LICOR DE JENIPAPO

                         Laerte Antonio

 

Textos 3

 

 

O mesmo tempo da mocidade

é o que mais tarde vira coveiro

e nos chama pra ver

as suas plantações de gente.

LA 04/006

 

 

 

Não demora

temos que dar uns cobres ao Barqueiro...

Paguemos antes

porque tais águas fazem esquecer.

LA 04/006

 

 

 

Lembrar você, por vezes, ainda me dá coriza.

LA 04/006

 

 

 

Aquele hibisco vermelho ( lembra? )

pergunta-me sempre de você.

Digo que anda muito ocupada,

que não tem tempo...

Ele acha as minhas respostas tão tolas,

que se faz um silêncio insuportável...

e um vento o faz chorar: um choro-oferta —

cobre o chão com suas suaves flores...

As mesmas que cobriam seus cabelos.

LA 04/006

 

 

 

Sou seu marido, e exijo:

seja tão livre, que um dia se vá...

E pode ir tranqüila —

que a saudade será razoável.

LA 04/006

 

 

 

Se não durar é o normal,

durar causa estranheza

e enfado.

LA 04/006

 

 

 

Zilpata?

Temperamento irascível,

xiranha azeda.

LA 04/006

 

 

 

Comi-te

antes da celulite,

da cistite

e das minhas broxites.

LA 04/006

 

 

 

Ah, Rosa, Rosa!...

O resto é flor. Isto é,

mulheres.

LA 04/006

 

 

 

Imaginem!...

Somos apenas o máximo.

LA 04/006

 

 

 

Abraça o que mais amas

lá no fundo de ti,

e diz ( em sentimento ) à vida em ti fluindo

que és gratamente feliz —

feliz porque podes viver,

sonhar

e esperar.

LA 04/006

 

 

 

Ah, minha nega!

Uma saudade-falta,

uma vontade de você.

LA 04/006

 

 

 

Amei por várias portas,

todas por ruas tortas...

em horas vivas e mortas...

LA 04/006

 

 

 

Quando ela lhe telefonava

deslizava-lhe pela voz

e lhe caía entre as pernas.

LA 04/006

 

 

 

Beleza não se põe na mesa,

mas que mata a fome... ah, mata!

LA 04/006

 

 

 

Quem conta um conto

enriquece-o num ponto.

Contar e recontar

é o que amamos fazer.

E parece-nos que assim

nos vamos passando a limpo

em companhia

de todos os contadores.

LA 04/006

 

 

 

Enquanto as semelhanças

não servirem de divisor

das diferenças —

seremos tardos no aprender.

LA 04/006

 

 

A prazer dado

não se contam as fungadas.

LA 04/006

 

 

Um rosto bonito

ajuda a chover.

LA 04/006

 

 

A vida é bela

porque a sabemos breve

e frágil.

LA 04/006

 

 

Ele sabia que ela andava

por veredas avulsas.

Mas o fato de tê-la

como sua no papel

dava-lhe chão

para andar por si mesmo.

LA 04/006

 

 

O simples fascina,

o singelo encanta.

Mas no fundo,

prefere-se o complexo —

as delícias complicadas.

LA 04/006

 

 

 

Só gostamos  de quem nos gosta —

somos ridículos.

LA 04/006

 

 

 

Uma vagina inteligente

controla e faz feliz

toda a casa.

LA 04/006

 

 

 

Caem folhas, nascem folhas...

e para o vento tanto faz

acariciá-las nos ramos

ou arrastá-las pelo chão.

Amarelas ou verdes

o vento não as prefere...

só as ama,

verdes ou amarelas.

São almas gêmeas

a folha e o vento.

LA 04/006

 

 

 

Brasil,

queremos mais de você:

queremos o que nos promete

em sua bandeira —

queremos a dignidade

do seu nome

que carregamos

em nossa identidade.

Brasil,

cuide de cada brasileiro,

é seu dever

e direito nosso —

para isso em você vivemos,

trabalhamos,

sonhamos

e esperamos,

Brasil.

LA 04/006

 

 

 

Nem tudo vale a pena,

aliás, nem mesmo as penas

da peteca ( sem esta )

há de valer alguma coisa.

LA 04/006

 

 

 

Fazer é tão difícil,

que em geral não fazer

é tudo o que sabemos.

LA 04/006

 

 

 

Sim, não fazer

é tudo o que fazemos —

apesar dos fazimentos.

LA 04/006

 

 

 

Exaltamos o heroísmo,

o fazer e o viver sem medo —

por telefone.

LA 04/006

 

 

 

Falamos pelos pés,

andamos pela boca

e achamos tudo muito natural.

LA 04/006

 

 

 

Quando o navio atraca

os marujos correm às putas,

menos o capitão

que tem a cabine farta.

