Isto, Isso E Aquiles

                           Laerte Antonio

Queres A Ilha...                                                                                          

 

Queres a ilha, e para lá te mudas —

sem te moveres, pois que é em ti a ilha.

Queres a ilha com a qual te iludas

a viver uma vida em redondilhas...

 

Queres a ilha, dom em que te acudas

da fúria deste mundo que te pilha

a paz de estares por veredas mudas,

longe do que se torna em armadilha...

 

A ilha, ó alma, te represa a vida

que deve fluir a continente e mundo —

quanto mais ampla mais descontraída...

 

Inventemos, lá em nós, um horizonte

que nos liberte deste vale fundo —

façamos de nós mesmos uma ponte.

LA 11/003

 

 

                 

 

Penas

 

Pena: a vida dura um tão nada

e um osso cansa de sonhar

na generosidade

das entranhas da terra.

 

 

A gente luta,

tem de lutar contra a morte

a vida inteira.

Tem de sofrer,

moer-se,

subir em pau-de-sebo,

correr atrás e na frente...

e ainda tem a obrigação

de ser e fazer feliz.

 

Tem que ser calmo

ter paciência

um sorriso “bonito”

simpatia no rosto

engolir sapos e aleluias

deixar pra lá

achar bom

se desculpar

justificar

e ser legal correto

e mil e mil

e perdoar a quem nos rouba

e usa a nós mais o que temos

e...

 

Pena que às vezes não dá

pra cuidar da parte boa —

um pouco de preguiça,

daquilo que dá prazer

ou simplesmente é agradável.

Chorar pra quem,

se o circo já foi embora

e com ele aqueles enormes sapatos

e a camisa de bolinhas?

 

E que trabalho, minha nossa!

Que força doida

não temos de fazer

pra mãos amargas e mesquinhas(!)

não depenarem nosso vôo...              

LA 11/003

 

 

 

 

Cenário

 

Outono-Inverno,

as árvores estão com os dedos

sem seus anéis...

Vento levou sua biju...

Ventania as descabelou,

despiu

e vibra violinos

no arco de seu corpo...

..............................................................

Desnudas, dançam,

balançam

sonhando —

tornando possível

a grife da primavera

LA 11/003

 

 

 

 

Perda E Libertação

 

O repúdio, o abandono, a rejeição...

Ou você morre ou vence, ou vence ou morre.

Sozinho, já não tem quem o socorre —

ou você vence ou morre: é sim ou não.

 

O repúdio, o abandono, a rejeição...

podem levar ao fosso... e a eterno porre...

Ao fosso depressivo, ou a uma torre...

Você escolhe... Ou à autodestruição.

 

O repúdio, o abandono, a rejeição

podem levá-lo ao choque-desapego:

faz ocorrer que se descentre o ego...

 

E o Outro em você assume a posição:

passa o filme, você elabora: entra em sossego —

a perda se tornou libertação.

LA 11/003

 

 

 

 

Mais Respeito, Mais Amor-Próprio, Caras!...

 

Quem decidiu pensar, sonhar por nós?

Criticar, escolher por nós?

Demos a alguém procuração?!

Universidades e seus pós-

também os temos, caras!

Sim, inclusive aquelas e os do espírito...

.............................................................................

Não já seria hora de quem julga

deixar de ser bestão? Deixar a paranóia,

a frustração...

a neurose, a constipação?

Sim: medicar-se, sentir-se bem —

e só então dar-se ao trabalho?

Ou ( por que não? ) mudar de profissão?

E, importante: saber que suas fraudes,

suas enfermidades-canalhices

nós as guardamos para sempre?

Sim: detestavelmente para sempre.

Abominavelmente para sempre.

É hora, caras, de descer das escadarias do céu...

De jogar fora o que não presta em vocês

e que, aliás, nem é seu...

Sim: é hora de se ter bem mais cuidado:

estudar

pesquisar

transler

viver

joeirar

garimpar

refazer

reinventar...

Sim: é hora

de vertebrar o talento

ou de ir para os diabos!

Algo novo começa, caras!

Com ou sem vocês.

LA 11/003

 

 

 

 

Acharemos Atalhos...

 

Acharemos atalhos entre gente

com gente, entre pessoa com pessoa —

trocas de sensos-sonhos, de repente

feitos razões-delírios pela proa...

 

Acharemos veredas pela mente

e coração do humano, em cara boa,

a conversar no instante eternamente

pelo fluir da vida que eis... revoa...

 

Cavaremos em nós sendeiros, trilhos,

lá por dentro de sonhos, dons e brilhos

que nem sabíamos trazer em nós...

 

E haveremos de ver, com as faces pasmas,

que somos o fantasma dos fantasmas

que já assombravam nossos pais e avós.

LA 11/003

 

 

 

 

Só Pensamos No Estilo...

 

Só pensamos no estilo conhecido,

              descorado e já quase desumano —

no estilo euro-norte-americano

de pensar e sentir já induzido...

 

Um pensar programado e reduzido

a pensar o pensado do auto-engano —

um enganar-se à frente e atrás do pano:

sonhar-sonhado em rumo dirigido...

 

Necessário buscar com outros povos

outros dons e colombos e outros ovos

bicando sonhos de outros céus no agora...

 

Necessário fundir os pensamentos

com a sucata de velhos sentimentos

e achar uma razão da cor da aurora.

LA 11/003

 

 

 

 

Remissão

 

Mister remir o tempo

pelo tempo mais bem vivido.

Saber que nos construímos

com a matéria do hoje —

o ponto de equilíbrio

do Ser em sua estrada.

 

Mister remir a vida

no que lhe demos de morte —

vermo-nos criadores

do nosso próprio destino,

pois que entre a mão e o sonho

só existe a distância

de a coisa ganhar espaço.

 

Mister remir o humano:

desvirá-lo, lá em nós,

de seu sonhar de bruços:

lembrá-lo de que uma Voz o chama

ecoando nos seus passos —

sim, uma Voz o chama

nas varandas daquela Casa

que ele traz dentro de si —

e que habitá-la no dia-a-dia

é caminhar pela Palavra

que dá o sentido de viver.

LA 11/003

 

 

 

 

Boas, Sempre Boas

 

Intenções que entram,

mas deixam lá fora

o rabo.

Entram com boas maneiras,

claro: se não, não entram.

E se comportam.

E exortam.

Instigam.

Encorajam. Sim,

as intenções são sempre

um empurrão,

um fazer para ajudar...

..............................................................

Intenções perfumadas

e muito bem penteadas.

 

As minhas, as suas,

as nossas —

são sempre boas intenções,

até prova em contrário...

ou até nenhuma prova.

As intenções se justificam.

LA 11/003

 

 

 

 

Terror

 

O terror é horrível

porque vem sem avisar,

e já está bem antes

de todo aviso.

 

O terror é um cara

que veio para ficar.

Filho do fracasso social

e da polivalente

ignorância-maldade —

o terror,

vírus não-isolado,

chacina de muitos,

suicídio de alguns —

o terror

veio para ficar.

 

O corpo inteiro está doente —

de cima-embaixo,

de lado a lado.

Terroristas e os que eles caçam

são células enfermas,

células que aumentam —

doença terrível

de nossos dias.

E todos estão doentes:

caçadores & caçados,

caçados & caçadores,

sim: se revezam em X.

