,

mais ao alcance de todos,

e a maioria a prefere

enquanto lhes beneficia.

O amor pela verdade

é para quem já tem

ou busca um sentido.

LA 04/009

 

 

A paz de espírito

implica a liberdade,

a liberdade

só é legítima

se coexiste com a paz de espírito.

LA 04/009

 

 

O amor sempre é loucura,

mas da melhor.

LA 04/009

 

 

Quem tiver medo de hospício,

é melhor não amar.

O que sabe que o mundo é um hospício,

este sim pode entender e viver

gostosamente o amor.

LA 04/009

 

 

Sim: no amor, a beleza

nem sempre é fundamental,

contanto que ela exista.

LA 04/009

 

 

Não importa entres em parafuso,

te saias mal,

te quebres no amor.

Quem o experimentou

haverá de querer sempre

se apaixonar.

Claro, o prudente será

cada hematoma a seu tempo.

LA 04/009

 

 

Na vida existem coisas boas

e coisas más.

Quem aciona a sua fé

com a boa vontade

em geral consegue

passar por tais opostos,

sobrevivendo aos revezes

e musicando a travessia.

LA 04/009.

 

 

O amor é sempre aquele paradoxo —

ausente,

suspira por e-mails e celulares.

Presente,

resfria de tanta umidade.

E se você procura entender,

ele acaba.

LA 04/009

 

 

Se a morte é o fim,

a vida é sempre um recomeço.

LA 04/009

 

 

Aqui é o lugar

de nos irmos nos livrando

do que nos prende aqui.

LA 04/009

 

 

Sim, temos de ir

conscientemente

nos livrando

das cascas e empecilhos

da natureza em nós

como a ave troca de penas

e a serpente de casca —

até nos libertarmos geral

do peso do grotesco.

LA 04/009

 

 

Sossegue.

Não há garotas perdidas

que os homens não achem.

LA 04/009

 

 

Sabe aquele vazio terrível

que por vezes nos vem?

Não procure guru, não ore,

nem leia Paulo Coelho.

Apenas abra a geladeira

e coma alguma coisa:

é pura fome.

LA 04/009

 

 

Se o vazio for zen,

aí nem Platão ajuda.

A única saída

é tântrica:

nutrir-se bem do inefável.

LA 04/009

 

 

Se deixar para amanhã

o que não vai fazer nunca,

já mostra boa vontade.

LA 04/009

 

 

Minha professorinha me disse

que só o errado

eu fazia sempre certinho.

Disse-lhe que ela também...

— Mas coooommmoooo?!

— Meu nome é Luís (com “s” e acento)

e a senhora escreve sempre com “z”.

Lembro que a mulherzinha espumou.

LA 04/009

 

 

O paralítico por vezes corre,

o cego vê,

o mudo vocifera —

e sem nenhum milagre.

LA 04/009

 

 

Dizia à irmã na frente do cunhado,

sempre com o rádio no último:

Dá menos, Carla, dá menos!...

No que o marido concordava

e acrescentava:

Mesmo porque não ganho lá essas coisas...

e caridade deve ter limites.

E o mano reforçava:

Dá menos, Carla, dá menos!

E com a boca cheia de comida

e o rádio arrebentando,

mastigava-lhe baixinho:

já pensou (num tempo desses!)

se você engravida?!

LA 04/009

 

 

Dizia que os concretistas

tinham comido maionese

com cimento branco —

por isso exprimiam aquelas coisas

que só os seus cachorros cheiravam.