LA 04/006

 

 

 

O nome puta é afrodisíaco —

já vale um terço de orgasmo.

LA 04/006

 

 

 

Quanto mais dialogamos

tanto mais nos afastamos

daquela ilha onde estávamos —

até que tudo vira alto mar,

outras paisagens,

outros países

e outras línguas.

LA 04/006

 

 

 

Viver bastante é bom —

de longe

as coisas ficam mais claras:

muito do que não se viu,

se vê,

do que se viu,

não era.

O longe

faz a verdade mais próxima.

LA 04/006

 

 

 

Sim, o que ficou lá atrás

guarda em si revisões

de um ver por outros ângulos-tempos.

LA 04/006

 

 

 

Les Barbares Sont En Train De Venir

 

Entends, ma mère :

les barbares !

Peux-tu entendre l’echo

de leurs cheveaux ?

Les cris de guerre ?

Les bruit luisant des épées ?

Ce sont les barbares,

ma mère.

 

Entends, mon frère :

les barbares !

Ils viennent vite, trop vite

sur leurs cheveaux de vent.

Ils sont en train de venir.

Est-ce que tu peux sentir

leur haleine, mon frère ?

 

Entends, ma sœur :

les barbares !

Leurs cheveaux résonnent

dans le cœur du jour,

dans le ventre de la nuit.

Ils viennent em criant

sur leurs cheveaux de ressentiments...

Ce sont les barbares,

ma sœur.

 

Entends, mon âme :

les barbares !

Ils sont en train d’arriver,

toujours en train d’arriver.

Ils galopent parmi les siècles.

Ils sont toujours en train de venir

sur leurs cheveaux de temps...

 

Peux-tu entendre, mon fils,

leurs cris de guerre,

mêlé au bruit

éclatant des épées ?

Leurs cheveaux sont de temps...

Entends leur marche !...

Ce sont les barbares, mon fils.

 

Ils galopent

au fond de la Conscience.

Bien au fond,

mais on peut entendre

le pas de leurs cheveaux de temps...

 

Oui : les barbares sont en train de...

( Entendez... entendez leur marche!...)

Les barbares, qui sont-ils ?

( Entendez... entendez leurs cris !...)

Ils sont en train de...

Les barbares sont terribles,

trop terribles !

Les barbares, qui sont-ils, mon père ?

Les barbares, mon fils,

les barbares sommes nous-mêmes.

LA 05/006

 

 

 

Só no hoje

vemos o ontem

pelas costas

e o futuro —

no avesso

do nosso agora.

LA 04/006

 

 

 

Dá valor aos teus dias.

Não te compares.

És único, e trazes

a imagem-semelhança.

Seja-te a vida o mestre,

o viver, a aprendizagem.

E tudo, tudo naturalmente

como os dias se sucedem.

LA 04/006

 

 

 

As coisas têm sentido

porque estão passando.

LA 04/006

 

 

 

Há um espaço,

que é tempo exterior;

há um tempo,

que é espaço interior.

Entre um e outro

está o ser

que lhes dá movimento.

LA 04/006

 

 

 

Não invejes —

mais vale um cachorro vivo

que um leão morto ( lembras? ).

LA 04/006

 

 

 

Ser quem somos

é só um estar sendo.

A vida só é suportável

porque é mudanças.

LA 04/006

 

 

 

Queremos ser amados

do jeito que queremos!

De outro modo, dizemos

que não fomos amados!

Sim, somos ditadores

de modos,  comos e jeitos.

LA 04/006

 

 

 

Há os que exercitam suas crenças

levando outros a praticá-las —

sem seguidores

o seu ego narcísico se esfarinharia.

LA 04/006

 

 

 

Dá uma muleta para o fraco

andar lá por dentro de si,

e tão-logo tenha alguma força —

ele a quebrará na tua cabeça.

LA 04/006

 

 

 

Esperar apocalipses

é o tônico dos desgraçados —

um modo de agüentar suas misérias.

Assim desativam

seu potencial criativo

e ficam para sempre escravos

a se mover sobre a palma da mão

da sociedade a que servem

com medo

e espírito de servidão.

LA 04/006

 

 

 

Quando o vinho da consciência fermenta,

necessários novos odres para contê-la.

O mundo deve refazer urgente

( com novos moldes e materiais... )

tais odres.

LA 04/006

 

 

 

O medo já não segura.

LA 04/006

 

 

 

A única segurança

é o viver inseguro.

LA 04/006

 

 

 

Se o que temos é isto,

seja, pois, isto o que temos!

Se o que somos é isso,

saibamos que isso

já está a caminho de aquilo

para outra vez ser isto,

novamente isso

e de novo, de novo aquilo —

mas nunca o mesmo.