LA 11/003

 

 

 

Recíproca Alegria

 

O amor virtual será (quem sabe) eterno,

desde que não ocorram apagões...

Se se torna factual, o dociterno

poderá dissolver-se em virações...

 

Amor de longe tem um quê de inverno-

-vinho-lareira em reverberações...

De muito perto, aquele quê de inferno —

cobranças pícaras e coações...

 

O amor é bom enquanto vagabundo —

não cobra ou deve: apenas até ama...

Quanto mais raso tanto mais profundo.

 

O amor é bom enquanto autonomia

de não se ter por fixa uma cama...

mas se saber recíproca alegria.

LA 11/003

 

 

 

 

Será Que...

 

Será que encontro uma nave no porto

que me leve àquela terra

onde serei tão feliz

que toda infelicidade será pouca

para tisnar minha ventura?

 

Será que te verei

do outro lado de seres bela

para me libertar

dessa doença de me seres única?

 

Será que um dia,

lá em nunca mais te ver,

não recupero

o meu tempo perdido?

LA 11/003

 

 

 

 

Que Fazer Com Os Fantasmas...

 

Que fazer com os fantasmas interiores,

a subir e a descer pelos porões?

Tais criaturas, das quais somos criadores,

se alimentam das nossas ilusões...

 

Jogos por dentro: sonhos de senhores

( reféns de si? ) ou sonhos-evasões

dos que querem fazer-se vencedores

de si mesmos, do meio e situações?...

 

Que fazer de ilusões-corpos-fantasmas

a não ser entregá-los para a luz

que lhes sorva os roubados ectoplasmas?...

 

Que fazer a não ser pastoreá-los

até que a rosa ganhe a sua cruz

e virem cavaleiros e cavalos?...

LA 11/003

 

 

 

 

Aba-Pai!

 

Aba-Pai! nas alturas e funduras

de sentir-Te nos poros do meu ser.

O cosmo é um glória-a-Ti no aqui-lonjuras

de notas-luzes a subir-descer...

 

Aba-Pai! no por dentro das criaturas

e por fora de a graça acontecer.

A vida é um canto em cujas partituras

és sonho em flor lá em sentido-ser.

 

Aba-Pai! no pensar-Te-em-sentimento

confluindo em sentir-Te-em-pensamento

em razões-sensações de amar-Te e ver-Te...

 

Aba-Pai! no saber-Te em minha essência

lá no jardim a abrir-me em consciência

de conhecer-me em Ti e conhecer-Te.

LA 11/003

 

 

 

 

Anoitecendo O Amor...

 

Anoitecendo o amor, resta o fantasma

em forma de carência ou de saudade...

Também a estrela morta ainda pasma

com sua alma de luz e suavidade.

 

A luz é o fruto de uma atividade

que já não é, o afeto é ectoplasma

de alguém que fortalece a entidade —

pois cada um se cria o seu fantasma...

 

que corre atrás de si e vice-versa,

e esse cara não gosta de conversa —

vê-lo de frente é o modo de solvê-lo...

 

Mas ele volta... e, novamente, temos

de encará-lo e fazer-lhe do cabelo

uma peruca em que nos disfarcemos...

LA 11/003

 

 

 

 

Uma Nova Utopia

 

O mundo precisa urgente

dos ardores e frescores

( monte azul visto ao longe azulizante... )

de uma nova utopia.

Sim: dos cremes, dos sais, dos sonhos, dos delírios,

dos tiques e chiliques

de uma nova utopia —

sob cujas varandas

amarrar o burro da esperança,

tomar uns goles,

falar bobagens a sério,

trabalhar, estudar, fazer-criar: loucura normal,

coçar os mimos

e sonhar o futuro.

 

O mundo está doente —

um Hospital Global.

Enfermo, o mundo está enfermo

de Economia,

e esta está blefando no pôquer

( muitas cartas na manga ),

no pôquer com a democracia:

dois “ias” que não “vão”

porque são mentira e blefe —

melhor: são os fantasmas

de um sonho que já acordou

e só deixou remela...

 

O mundo precisa urgente

de um outro “ia”

que o tire da apatia

( dessa chatice de morrer,

desse tédio de matar ) —

uma nova utopia,

novo tesão

que dê seu empurrão

para viver mais uma bela ilusão —

uma bobagem qualquer sublime,

realidádiva que dê coceiras,

calafrios no ventre e no espírito:

uma invenção porreta,

alguma coisa pai-d’égua,

algum bogorodó da alma,

em divinos tremeliques —

estimulado ( quem sabe )

por um chip-cupido

em tom fungo-vocal

do tenor ao soprano...

Algo tão bom, coisa tão boa,

que ( no começo )

dê até disenteria

de tão bom e diferente.

.........................................................................

Vamos lá, mundão velho, —

só uma nova utopia!

Mas atenção: que dê pros lados

de toda a gente

e venha e siga pela via

da alegria.

LA 11/003

 

 

 

 

Coitado!

 

O amor?

Escafedeu-se.

Coitado! Não agüentou —

tanto de um lado

como de outro

exigiram-lhe demais.

Sim: muito demais da conta.

Coitado! Debandou,

desertou —

foi fuzilado:

normas da guerra...

 

O amor?

Mas que amor?!

LA 11/003

 

 

 

 

Sem Perder-Te

 

O equilíbrio

é o melhor dos pontos.

Só o deixes

naquele vai-e-vem

de apanhares a fruta...

Tão-logo roubes o irreal,

volta depressa para o chão.

Sim: ousar é preciso,

mas de ousadia em ousadia —

sem perder-te de fazê-lo

ou perder-te de não fazê-lo.

 

O equilíbrio

é o descanso das asas...

Mas assim que te refaças,

ousa outra vez o salto

para os lados do teu sonho.

 

Em todo ofício

o meio-termo existe:

o quase é bem humano...

Só não existe

a arte sem o ousar.

LA 11/003

 

 

 

 

Osso Por Osso

 

Pensamentos coveiros

adoram exumar.

Montam lindos esqueletos:

osso por osso —

deliciosamente, osso por osso,

habilidosamente, vértebra por vértebra.

 

Pensamentos coveiros

adoram exumar

o passado.

Sim, exumam o cheiro alheio,

enquanto o tempo

com um sorriso cínico,

charmosamente debochado

( ampulheta após ampulheta ) —

o tempo vai enterrando

os donos de tais pensamentos

na vala

dos duplamente mortos.

LA 11/003

 

 

 

 

Acróstico

 

No imaginar você,

Organizo o meu sonho no ar —

Rosto de brisa e pétala, olhos

Macios ( entre o céu e o mar...)

Afagando distâncias entre quatro mãos...

 

Belo esse adivinhar,

Esse montar uma imagem

Resvalando no sonho —

Ternura a despetalar-se

Orvalhando lonjuras que sua voz vai

Ligando e fazendo o

Invisível ter um perfil —

Nebuloso por fora e

Iluminado no imaginar você.

LA 15/10/003

 

 

 

           

Quem É Que Me Levou...

 

Quem é que me levou o que eu não tinha?

Pois, se tivesse, não me levaria...

Seu nome era Natárcia, era Maria,

ou roxo arrulho, só, bem à tardinha?...

 

Não sei, não lembro... Parecia pinha

que ao meu Natal já não enfeitaria...

Sim, nenhuma alegria já traria,

nem já seria nada que espezinha.