LA 04/006

 

 

 

Quando lhe vestia a peruca,

todo o quarto tremia —

tinham orgasmos sísmicos,

desses de comichar os ouvidos

colados na parede-meia....

LA 04/006

 

 

 

Até parece, minha Rosa,

que temos obrigação

de nos dar bem com a vida,

até parece!

LA 04/06

 

 

 

A sério?

Só pra não deixar cair.

Agora,

se cair sobre a areia,

não quebra.

LA 04/006

 

 

 

E vocês acreditaram?!

Ah, ingenuidade não!...

Mas never-nunca, suas bobas!

Pago pra ver! Ordália?!

Rá-rá! Aquilo lá

não pode estar com esse pinto todo.

LA 04/006

 

 

 

“Seu pai morreu fazendo

o que gostava de fazer —

morreu fazendo.

Para mim, foi uma honra

matá-lo de prazer.”

LA 04/006

 

 

 

A vida é cheia de tocaias,

truques, laços e ciladas.

Ir escapando da morte

é a nossa primordial tarefa.

LA 04/006

 

 

 

Xiranha é bom, mas no varejo.

LA 04/006

 

 

 

Maria amava

fazer sucos de amargura.

LA 04/006

 

 

 

Com o vento forte da noite

as roseiras choraram a vida

em forma de coroa

caída a seus pés.

LA 04/006

 

 

 

Sim, seria cômico,

não fosse trágico.

Aliás, é hora de aprender

a rir do trágico.

LA 04/006

 

 

 

Não deixes que o mundo te cale

o amor,

a fé,

a esperança.

Que é que teria

para te dar em troca?!

LA 04/006

 

 

 

Rir é remédio,

pratiquemos em doses certas:

um chorar-rir, um rir-chorar

que se compensem.

LA 04/006

 

 

 

Gargalhar desafoga,

arranca a dor do peito

e garganta.Dissolve a angústia

e relaxa,

faz algo levitar.

LA 04/006

 

 

 

Rir sem saber por quê —

é o melhor riso.

LA 04/006

 

 

 

O riso é válvula social —

quando algo nos reprime

ou busca nos diminuir:

de troco rimos.

LA 04/006

 

 

 

O humor tem a ver

com repressões e severidades

que nos impuseram

e ainda nos impõem.

LA 04/006

 

 

 

A ironia se liga

a imposições sofridas

sem, de imediato,

podermos reagir.

Por isso é bem reflexiva.

LA 04/006

 

 

 

As mulheres gostam dos poetas

porque todos eles são bobos.

Os homens lêem ( escondidos )

os poetas

porque sabem

que não têm nada de bobos.

LA 04/006

 

 

 

 

Os homens não gostam de ler os poetas

vivos

para as suas mulheres.

Os mortos, sim: lêem, comentam

e até lhes citam dois ou três versos

quando não estão bêbados

nem com prisão de ventre.

LA 04/006

 

 

 

A vida é um pau de sebo, minha nega.

Prefiro trepar em você

que também tem prendas falsas —

mas logo cá embaixo.

LA 04/006

 

 

 

Joaninha era uma festa.

Frágil como um suspiro.

               Tinha uma facilidade,

um jeito, um dom,

um modo tão azeitado —

que fazia chover

de alagar

picos e vales.

LA 04/006

 

 

 

E Laurinha então, minha Nossa!?

Essa provocava dilúvios.

O fazendeiro Nonoca-Ju

( nome de guerra ) a adorava.

Andava com suas terras

sempre no ponto —

nem brejo nem poeira:

sempre naquele ponto

do verde a trepar pelas cercas.

LA 04/006

 

 

 

— Meu marido voltou, Marilda.

— Satisfeitíssima, então?

— Voltou casado, Marilda,

com uma indiana mística —

defuma a casa o dia todo,

e a noite inteira

entoa mantras sibilantes...

— E você, minha amiga?

— Faço amor com “nosso” André

dia e noite,

ué!

LA 04/006

 

 

 

Marisa anda gloriosa —

aquela fase

em que não cabe mais nada

nas mãos que cuidam da fazenda.

LA 04/006

 

 

 

 

— E o padre Mário, Hortênsia?

— Deu-me o cano, procurou uma

com o braço bem comprido...

— Não entendi, não entendi...

— É que o gajo exige orgasmo duplo:

enquanto faz chover

quer que a gente

o siliconize por trás.

— Ah! Quem diria, o homenzinho

também tem os atrases

chegados!

LA 04/006

 

 

 

Se me convidas, Teresa,

vou, sim, tomar

seu café com bolinhos.

E aproveitamos, minha amiga:

lavamos juntos as xícaras

de porcelana

com arabescos

de florescer os dedos.