 

Já que eu não tinha, então não me levaram...

Sim: tão-unicamente carregaram

algo que era de quem o carregou...

 

Resta-me agradecer a quem levou

o que não era meu, nem nunca foi.

Tava mais pra andorinha que pra boi...

LA 11/003

 

 

 

 

 

Diferença

 

Ser senhor ou escravo

é o quanto podes.

Sim: uma vítima da sorte,

ou senhor do teu destino.

A escolha é tua, e mora

em teu fazer-criar.

 

Em teu querer-ousar

fazes o ambiente.

Sem o querer nem o ousar —

serás “feito” por ele.

Prestidigitador

ou marionete —

aqui está a diferença

entre quem quer e age

e a mente sem vontade.

 

A mente voluntária e ousada

que observa atentamente o ritmo

dos seres e das coisas

e aprende a sincronizar seus passos

com os degraus da vida —

consegue transitar

para cima e para baixo:

construiu para si

o seu saber ser livre

entre as balizas da realidade.

LA 11/003

 

 

 

Que As Saudades Arrulhem...

 

 

Que as saudades arrulhem cor de amora,

mas tenham modos mais civilizados —

não palitem os dentes nem ( na hora

de dormir ) usem franjas ou babados...

 

O mugido da vaca já descora

no lembrá-lo lá em tempos tresmalhados...

Da vaca a mastigar azuis e prados

junto à infância a correr longes-agora...

 

Parece que foi ontem... Ontem não:

há pouco-pouco, estávamos sorrindo,

alisando esperanças entre as mãos...

...................................................................................

Graças a Deus que o lindo, quando findo,

nos mostra que foi lindo por não ser

mais que ter sido apenas não-saber.

LA 11/003

 

 

 

 

Se Mostras...

 

Se mostras, este brim se me arrebenta...

e o pano é caro, a calça é importada:

pois vinda de Paris ou de Granada

ou de outra qualquer terra nadeguenta....

 

Se me tocas, a roupa está suarenta,

muitas vezes, quem sabe, até molhada...

Com fome, vais comer macarronada —

à maneira italiana: bem sangrenta.

 

Se bebes, vais beber do melhor vinho:

em taças-seios com amora e espinho...

até a tarde descer e enlouquecer...

 

Se queres, vais fungar a noite inteira

até que fiques dura sobre a esteira —

plugando o anoitecer no amanhecer...

LA 11/003

 

 

 

 

Se Eu Lhe Beijasse A Alma...

 

Se eu lhe beijasse a alma àquela hora,

iria me dizer que sou um bruxo...

e isso me fora, Glória, um quase luxo

que vivo, há muito tempo, a jogar fora...

 

Tenho bebido do licor da aurora

que lhe brota das faces qual repuxo...

Sim, ao beijá-la sinto esfriar-me o bucho

e o brim que, cá embaixo, quase estoura.

 

Não podia beijá-la àquela hora...

Agindo assim, você sempre me explora,

fazendo ( mais que eu posso ) lhe pagar...

 

Não podia beijá-la àquele instante —

podia arrebentar qualquer barbante...

e cair a barraca de sonhar.

LA 11/003

 

 

 

 

Angústia

 

Amor e morte

têm seus conúbios:

seus encontros

a partir da 0h.

E viva a morte.

Ou melhor:

Seja a morte

eterna noite

de constelado amor.

 

Sim, a morte

sempre entre a mão e o sonho.

Angústia deambulante

( lá por nós dentro )

que o ser leva consigo

a espinhá-lo entre a carne

e a consciência —

a consciência feita carne.

 

A dor de saber.

Os calafrios da esperança

sustentada pela fé

permeada pelo amor.

 

Constante? Só a angústia

nos entrepassos

que a vida

( jangada entre a fúria e a pedra )

quer conscientes.

 

Por mais que lembremos

Cristo

ter morrido uma morte

vicária por nós —

a nossa hora sem ponteiros

dói como não saber rir:

rir esse riso trans-coisa —

rir até descentrar

nosso ego dessa angústia

que, por certo, Deuspai

já tem nas mãos desde sempre.

LA 11/003 

 

 

 

 

Fio Do Conto...

 

Terás sonhos divinos no divã,

e terás pesadelos dos diabos —

te verás entre párias e nababos

nessa noite que és, nessa manhã...

 

Lá por degraus, porões de ti, em sã

ou doente consciência, entre farrapos

de ações-tempo puxando mil fiapos

de passado, presente e de amanhã...

 

Essas teias são tu e tua estrada

que constróis com teus pés nessa jornada

perpassada de vias esquecidas...

 

Da arca ( que tu és ) irás tirando

coisas novas e velhas: adormidas...

e achas o fio do conto e vais te achando...

LA 11/003

 

 

 

 

Agosto

 

E esse vento nas árvores desnudas?

( Outono, bocejando, as desfolhou. )

O vento musicando as horas mudas

por caminho em que ainda não estou...

 

O vento, nessas horas sabichudas,

diz coisas de que nunca conversou...

e assovia suas canções carnudas

no pinho em cuja agulha se espetou...

 

Clitoriando desejos cor de amora,

afaga todo verde, toda a flora,

e se vai, e relincha esverdeado...

 

Semeia o morno sêmen pelo prado

e prepara, com suas mãos de cera,

as novas coleções de primavera.

LA 11/003

 

 

 

 

No Mesmo Copo...

 

Nos lábios tinha um ar de Mona Lisa,

tinha no olhar um tom de halloween...

Era assim minha trágica Marisa:

lia Shakespeare, e ia lá pelos seus “teen”...

 

Eu? Sei lá quem eu era... Se soubesse,

jamais escreveria um só verso:

não teria problemas com o universo

nem com este meu ser em sobe-desce...

 

Marisa era tranqüila como a rosa,

eu, muito inquieto, assim como os espinhos...

Marisa era feliz. Eu, uma glosa

 

de elegia ondeando em tom de pinhos

com o vento soprando onnnnnnnsssssss... em verso e prosa...

Tomávamos num copo dois caminhos...

LA 11/003

 

 

 

 

Jamais Te Beijaria...

 

Jamais te beijaria, ó Mona Lisa,

nem que tu me pedisses de joelho.

Nem por dentro de um sonho por espelho

ousaria transpor essa divisa,

 

essa libido a escorrer precisa

nesse desprezo pelos homens: relho

sobre o falo... e um zumbir de escaravelho

num silêncio que sabe aonde pisa...

 

Esse sorriso-luz, por mais se esconda

entre as sombras, é riso de quem sabe

fazer do nada o dom de quase tudo.

 

Jamais te beijaria, ó Gioconda!

Pois devo permitir que me desabe

esse mistério que me é paz e escudo?

LA 11/003

 

 

 

 

Aeróbia Musa

 

Ah, Musa, se te pego! Espera só!

Tu andas inspirando o meu vizinho, —

deixas-me só: jogado aqui sozinho

e levas a outro o teu borogodó!

 

Um inverno inteirinho sem xodó!...

Sim, putona! me negas teu carinho

pra trocá-lo por mais um bocadinho

de pano, endosso, brilho, pão, boró...

 

Pensando bem, sua putona, fazes bem

em servires a muitos de uma vez...

Diz o adágio: Tem um o que dois tem.

 

Sim, fazes muito bem, aeróbia Musa,

saber de português, economês

e do quadrado da hipotenusa.

LA 11/003

 

 

 

 

Outros Tempos

 

Sentidos emaranhados,

pensamentos inúteis:

vaidade das vaidades

com bobagens sublimes.

Sinistras vaidades —

um gargantear

solerte e vagabundo.

.......................................................

Cadê os homens

que iriam mudar o mundo

com o pensamento?

Falavam lá, bem lá de cima

das escadarias do céu.

Sabiam tudo,

respondiam a todas as perguntas,

e formulavam outras —

claro: bem mais profundas, e maiores:

holístico-maiêuticas...

Suas frases de efeito

ainda ecoam na memória —

enfermas e filosóficas,

tentando garimpar

até alguma poesia...

Muitos deles blasonavam

que isto, isso e Aquiles

estavam mortos —

inclusive, é claro, Deus.

Sim, Deus estava morto.

E explicavam a frase,

e tão jeitosamente a explicavam,

que mesmo os não-ateus

acabavam entendendo

sua profundidade.

Tais homens fizeram maravilhas,

seus livros ( e alguns deles ainda nas lides )

haverão de fazer muito mais nada:

seus sentimentos enrodilhados

ainda chocam nas charmosas cabecinhas

muitos filhotes com a língua bífida...

Um tempo bem arrogante.

LA 11/003.

 

 

 

 

Vá Que Um Dia Meu Verso...

 

Vá que um dia meu verso se machuque,

como é que então irei dispor de muque

pra continuar a empurrar meus dias

em direção a novas alegrias?

 

Se o pobre precisar usar muleta

é bom que também use uma palheta

para que o sol não lhe cozinhe essa,

que às vezes tem um cérebro: a cabeça.

 

Que entre em gostosa ( então ) convalescença,

tenha muita, muitíssima paciência

até que fique além da conta bom —

 

e jamais se machuque novamente

( compre um barco e se dê como presente... )

e escreva, que escrever é orgasmo e dom.

LA 11/003

 

 

 

 

O Cais Que Estava Ali...

 

O cais que estava ali, já não está...

Mas deu certo... porque o meu navio

partiu já faz bem tempo, foi na frente...

antes, bem antes de eu o construir.

 

Tu te lembras ( ou não? ) do meu silêncio

que te dizia que eu iria embora...

e levaria, apenas levaria

comigo nada ter para levar...

 

Te abraçava em palavras e no olhar

sempre que tinhas frio ou tinhas medo:

as noites demoravam a passar...

 

Depois soube que tinhas ido embora...

Tinhas tomado aquele meu navio...

Mal sabias que vinhas para mim...

LA 11/003

 

 

 

 

Esta Brisa Indo E Vindo...

 

Essa brisa indo e vindo pela sala

tem o perfume bom de quando vinhas

e iluminavas em um tom de opala

essas varandas com o grená das pinhas...

 

A tua ausência e as saudades minhas

é uma voz que descanta e logo cala...

entre o aroma de sonhos que trescala

pelos luares de maduras vinhas...

 

Tudo passou com tanta suavidade

e ao mesmo tempo tal velocidade,

que até se pode resumir num “oi!”

 

Uma saudade calma, uma saudade

que olha linda, sorri e docidói...

Saudade a saborear o que se foi...

LA 11/003

 

 

 

 

Lembrança Pênsil

 

Solilóquio do tímido Espraiado —

marulha na ternura de escutá-lo...

Brisas, pássaros correm abraçá-lo

em vozes de um coral sinfonizado.

 

O vento ergue do chão velhos fantasmas

que correm com seu corpo de poeira...

Gargalha o joão-de-barro na mangueira...

Ouça: os ramos ( sem folhas ) sofrem de asma...

 

Rendas de sombra pelo chão... A alma

das coisas, com seu corpo de silêncio,

espia... A brisa acena em cada palma...

 

Harpas eólias entre as ramas pandas

de um sonho manco... uma lembrança pênsil:

Você, fantasma a andar pelas varandas...

LA 11/003

 

 

 

 

Estética Do Humano

 

Sim, são irmãos, você e o violino —

uma estética só, uma estesia:

tão bela como a rosa ao sol a pino,

quanto as sombras se abrindo em novo dia.

 

Sua alma traz e guarda aquele tino

que é mais que dom, um eco de poesia...

Dom a passear descalço em chão divino —

a correr orvalhado de ousadia...

 

uma vez que, sem ela, há o perder-se

e com ela o ganhar-se em ser e ser-se:

a vida é viagem dentro de outra viagem...

 

Por isso, pra fazer o caos em margem,

é preciso que a prática do engano

vá se tornando estética do humano.

LA 11/003

 

 

 

 

Paciência!

 

Quanto mais se muda, amorzão,

mais igual a gente fica.

Quanto mais se conversa,

menos se entende.

Quanto mais se conhece,

menos fica sabendo.

A vida em volta da mesa

dissolve muitas cadeiras...

 

Que fazer?

Preferir made in China.

O relacionamento “inflável”

é uma solução pacífica,

e barata...

Mas qual a graça

de fazer guerra só?

Nada é perfeito.

 

O que faltava era aprender

a amar o desamor —

coisa que já se fazia,

mas assim sem perceber:

assim de lado,

de modo quase inconsciente...

Agora que se aprendeu

que pra aprender

primeiro a gente desaprende —

agora, sim, minha cara,

a gente vê que a vida

tem soluções de baixo custo...

 

Desanime não, amiga, —

a irrealidade é mesmo assim:

sempre bem mais terrível

que a realidade.

Dê o braço a torcer não:

quando não tem jeito

de acertar —

fica a incerteza pelo certo

e o certo pelo provável,

isto é:

sem querer a gente acerta.

 

E tchau! que vou chegando.

Tempo e gente (e vem chuva!...)

não foram feitos

pra se entender.

Ainda bem.

...........................................................

Coragem!

E paciência!

Daqui por diante —

faremos tudo direitinho

por entre as veredas tortas

da vida.

LA 11/003

 

 

 

 

Velhíssimo Tema

 

Lidando com o que vemos e não vemos,

dispomos da fazenda e, fazendeiros,

fazemos-desfazemos-refazemos —

em feitos façanhudos e faceiros...

 

Semeamos, plantamos e nem temos

em mente que seremos os ceifeiros

de tudo o que deitamos nos canteiros...

Plantamos, semeamos e esquecemos.

 

E fruímos: colhemos, vindimamos:

os frutos da fazenda saboreamos —

dádivas entre humanas e divinas...

..........................................................................

 

E aquele chão ali?... Olhamos com esforço:

é pedra, é ponta, é espinho... E o vemos nosso.

Tomara que estejamos de botinas!

LA 11/003

 

 

 

 

 

Kafka E Borges

 

Lá na textura de sua alma,

uma poesia

constantemente dolorida,

mas constante poesia.

Uma ternura

que respira ampla

e tem uma beleza

que olha de lado

pra ser mais leve —

sim: beleza-leveza,

sonho aberto em flor —

um perfume cósmico:

uma carícia prévia,

um acalanto anterior...

Um magnetismo

cheirando a amarelo

e cinza —

galvanizando o ambiente:

um movimento para fora,

tal como o lírio

brota em setembro

lá do fundo da terra

para dizer em suas pétalas

que veio da matéria escura...

 

Lá nos recôncavos de sua alma

o vento desfolha dálias

de três cores —

e todas doloridas

como a poesia

que vem de lá —

constantemente dolorida,

mas constante poesia.