LA 04/006

 

 

 

Marli era como tiziu —

nem ar

nem arame de cerca —

pulava com arte:

sem relar.

LA 04/006

 

 

 

Se você me convidar, Susana,

eu vou. Não pro Alabama,

mas pra qualquer lado por aí.

LA 04/006

 

 

 

No momento em que se descobre

que a casa de Deuspai

fica dentro de nós —

já não há o que buscar.

Deus é tão Deus

que Ele sempre foi

nós Nele —

sim, é impossível não sê-Lo.

LA 04/006

 

 

 

Deus é a alma de cada partícula

( macro-quântica ), e o espírito

de cada núcleo. Sim, Deus é tudo

e permite que tudo O seja.

LA 04/006

 

 

 

Daqui até lá

não é igual a

de lá até aqui.

A realidade

são caminhos de realidades.

LA 04/006

 

 

 

A esperança verdeja

onde mais seca o sonho.

LA 04/006

 

 

 

Por vezes repastamos

o feno

de velhas esperanças.

LA 04/006

 

 

 

Sem sonhar/esperar

e crer na possibilidade

que mora entre esses dois —

a vida fica

de mãos vazias.

LA 04/006

 

 

 

As rosas que não lhe mandei

tinham mais espinhos que pétalas,

por isso não as mandei.

LA 04/006

 

 

 

As rosas que não lhe mandei

tinham cor e gesto

que não rimavam

com o que sentia por você

naqueles dias e horas.

LA 04/006

 

 

 

A vida, Rosinha, é bela

principalmente

quando a olhamos da janela.

LA 04/06

 

 

 

A teologia

é a filosofia

da religião.

Os teólogos

são papagaios

em troca de penas —

não podem voar,

por isso falam.

LA 04/006

 

 

 

Falava do inferno

de um jeito tão caseiro,

com uma tal intimidade

de quem já mora lá.

LA 04/006

 

 

 

Ah! Quantas vezes, minha Amiga,

o sol não se pôs do outro lado

de nossas conversas

lá nas varandas do Instituto!

Lembra?

A gente cria no humano —

trabalhava sabendo

que ele “há de ter jeito”...

que ele é uma árvore

pela qual está subindo...

e há de dar frutos

no aqui-infinito de si mesmo.

......................................................................

A vida doía, é claro,

mas o entusiasmo,

a força interior:

o sonho —

o sonho era maior que a dor.

.....................................................................

E o sol ia se pondo

a apagar aquele bule inox

ali na ponta da mesa...

As estrelas despontavam

dentro dos nossos olhos

e isso era bastante,

cara Rute,

para sentirmos ( calados ),

sentirmos o ser humano

do tamanho do silêncio de Deus —

sim, não podia ser pequeno

quem inventou a esperança.

LA 04/006

 

 

 

Não dou linha a saudades...

porque sei que o Universo

tem ( bem guardado )

o quanto amamos.

LA 04/006

 

 

 

Vivemos para transformar

nossa doença em realização

e auto-realização.

LA 04/006

 

 

 

Deu uma vassourada

na depressão,

no medo —

juntou os trapos

com os da vizinha viúva.

Depois de quinze anos,

disse a si mesmo satisfeito:

Valeu, meu velho!

Deu tempo.

LA 04/006

 

 

 

A fé pastoreia o ser,

a esperança lhe dá

a antevisão do sonho,

o amor lhe realiza o intento

e lhe confere auto-realização.

LA 04/006

 

 

 

A beleza de tudo

é tudo não durar.

LA 04/006

 

 

 

O mais belo de tudo

é tudo nem ser belo.

LA 04/006

 

 

 

Se a luz física

já é consolo,

a interior —

é companhia.

LA 04/006

 

 

 

Beijo dado com vontade,

abre a esperança

de prendas e ternuras

que se fazem maiores,

sempre maiores.

LA 04/006

 

 

 

Melhor que um abraço seu, minha nega,

só dois, enquanto o inverno mia

lá fora

como gato sem dono.

LA 04/006

 

 

 

No macio da penumbra

é que os dedos florescem, —

diz a barqueira Júlia.

— Barqueira?!

— É só uma metáfora a explicar

tempos de chuvas...

— Ah, Bom!...

LA 04/006

 

 

 

Chegou até aqui?!

Merece um licorzinho

de jenipapo.

Taqui, ó:

Saúde!

Tim-tim!

 

 

 

A prazer dado

a gente lambe até os dedos.

LA 04/006

 

 

 

Olhar jogado

a gente rima no ar.

LA 04/006

 

 

Ela ostenta aquela fragilidade

das xícaras bordadas...

dando a um homem a sensação

de que a pode rachar ao meio...

LA 04/006

 

 

 

O seu riso era um trilo

daqueles guizos de prata...