LA 11/003

 

 

 

 

 

Lia E Raquel

 

Raquel não se importava...

mas Lia amava Jacó.

Preparava-lhe chás,

chás de mandrágoras...

e disputava com Raquel

( que era — ao contrário dela —

mulher linda )

para deitar-se com ele.

 

Raquel tinha de lhe dar José...

( era a mulher do Destino ).

Lia adorava dar-lhe amor

( era a mulher

deliciosamente só mulher ).

LA 11/003

 

 

 

 

 

Um Clique

 

De repente chega

a idade do não-dá-mais-tempo.

Engraçado,

a gente fica ubíquo —

está aqui

e igualmente lá...

O aqui, que é um pouco,

um resto,

e o lá, que é infinito:

um portal da ante-sala

para a sala

do nosso estarmos indo...

 

E como dói,

quando a vida nos diz

que não dá mais tempo!

( Percebemos, de lado,

que ri de nossos planos...)

Olhamo-nos por fora,

por dentro,

tateamo-nos...

e sorrimos impotentes,

impotentes e sem-graça —

dolorosamente sem-graça.

E entre aqui e lá

a distância é um clique —

o apagar de uma luz.

LA 12/003

 

 

 

 

Ocupado

 

Sou o que compareceu na véspera

e hoje se esqueceu de estar

para falar das saudades de amanhã.

Sou o que ( como a mulher que atende )

no momento está ocupado.

Semelhante tal mulher,

no momento não atendo

porque estou atendendo

ao que a vida quer de mim.

 

Leio-escrevo.

Lendo, ouço.

Escrevendo, falo.

Escrevivendo, sou tadas as coisas.

Sim: vou contando para mim

o que já me contaram —

mas não deu para entender...

( Quem quiser aproveite:

essas coisas que conto para mim

têm todos nós.

Se não tiverem todos nós,

a mim também não me têm. )

Quem quiser que aprenda

que o essencial não se aprende

a não ser consigo mesmo.

 

Que mais querem

de quem não esteve na véspera?

Se quiserem saber das coisas,

indaguem ( ou leiam ) os donos do Circo.

Eles lhes dirão inclusive o dia, a hora, o...

em que Deus nasceu,

bem como quando morreu —

deixando o homem e a mulher

em Seu lugar.

LA 12/003

 

 

 

 

 

Erro/Acerto, Acerto/Erro

 

Erramos, minha Rosa.

Erraremos até acertar.

Depois de acertar —

tornaremos a errar

para — caprichando no erro —

suplantar o anterior:

acertar menos erradamente,

errar mais acertadamente —

até que acerto e erro

virem degraus um do outro:

as duas faces de um rosto,

os dois lados de uma coisa

que nem deveria ter lados...

Sim: erraremos até o erro,

cansado,

mudar-se em algo

que, provisóriamente,

é acerto.

.................................................................

Quem sabe um dia a gente não aprende

a errar acertadamente?

LA 12/003

 

 

 

 

 

Patético

 

Há uma culpa, Rosa,

uma culpa original

por estarmos vivos —

que, aliás,

morrer não faria

menor, antes

só nos livraria

do prazer de carregá-la...

E isto é o patético,

( Rosa! )

em lugar do poético.

LA 12/003

 

 

 

 

 

Belo

 

O belo da beleza

é que ela

nem precisa ser bela —

basta ser vista,

sentida assim.

 

Mais belo que a beleza

é a força que nos liberta

da bela babaquice

do belo.

 

O belo só é belo

quando você o descobre assim:

 belo,

que não exige argumento.

Tem seu borogodó

apoiado no sopro

da existência.

O mais,

o mais é tomar assento

ao lado desse caniço

chamado estesia.

LA 12/003

 

 

 

 

Noético

 

Poético é o patético

( do avesso ) com ares de dialético,

um tanto cético

e claro: nada ou pouco hermético —

nem por isso cataplético,

menos ainda apoplético,

só um pouco diurético,

nem por isso menos ético

do que o menino céltico

imolado dispéptico

com um machado nada estético —

após discurso ético.

LA 12/003

 

 

 

 

Hora

 

Chão palmilhado pelos pés do engano:

areias de um deserto a desdobrar-se

sobre o lombo de um sonho tão humano

suado de ilusões na calma face...

 

Hora a queimar de um fogo meridiano

luciferando a alma a recordar-se:

o Pai, a Casa, a Queda, o auto-engano...

a verdade e a beleza em desenlace...

 

Hora de vasculhar com o pensamento

a ventura rolada com o vento

da luxúria a fazer os seus reféns...

 

Hora de ver a sorte em seus vaivéns...

e com o Verbo, sua força e tino,

escaparmos das mãos do cru destino.

LA 12/003

 

 

 

 

Mais Uma Vez...

 

Mais uma vez Natal.

Temos o pão e o vinho

que o mundo

não sabe fabricar.

A videira verdadeira

do Pai agricultor.

A brancura candial do Verbo,

o frumento da vida.

Mais uma vez vêem Deus

as nossas sensações.

LA 12/003

 

 

 

 

Encontro

 

Dentro das eras,

a vida programa para o humano

encontros e encontros consigo:

da pessoa consigo mesma.

Todos os tempos,

todos os acontecimentos

e todas as experiências

confluem

para o tempo maduro,

isto é: para o hoje —

para onde-acontece

esse auto-encontro.

 

Esse encontro consigo

tem perturbado a sociedade,

mas é preciso ( e cósmico )

que cada indivíduo veja

a assombração que é

nesse Teatro do Medo:

Teatro de Si.

 

O inimigo

não está fora,

mas dentro em cada um:

o inimigo é cada um...

Os problemas não são do outro

ou meu —

estão atados

por um fio escarlate

entre o mim  e o tu,

entre o eu  e o ele,

entre nós e os outros.

Sim: pensa-se que o perigo é o outro,

mas se esquece de ver

que os outros

são todos os eus feitos outros.

Claro: somos os outros de nós mesmos

enquanto co-criadores de irrealidades

que encaixamos a bico de botinas

e a golpes de martelo

por sobre a realidade.

 

Não é difícil ver

que o ser humano é hoje conclamado,

de modo individual-global,

para esse terrível encontro consigo.

Terrível? Sim: nada é mais terrível

do que enxergar que o crime

que imputamos ao outro

é igualmente nosso.

 

Aproveitando esses dias

em que mais de dois bilhões de pessoas

dizem ter suas vidas renascidas

da morte Daquele Outro —

que quis nos ser,

talvez eu  não me ofenda

em me propor:

Que tal a gente olhar para a gente mesmo,

assim:

de alto a baixo,

da pele até às entranhas,

e ver o que se finge não ser,

isto é: ver-se o outro?

Ver-se sem se assombrar,

nem precisar correr...

Sem recriminações gratuitas

e safadas...

( Ver-se e não comentar com ninguém,

pois no fim do comentário

a gente se justificaria...)

Ver-se e nunca mais esquecer

o que se viu.

E isto, não como reflexão nenhuma

que alguém não possa ter —

mas como iluminação

que se adiava habilmente

( não se desejava o clique...),

até que um momento não tem jeito:

a luz se faz.

..............................................................