Quando sorria

rendava os lábios...

Falando,

tirava piolhos

de acalanto...

Andando,

roubava plumas da paineira.

LA 04/006

 

 

 

— A vida é uma dureza!

— Nem sempre,

ela tem partes bem macias.

              — A vida é foda, cara!

              — Sim, isto também, e com chiliques:

              chiques chiliques e vidrados curtos-

              circuitos!

LA 04/006

 

 

 

A vida lhe deu de mão beijada

a doce Josefina. Sim, tão de mão beijada

que ele nem lhe ligava.

O vizinho é que mais aproveitava

aquele presente dos deuses

LA 04/006

 

 

 

Não, de bobo ele não tem nada,

os bobos

é que não sei por que

se parecem com ele.

LA 04/006

 

 

 

Bom mesmo seria

nem precisar ser bom —

já que ninguém o é.

LA 04/006

 

 

 

A vida a havia curtido

de usuras —

aquele dar de mão fechada.

Mas ela conservava

a altivez

dos que sabem calar

e o sorriso dos fortes —

para amigos e inimigos.

LA 04/006

 

 

 

Que bom, meu Pai, nada sabemos,

a não ser pensar que sabemos.

Mas isso é bom, Deuspai:

quem pensa que sabe

caminha para saber.

LA 04/006

 

 

 

A mentira é uma maneira

de não se querer perder

o que já se perdeu.

LA 04/006

 

 

 

Sim, a mentira é um modo

de dizermos as coisas pelo avesso —

daí para a verdade

é só virá-la do outro lado.

LA 04/006

 

 

 

Por trás de nossas máscaras,

quem é esse nós que está lá?

Após tirar a última

será que existe a face?

   LA 04/006

 

 

 

Ah, os bárbaros! Pode ouvi-los?

Ouça os gritos, o galope!...

Mas, mãe, os gritos, o tropel

não parecem estar

lá por dentro da gente?!

Sim, filho, —

lá por dentro da gente.

LA 04/006    

 

 

 

A gente conversa depois em casa

até ficar tudo clarinho...

Mas aqui não,

aqui não há clima

para tanta gentileza —

              disse para o marido.

LA 04/006

 

 

 

Os bárbaros vêm vindo —

estão sempre vindo, ei-los vindos!

Sem que ao menos se saiba

quem são eles

além de serem nós mesmos.

LA 04/006

 

 

 

Maracutaia, sim, maracutaias!

Agora entendemos

porque se usava tanto,

demais da conta essa palavra...

Maracutaia, sim, maracutaias!

Premeditadas Tocaias.

LA 04/006

 

 

 

Vontades-bombas, arbítrios-bombas,

frustrações-bombas, ódios-bombas,

autocondicionamentos-bombas,

recompensas-salvações-bombas,

ressentimentos-ignorâncias-bombas,

homens-mulheres-bombas...

Deus do céu, quantas coisas-bombas!

Também eu tenho saudades

das minhas bombas —

daquelas que minha avó

me comprava lá no Hugo,

celestialmente cheias de creme!

Bombas, deliciosas bombas.

Cada qual com as suas.

LA 04/006

 

 

 

Maricel? Pintou que pintou e pintou.

Quando enjoou, casou.

O altar a esperou cinco horas,

mas veio enxugar os suores do noivo.

Estava linda —

sorriso entre Gioconda e Mona Lisa

( entre essas duas?! Não,

entre os lábios dessa uma ),

leve, esguia,

arrastando uma rabiola

de um branco angelical —

um buquê

( um buquê de hastes longas )

de beleza.

LA 04/006

 

 

 

Rosileide? Trepava até no poste.

Elástica, flexível —

o corpo em forma de laço...

Um jeito de andorinha e cobra verde.

Umas pernas

que horrorizavam as freiras

que cruzavam o Largo pela tarde...

De fato, eram tão belas

que a gente nem enxergava

a sua mini-saia.

LA 04/006

 

 

 

Dorotéia? Uma beleza clássica —

mais para gorjeio de cotovia

que trilo de bem-te-vi.

Lembrava um livro

todo bordado em ouro —

a luzir iluminuras

beneditinas.

LA 04/006

 

 

 

E a tranqüila Teresa? Sempre

amistosa com a vida

e com seus garotões —

que miavam pelas noites

aos arranhões cor de amora...

Teresa foi morar com o padre,

que ia rezar as missas

com a cara toda arranhada,

o pescoço chupado...

e bocejando de sono.

LA 04/006

 

 

 

Lourdinha? Era um sorriso cor de cuia

bamboleando

sobre seios de moranga

e pernas de baobá.

Uma baixinha sarada —

não andava, ondeava

a fazer embaixada a cada passo...

LA 04/006

 

 

 

Clarice? Era um aceno nipônico

atrás de um vaso de flor de seda...

Jeito de estrela matutina,

um perfume orvalhado de saudade...

tanto que os céus lhe jogaram

uma escada de pérolas

e a puxaram para si

antes que colhesse sua décima sétima... rosa...

Todo o Largo chorou muito,

e eu nunca me esqueci daquela

que olhava silenciosa para a Vésper

nas tardes calmas quase noite...

e dizia:

Quero morar em você...

LA 04/006

 

 

 

Laura? Sim, a Laurinha

vestida de azul e branco —

terminando o Normal

e namorando o dentista,

moço tranqüilo, dava balas

para nós crianças.

Lembro de seu rosto de princesa egípcia...

e da saia azul-marinho

que ela ia bordando enquanto andava...

Tinha um sorriso

que parecia antever

seus sonhos realizados.

LA 04/006

 

 

 

Rosa? Ah, a menina Rosa

desfolhava-se toda

por qualquer ventozinho,

quaisquer brisas emocionais!...

Tinha sempre nas mãos um bem-me-quer

e, após evocar o nome de um garoto,

ia despetalando a flor —

bem me... mal me... bem me...

Se a última pétala fosse bem me quer,

dava um pulinho pra cima

e pedia:

Ai, Santo, Santo, conseeeeeeerva!!!...

LA 04/006

 

 

 

Ah! E aquela Bia

sempre a fazer jus ao nome?

Calma, tranqüila, sorrindo, —

feliz da vida.

Namorava um holandês, tão alto,

que colhia estrelas pra ela no aniversário

e no Natal...

Era uma baixinha atlética:

sentava-se em cima do portãozinho

e, agarrada ao gigante branco,

ali ficavam

até o pai bronquear lá do quarto:

Não chega de fazer essas dobradiças

gemerem boleros e tangos?!...

Aí subiam na mureta, que era surdo-muda,

até que os galos lhes lembrassem

que o sol já vinha semeando seus grânulos dourados...

LA 04/006

 

 

 

Eulália, Eulália, falta você, minha prenda!

Filha de ciganos,

o pai fugiu com a moça

que cuidava do advogado...

a mãe com o filho do açougueiro.

A menina Eulália ficou na pensão da esquina.

Aprendeu a cozinhar, lavar, passar

e a fazer chover, não importavam

as previsões meteorológicas.

Sim, era tão boa de chuvas,

que se casou com o ‘filho revoltado’

do médico do Posto.

E viveram, segundo boas línguas,

tão tranqüilos

de dar inveja a muita gente boa.

LA 04/006

 

 

 

Sim, a Rosália! Esta então

era tão calipígia,

que quando andava mais apressada

muitos homens ( sem notar )

faziam “sins” com a cabeça...

“sins” com a cabeça...

“sins” com a cabeça...

abocanhados

no sobe-desce...

LA 04/006

 

 

 

Já Teresa, a namorada

do Chico Barbeiro,

era madura —

no ponto em que os sanhaços gostam.

Seus peitos venturosos

eram citados

e recitados nas esquinas...

mas quem ali afiava

sua navalha

era o Chico.

LA 04/006

 

 

 

Teu corpo, sei-o pouco, mas sei-o.

Claro que apreciaria

não só conhecê-lo mais,

como sabê-lo de cor.

Saber-lhe as trilhas,

as veredas

e a estrada principal.

Se não puder,

nem faz mal —

o resto imaginei-o,

portanto, sei-o.

LA 04/006

 

 

 

O melhor da vida

fora você, se você

ao menos se deixasse

ser o melhor da vida.

LA 04/006

 

 

 

Ninguém desenha um pintassilgo

na porta do caminhão,

desenha uma águia —

sim, adoramos a águia!

Ainda bem —

não temos vocação

para pardais.

LA 04/006

 

 

 

Ninguém põe um cachorro

sobre cada pilar

do seu portão.

Põe um leão.

Agora, quando o leão

está para morrer,

então inveja o cachorro.

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O homem só não se vê um canalha

porque não acredita que o seja.

E isso é bom ou ruim?

Nem uma coisa nem outra —

apenas não se vê

naquilo que vê nos outros.

LA 04/006

 

 

 

Ela adorava aquela passagem

em que o Senhor

perdoa Madalena

e pede a quem não tenha pecados

lhe atire a primeira pedra.

Ela pregava trêmula

esta passagem.

Era patético vê-la

argumentar.

LA 04/006

 

 

 

Você bem que poderia

vir hoje: te cato

carrapato por carrapato,

te dou aquele trato

que só tiveram

as éguas de Faraó.

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O amor é um cachorro

que chega a morder a si mesmo.