E que dessa forma este nos seja

um feliz Natal,

tão feliz que já ninguém se lembre

das palavras duras

que eu disse para mim

disfarçado de eu-tu —

pois me sei o derradeiro

a não poder apontar o dedo

para o último dos homens —

já que eu o sou e ele me é

nessa sala de espelhos

do humano coletivo

no grande Teatro do Ser.

LA 12/003

 

 

 

 

Gaaaaaaaaa!...

 

Enfio moedas entre os teus dedos,

e o teu amor logo funciona,

bonito, como um fliperama.

Quando os teus dedos não sentem money,

inteira te arrefeces —

vais virando múmia fria e muda,

até cheiras a sarcófago...

Aí vou te injetando mais argent —

e logo ressuscitas teu tesão

em rotações e translações,

gritinhos,

fungos,

gemidos virtuais,

de provocar coriza

e dores nos músculos do abdômen...

 

Mas sempre calculas bem...

Antes de prensar as três jabuticabas,

dás um “flip” em minhas costas

e esperas com a mão em concha

mais moedas: mais derrama —

e tudo volta a ser um fliperama —

em ciber-remelexos,

siderchiliques

nesse mundo de Matrix...

E enfim: as uvas

( sem luvas ) —

são prensadas

em tiques ofegantes

num orgasmo ga...

sim, ga...

bem ga... ga... ga...

gaaaaaago!

LA 12/003

 

 

 

 

 

Pão Molhado

 

Molho o pão seco

do mundo

na poesia.

Minha avó

me molhava na caneca

o pão que comprava  lá no Hugo.

Aprendi com ela

a fazer isso.

Como já não tenho aquela caneca,

molho esse pão na fé,

na esperança,

no amor —

que ela me ativou

aqui em alma-coração.

 

No silêncio desta sala

molho o pão seco do mundo

entre meu ler-escrever

e lembrar minha infância —

minha infância que aprendera

com minha avó

a molhar o pão da vida

na alegria singela

de conviver entre os que amamos.

LA 12/003

 

 

 

 

Tanto Tempo

 

Faz tempo que você já não me vem

fazer cantar a tarde e dar à rosa

aquele plá que a faz bem mais charmosa —

reflexo seu sobre ela em gesto além...

 

Tempo de graça, dom, tempo de bem

entre nós e com a vida: verso e prosa...

Tempo de desventura venturosa,

tempo de paradoxo e calma zen...

 

Sim, tanto tempo faz que não me vinha,

que não se lembraria da vizinha

a cantar os seus hinos na varanda...

 

Você veio faz tanto, que não lembro

se usavas uma estampa de urso panda...

nem se era março, junho ou já dezembro...

LA 12/003

 

 

 

 

Empada De Eros

 

Chato pra burro morrer.

Pra burro? Desculpe: pra gente.

Já pensou? Você ali,

com aquele ar lambido,

aquele desaire

de quem não soube

aonde enfiar a cara.

 

Aquele jeito sem-graça

de quem estava em orgasmo

e lhe acenderam a luz no rosto...

 

Chato pra burro

é não ter capim.

Chato pra gente

é morrer.

 

Um desconforto dos diabos,

morrer.

Acho que é por isso

que existe gente-bomba...

 

Chato pra burro,

chato pra gente,

chato pacas —

morrer.

 

Pior que morrer

é não ter degustado

( sem camisinha )

o viver.

LA 12/003

 

 

 

 

Pedrosos

 

Há os

             que

                        vão  pe...

                                         las

                                                  pe... dras...

 

Altas botinas,

nem molham pés ou pernas.

Vêm e vão pelas pedras.

A mão de seus ancestrais

é que lhes preparou

essa via confortável.

Vêm e vão pelas pedras.

Desde muito e muito tempo,

vêm e vão pelas pedras,

e as vão mostrando e conservando

para os filhos e netos e...

Têm raízes, têm nome,

têm Família —

têm o caminho das pedras

e — sobretudo — altas botinas.

LA 12/003

 

 

 

 

Olhei Pela Janela...

 

Olhei pela janela e vi a vida

a marulhar por entre um mar de gente...

Um charme, uma ventura enlouquecida,

uma dança-ousadia reluzente...

 

E o coração, que não sentia, sente

chiliques reais-virtuais em cada esquina...

O amor, tomando a forma de serpente,

sua peçonha injeta tão divina...

 

São delícias mortais tão venturosas,

são doçuras letais tão nutrientes —

tanto mais veras quanto mentirosas...

 

Loucuras tão fiéis quão displicentes,

              quanto mais belas tanto mais vaidosas,

quanto mais cândidas mais impudentes.

LA 12/003

 

 

 

 

 

(C)ONTOLOGIA

 

Se negas alguma coisa,

é porque queres dizer

que essa coisa existe.

“Não há verdade”;

“não existe amor”; não há paz”...

Como “não há”?

se estás falando “deles”?

Os arquétipos da vida

existirão para sempre —

desde os seus primeiros

até os últimos degraus.

 

Afirmar ou negar

é apenas ritualizar

a existência —

conferindo-lhe força,

continuidade e transcendência.

 

Melhor que afirmar

ou negar

será sempre esperar que o tempo

desvire o que está do avesso.

Cada geração conta o seu conto,

dentro de um sem conta de contos,

e cada coisa é um contar-se.

Ser e universo

precisam renarrar-se

naquela grande Odisséia

em que Ulisses é o Ser

e Penélope o Tempo.

LA 12/003

 

 

 

 

Adaptação

 

Agora, amada,

que as estações enlouqueceram

( cheias de tiques e aflições ),

o tempo

operiza suas Isoldas

em câmeras apressadas:

cospe e chega com o vento

em ritmos dementes

lá por dias-estações...

E o amor, até o amor

tem orgasmos taimerizados

pra não perder o avião.

 

Sim, amada, o amor

já não pode gaguejar

aqueles chiques chiliques

na corola dos lençóis.

 

Saudades?

Que esperança! Nem-só-uma.

Se o amor perdeu em amor,

ganhou logo em amoras:

nunca a gente viu tantas —

fiando seus sonhos cor de aurora

entre casulos de seda.

LA 12/003

 

 

 

 

Assim Com Calma...

 

Assim, com calma, amor, bem devagar —

pega um grampinho e coça, coça em mim

essa dor lá em alma: assim... assim!...

Ai, que delícia, amor! dá pra gozar...

 

Coça a dor de existir, pra suportar

essa dor virtual que ama quindim...

acompanhado, é claro, de alfenim

e licor de juá pra alevantar...

 

Assim, com calma, amor, cantando em grego,

prega esse enferrujado e torto prego

na parede e pendura a frigideira...

 

Ah! Vamos nos coçar a tarde inteira —

até, amor, o quarto fazer bico...

E a gente joga a Sena e um dia fica rico.

LA 12/003

 

 

 

 

Normal-Normal

 

Amor para ser bom, amada,

há que ser cômico,

há que ter incursões pela tragédia

e, sempre que possível,

ser ridículo.

 

Sim: os dois lados de alguém

ou de uma coisa,

somados,

hão de dar

um natural ridículo —

um ridículo normal.

 

O homem faria bem

em assumir com orgulho

o seu lado ridículo —

aprenderia o humor,

o riso

e até a gargalhada:

tão necessários

ante as bobagens lustrosas

do dia-a-dia

e o bico fino das botinas

do mundo.

 

O ridículo, amada,

é sinal de que o amor vai bem.