Se levas esse gajo a sério,

               vais ter problemas.

LA 04/006

 

 

 

Fiz-lhe um licor

de jenipapo.

Não agradando o sabor,

agrade ao menos o papo.

Sim, senhora; sim, senhor, —

licor de jenipapo

anima a coisa e o coiso.

LA 04/006

 

 

 

Quando não se sabe do que se fala,

os argumentos ficam bem mais ágeis...

ganham uma grandiloqüência

de meteorismos.

Aí, faz-se oratória pelo rabo —

sem dúvida, a mais destemida

e praticada.

LA 04/006

 

 

 

Toda a pensão,

ao vê-la após o banho

com paninhos esvoaçantes

só naqueles lugares...

toda a pensão parecia

estar ao lado

daquelas vitrines de guloseimas...

Dona Julieta, sempre a tempo,

fazia-lhe sinal com os olhos

que fosse para dentro.

LA 04/006

 

 

 

O amor é espeto, minha Rosa,

tanto, que até ensina

a pregar prego enferrujado,

e deixa claro

que a sua maior perícia

é transformar-se em desamor.

LA 04/006

 

 

 

O amor é belo

porque entende de minhocas,

e faz a gente pescar

peixes que nunca houve

lá onde nunca houve água.

E como pescamos!

Pescamos e nadamos.

E que delícia, Deuspai:

num reguinho de nada!

LA 04/006

 

 

 

Quem não acredita no amor

é um bobo —

foi contar para si mesmo

histórias de realidade...

E o que ganhou com isso?

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O bom da coisa

é aquele lado dela

que inventamos.

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Rosinha me ensinou

que o bom do amor

é ele ser mentira.

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O indivíduo ‘sentido’

( culturalmente sentido )

é um bicho perigoso.

Cai fora!

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Saiba de quem aceita a esmola.

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A impunidade é tanta,

que até ao réu espanta.

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Se ele lhe disse que não a ama,

vocês dois apuraram apenas

a metade da verdade.

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Se nada em sua vida

está ótimo —

não tem por que se preocupar.

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Brincou que brincou e brincou,

até quebrar o brinquedo —

aos oitenta e nove anos.

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Os limites entre ciência

e espiritualidade

estão em não haver limites

para os dois lados desta moeda.

Cada uma das duas

opera em sua realidade.

O Universo é multiversal:

o Ovo

e suas multicascas.

LA 04/006

 

 

 

Se lhe falta coragem,

se lhe falta força,

tudo bem: aceite

que lhe falta coragem,

que lhe falta força.

Por que haveria de tê-las

do tamanho

que lhe estão a exigir?

Faça o que pode fazer,

e terá feito

o melhor que pode fazer.

E não confunda nunca

o melhor que pode fazer

com o melhor de você.

Quem teria

a acabada expressão

para dar o melhor de si

em seu fazer?

LA 04/006

 

 

 

Narciso é um deus que enlouqueceu —

desviou o foco,

caiu no labirinto

de si mesmo,

auto-seduzido:

adoecido de inverdade.

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Há quem ponha veneno em teu sonho

com a mesma espontaneidade

com que põe água

numa  preciosa orquídea.

Sempre subestimamos

o de que o outro é capaz —

e aí mora o nosso abismo.

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Não dando pra fazer tudo,

faça a sua parte.

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Não sabia que você era assim tão...

mas é... é tão... tão assim,

que assim nem é tão... tão assim,

mas assim tão.

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Coçar é bom,

principalmente

se aqueles que se coçam

são exímios em pruridos

do avesso.

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As pessoas não mudam tanto

como os outros gostariam

que tivessem mudado...

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Não se deve ficar muito miudinho

ante um rival.

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Mucosa com mucosa

faz florescer a rosa.

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Você deve trabalhar-se

para mudar

naquilo que ( para você )

               deve mudar —

e não para agradar malandros!

LA 04/006

 

 

 

Muita areia, meu velho?...

Carrega aos poucos,

mas com todas as ferramentas

e recursos

e meios

e inventos...

mas carrega,

carrega, cara,

isto é: come —

sem pena

ou ( tu quem sabes )

com pena e tudo.

LA 04/006

 

 

 

Bom é não fazer,

se esse fazer

for machucar alguém.

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A vida mostra,

e quem não vê

apanha

com seu chinelo.

LA 04/006

 

 

 

Sosseguem:

todos são santos —

até antes do Juízo.

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A liberdade está para o ser

como a água

para a vida biológica.

LA 04/006

 

 

 

Se não tropeçássemos

no orgulho

estaríamos bem lá adiante...

LA 04/006

 

 

 

Xiranha que troca de casca —

pau nela!

LA 04/006

 

 

 

Seu xibiu

parecia os beiços

de um assovio.