E a gente ( rindo ) agradece

e ( gargalhando ) esquece.

LA 12/003

 

 

 

 

Até O Meio-Dia...

 

Mais perigoso que viver —

só viajar em cima

do último vagão.

A vida

é graça nua e crua —

jamais oferece essa coisa

chamada segurança:

pura infantilidade

não-infantil...

 

A vida é como a rosa —

eterna até o meio-dia.

 

Estar em perigo é o sorvete

de todos os sabores

sob o sol quente de viver,

necessário ser bom de língua...

 

Sim: viver em segurança

não seria interessante,

nem desejável...

Muitos o experimentam

mas ( parece )

não ganham nada com isso...

 

Morrer é muito fácil.

Difícil é o viver —

é sua arte

feita debaixo de fogo

amigo

e inimigo.

..........................................................

O mais? É viável esperança

de tomar café com bolinhos

( nas tardes de chuva fina )

lá na cozinha de Hermendarga.

LA 12/003

 

 

 

 

Porque-Sim

 

Fizeram a maioria

abdicar de exercer

o direito de viver.

Excluíram pobres e miseráveis.

Excluíram porque-sim,

e ponto final, e pronto-acabou.

E nenhum pio,

nenhum grasno.

 

Ao miserável

resta racionalizar...

e a todos os mais —

o desencantamento.

 

Mas ( como diria aquele tipo heróico )

nem tudo está perdido —

só se desencanta

quem já esteve encantado:

se após um encanto

nos vem um desencanto —

o vice-versa disso

também é verdadeiro.

E a tal ponto,

que tais alternâncias

sabem ambas esperar

com tranqüilidade e alegria

pelo oposto do que está vivendo.

De sorte que ser ou não ser

é só uma maneira

de se aprender a lidar com a vida —

se é noite,

daqui a pouco o sol virá;

se é dia,

logo teremos as estrelas

com seus risonhos flertes

a esbanjar ironias de distâncias...

 

Sim: aos miseráveis

resta racionalizar:

guri e guria

fazendo escadinha

pra chupar aquelas uvas

que a raposa de La Fontaine

dizia a si mesma que estavam verdes,

dizia e queria acreditar... 

Guri e guria

saboreando aquelas uvas

que sabiam maduras

( porque cheiravam a doçuras )

e nunca acreditaram

no que dizem as raposas

nem os mais velhos.                     

LA 12/003

 

 

 

 

Solidão/Pluridão

 

A solidão é quase um luxo.

Quem não a tem à mão

é até melhor não saiba

o de que se ressente.

Mesmo aquela que é rodeada

de pessoas conversando com a gente —

é coisa boa:

mostra que o singular

( lá no fundo que não tem )

é bem igual ao plural

( que não sabe ser um ).

 

Solidão é seiva

pra quem quer humanescer —

fazer dela o ateliê

de suas arborescências.

 

Solidão faz crescer

e caminhar com liberdade:

noção de si e do outro.

Pluridão faz embolar:

um só corpo teratológico,

imoral e alienado.

LA 12/003

 

 

 

 

Querem Que...

 

Querem nos ensinar o que fazer:

de que modo, onde e quando o fazimento —

virtual ou de pedra ou massa-vento,

contanto que o fazer se deixe ser

 

tal como o catecismo do querer

que impinge o Circo a um fazer no intento

de ser feito segundo o aprazimento

dos donos e notáveis do Exercer.

 

Querem que nossas mãos ( e com ternura )

se amoldem à nostálgica feitura

de tradições cheirando a seus anais...

 

Querem que nossa voz, num santo berro,

lhes aclame a áurea estátua do Bezerro

que brunem entre flatos colossais.

LA 12/003

 

 

 

 

Bom Não Buscar...

 

Bom não buscar o amor onde a ternura

tomou o seu lugar e cobra menos.

Adeus, ó cordas, penhas e venenos —

amor já não se mata nem segura.

 

Bom não buscar o amor onde a doçura

de sonhos ( em seus betacarotenos )

são fibras de sorrisos mais amenos —

ruflar azul que o céu já não usura.

 

Bom não buscar o amor onde seu laço

está bem mais pra forca, pra baraço

que pensamento ou sonho em forma de asa...

 

Bom não buscar o amor que já não sabe

que fazer do carvão que já foi brasa

e sapato de pé que já não cabe.

LA 12/003

 

 

 

 

Não-Escolha

 

Vou desmorrer de amor por Catarina,

pois mudou-se pra cá a Joaninha —

uma graça de pernas a menina...

e além de tudo, mais real: vizinha.

 

Catarina tem seios de moranga...

Os de Joaninha estão mais pra manga.

Catarina tem bunda enluarada...

A de Joaninha é bem entusiasmada.

 

Pensando bem, a minha Ká tem charme...

A Jô também, mas não com aquele alarme

que acorda o quarteirão naqueles saltos...

 

Quanto a sonhos, as duas os têm altos!...

A Joaninha é quase que divina...

e bem terrena é a doce Catarina.

LA 12/003

 

 

 

 

Até Que Um Dia...

 

Esbarrei nas venturas de Rosinha

e logo me fartei: barriga cheia —

lombrigas satisfeitas, pois que tinha

os olhos em tom mole de pós-ceia...

 

Fazia algumas luas não me vinha

fartura assim tão lauta e de mão-cheia.

Deram-me os céus andar por sua vinha —

e vindimei bem pródigo e sem peia.

 

Degustamos luares venturosos,

saboreamos venturas enluaradas...

Cruzamos e parimos multigozos.

 

Até que um dia — as caras enfastiadas —

olhamos um pro outro e nos dissemos:

Vamos partir a estrada em dois extremos.

LA 12/003

 

 

 

 

Do Diário De André

 

Quando eu a acariciava,

de pé,

um fluido arrepiante

me chuviscava pelos dedos.

 

Quando eu a acariciava,

deitados,

a penumbra ( transida )

dava espirros de felicidade

e a gente ficava

que era só coriza.

 

Entre a fiozeira desencapada,

a gente dava choques

e quando fechava as pontas —

dava curtos delirantes

que aterravam dentro d’água...

Sim: coisa de matar.

LA 12/003

 

 

 

 

Gente-Marisco

 

Os mariscos apanham de chicote —

entre os rochedos e o pesado bote

das águas: os pequenos sempre sofrem

dos grandões injustiças que lhes sobrem...

 

Os pequenos apanham sem revide...

como o vento que torce a tenra vide.

A covardia é tanta neste mundo,

que sempre paga o pato o gemebundo...

 

Alguma coisa ganham os mariscos —

o mar lhes bate, mas lhes traz petiscos:

amam ser carrapatos de rochedos.

 

Sim: gostam de apanhar e sentir medos —

são bem iguais àquelas personagens

que adoram apanhar e estar às margens...

LA 12/003

 

 

 

 

Menos Sempre

 

É ensurdecedor

o silêncio das pedras.

Rosa podia cheirá-lo,

tocá-lo,

depois me ia traduzindo

em palavras

que despetalam a tarde

e têm o corpo

das primeiras bonecas

ou dos primeiros piões

ou pipas empinadas

pela mão da infância.

Sim: Rosa podia cheirá-lo

e se, cheirando, espirrasse

com aquele nariz

( de cair chuva dentro...),

com aquele nariz

entre as mãos em concha —

aí, sim, ela chovia

em todos os meus sentidos

aqueles calafrios que só as pedras

sabem disfarçar —

fingindo não ter nada.