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Vagina um dia

fica caolha.

Pênis nem olha.

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Suas pernas

alicatavam,

estrangulavam,

mas engraçado —

não doía.

LA 04/006

 

 

 

Tinha um amigo,

mas tão amigo,

que parecia inimigo.

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Do Carmo era tão boa,

que muitas vezes precisava

ser má.

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Seus seios diziam “sins”,

mas sua boca

rugia “nãos”.

LA 04/006

 

 

 

De fazer embaixada

com quatro bolas

o gnomo da Glorinha

entendia!

LA 04/006

 

 

 

O suicida

cava uma saída

ressentida

com o cabo de sua vida.

LA 04/006

 

 

 

Disse à esposa que a amava.

Ela responde que, se fosse,

por certo sentiria

esse amor...

e acrescenta:

Amor falado,

amor negado.

LA 04/006

 

 

 

Rosa, Rosa,

me arranja um fulcro

entre suaves pétalas,

e alavanco este quarto.

LA 04/006

 

 

 

Era tão bela,

que o marido usava vendas

para não se adiantar.

LA 04/006

 

 

 

Laura, Laura!

Não dá pra ver na minha aura

que ando roxo, coxo e mocho por você,

sua ingrata?!

LA 04/006

 

 

 

 

O galo cantou, —

uma vez só...

Ainda bem.

LA 04/006

 

 

 

A morte é um fim,

um fim inicial,

sim: fininício.

LA 04/006

 

 

 

... depois... um foi morar

no 22,

o outro no 23,

e o óbvio:

abriram entre si

uma porta secreta.

E então? Fim do amor.

LA 04/006

 

 

 

Amamos o inacessível,

o impossível.

O que a mão alcança —

rança.

LA 04/006

 

 

 

Entre o possível,

o possível e o inalcançável —

puseram aquela gleba

da alma,

aquela gleba além-corpo.

E todas as chantagens

para lá se chegar.

LA 04/006

 

 

 

Não faças drama.

Na cama,

com a luz apagada,

são muito parecidas,

sim, todas Aparecidas

ou do Carmo

ou da Silva.

Não faças drama.

Apenas ama:

entre teu corpo e a cama.

LA 04/006

 

 

 

Ah, você, minha nega,

foi a minha Capitu!

Aquela que não fez, ou fez, ou não se sabe...

( Meu Deus, que charme não saber!

E o Bruxo sabia disso..., isto é, quis isso. )

Sim, bom! Aliás, ditoso que é

o nosso não saber!

Por isso, misteriosa Capitu,

não te julguei, jamais te julgo, minha gata,

nem nunca te rimarei,

ó Capitu,

na minha língua.

LA 04/006

 

 

 

Sobe lá, minha nega, no pau de sebo.

Te espero aqui embaixo:

caso caias, te aparo,

e se as prendas lá de cima

forem de faz de conta,

fico com as de cá embaixo.

LA 04/006

 

 

 

Vinhos envelhecidos

em tonéis de carvalho —

para as divas,

para os deuses —

mamíferos de luxo,

mágicos econômicos

do dinheiro do povo.

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Se mal não vos pergunte:

não tendes vergonha

de (em)pilhardes tanto?

Ou, muito pelo contrário,

todos vós “mereceis”?!

Eta mamíferos de luxo!

LA 04/006

 

 

 

A filosofia do ‘Eu Mereço!’

concentra o que é de todos

e reparte a miséria —

é a canalhice perversa

entranhada no homem-matéria:

aquele a quem a vida

é só um punhado de protoplasma

em cujo centro está a sua porra.

LA 04/006

 

 

 

Cada qual come do que plantou...

Cada um tem o que merece...

e outras  e outras assemelhadas.

O esoterismo de esquina

e ocultismos que-tais

sempre estiveram ( também ) a serviço

daqueles que dominam,

ou só de algumas religiões?...

............................................................

Pensar não custa nada,

aliás, quando custa,

não estamos pensando —

mas apenas,

apenas sendo pensados.

Frases fora do contexto,

sentenças feitas chicotes

para amestrar miseráveis

e criar nóias mentais.

O vírus da sujeição

entra pela cabeça

e aliena, anula, apaga:

faz o cara virar bicho

manso de quintal.

Tudo colaborando

com as fontes geradoras

de auto-engano.

LA 04/006

 

 

 

No momento em que se descobre

que a casa de Deuspai

fica dentro de nós —

já não há o que buscar.

Deus é tão Deus

que Ele sempre foi

nós Nele —

sim, é impossível não sê-Lo.

LA 04/006

 

 

 

Seja, pois, nosso vinho

a alegria que vem de Ti.

O vinho feito

com as uvas da Tua luz —

o estado-consciência

da Integração.

LA 04/006