...................................................................

Um dia pedi a Rosa

duas pétalas.

Ela me deu quatro.

E me cobrou: Não conte

para as abelhas

nem para os jasmineiros

traídos pelas brisas.

Jurei que não, que jamais,

mas gostaria de sempre...

Aí, ela me deu um nó na frase,

me pondo a mão na boca.

E muito séria, séria demais, me disse:

Sempre é coisa muito chata —

quer pra cá, quer pra lá,

vindo ou indo,

sempre é coisa demais chata.

Peça o que quiser,

como quiser,

onde quiser —

menos sempre.

Sim: se a vida é preciosa

e bela

é porque em coisa alguma

se baseia no sempre.

LA 12/003

 

 

 

 

Os Salgueiros Estendem...

 

Os salgueiros estendem os seus braços

              como tentando se agarrar no vento...

Embaixo passa a água e, nos seus passos,

tropeça em cada pedra em sonhamento.

 

Entre os salgueiros alguém canta, e em traços

da voz, lembra Desdêmona em tormento:

descanta o amor em sonhos e cansaços —

o amor que se moldava em fingimento...

 

Os salgueiros estendem a sua alma

sobre o corpo de Ofélia a boiar morta

entre os ramos em pranto e a dor escrava...

 

São cantos que não têm uma só palma

num momento em que nada já conforta...

Sim: o amor lhes faltou com a palavra.

LA 12/003

 

 

 

 

Papo Caboclo

 

O amor, que é bom

como um danado,

pode ser mau

como o Cão.

         — Por que será, compadre?

— Sei não. Só Deus,

mas não contou.

 

O amor tem lá

seus de través,

seus de viés —

e tudo misturado

e bem ao lado

dos cobiçados cafunés.

 

Entre seu pé

e o diabo do chulé —

é bom ver e estudar

se dá para agüentar.

 

Se divinuras e diabruras

se compensarem,

então, sei lá...

Se não valem a pena e o vôo —

então não dá.

 

O amor é como quiabo —

liso como ele só!

Por isso fácil-fácil

de mudar-se em jiló

e ser comido pelo diabo...

Não que isso seja mau.

Não, senhor: isso, por vezes,

é a sua melhor parte

e sua arte:

seu lado ratio-cordial.

LA 12/003

 

 

 

 

Justo Agora

 

Por que te foste, pobre amigo,

por que te foste por aí,

se sabias desde sempre

que é melhor ser carrapato

que touro pendurado?

 

Agora que tinhas encontrado

aquela estabilidade...

o cardápio sonhado,

a cama exata —

por que diabos te foste

( justo agora! )

por aí,

se sabias de antemão

que é bem melhor

ser pulga de cão fedido

que luluzinho morto?

 

Por que te foste, pobre amigo,

por que te foste por aí,

justo agora

que se mudaram

para a sacada da frente

umas diabas de umas pernas —

as mais divinas

que já teríamos visto?...

 

Descansa em paz, meu caro.

Ser carrapato ou pulga

não deve ser nada fácil

pra quem fazia de tudo

para ser gente.

LA 12/003

 

 

 

 

Jagunço-Criança

 

Manoel de Barros

vê a vida de ressaca —

vai lendo a realidade

( realidade ora com jeito de planta,

ora jeito de minhoca

querendo sair do anzol... ),

realidade desajeitada

como quem se inclina no banco

para catar uma agulha

em chão de terra...

Chega a pegar o carretel de linha,

mas não cose,

não porque não quer: porque não cose.

E fingindo não usar moldes

nem tesoura —

vai cortando as partes de uma roupa...

e as justapõe, as monta sobre um plano...

São roupas de estilo,

e até seriam de grife...

Algumas muito bem cortadas,

ousadamente bem cortadas.

O problema é na hora de vesti-las

para o corpo interpretá-las —

aí se vê bem claro:

não têm costura, são apenas

partes não sabemos de que peça

que se vão despencando,

ou melhor: desexistindo...

...........................................................................

O que mais gosto de sua poesia

é esse constante estar de saco cheio

( saco cheio cósmico-universal )

de tudo.

E é aí, nesse quase arrebentar-se,

que ele faz seus melhores versos —

ou seja: a gente se identifica.

 

Seu modo de “desfazer”

é único,

a despeito de seu parentesco com G-Rosa.

É poesia com marca d’água

e cheiro de cerrado

rebrotando após o fogo.

Seu fazer, quase sempre,

é malucamente bonito:

lembra jacaré refestelado —

sorrindo para as garças palitar...

Sim, seu dizer

tem um jeito de jagunço-criança

que mostra a língua e a faca...

LA 12/03

 

 

 

 

Ululâncias

 

No amor

a exclusividade é cara,

quando não custa a vida.

........................................................

Macho e fêmea,

na sua idade febril,

caçam e são caçados

sobre os veludos negros

e vermelhos do adultério.

Idade lupina:

xotas e pingolins se abrasam.

Os lobos

são geralmente bobos:

adoram que os saibam assim...

Já as lobas são mestras:

adoram vaginar

em sigilosa segurança...

Saudades? Só as de amanhã.

Ama-se o vário e o diferente,

principalmente o vicário,

isto é: o vigário.

 

Muitos machinhos “lavaram sua honra”...

Há num país fronteiriço

daqui

todo um belo cemitério

desses honrados senhores mortos,

sim, mortos em duelo —

produto da cultura e inculcação...

Claro: hoje ainda os há naquelas classes

reféns desses sentimentos-relíquias

que avoengos, gurus e moralistas

lhes legaram e legam.

...........................................................................

 

Por que será

que há tanta afrodisia,

tanta delícia no adultério?

Aí entram os óbvios ululantes

da repressão:

o proibido,

o engano,

o diferente...

Mais a vontade de punir pelas costas

a quem se finge amar.

Sim: uma espécie de troco ao fingimento.

LA 12/003

 

 

 

 

Sim, Muitos Querem...

 

Sim, muitos querem nos matar no ninho...

São irmãos das formigas cortadeiras —

vivem para pelar nossas roseiras

e a deixar hastes nuas com espinho.

 

Há os que nos servem fel em vez de vinho...

e os que nos bebem dons, forças inteiras

em conversas ociosas: converseiras

que raiam pelo vil, pelo mesquinho.

 

E os que nos querem outros, diferentes...

Por que nos querem sempre coniventes —

sempre outros, mas que devem agradar?...

 

E o vaga-lume em chispa-vôo sublime...

Por que querem matá-lo, por que crime?

— Pelo dom de ter asas e brilhar.

      LA 12/003

 

 

 

 

 

Glorinha Das Araras

 

Glorinha às vezes chorava:

Se o que éramos

a vida nos levou,

se o que somos

ela está a levar —

então que leve

até o que não deu!

Assim, já não se tendo

o que a vida finge, —

quem sabe a gente

não pára de doer?

 

Glorinha também dizia

que o melhor da vida

é o que ela não tem —

se tivesse

só dava com muita manha

e mão fechada.

 

( De sábado, depois das nove,

dr. Otaner

parafraseava gemidos

do corpo de Glorinha,

às vezes até ganidos

e grasnos...

Deixava algumas moedas

no canto da mesa

e deslizava rua abaixo

por dentro da própria sombra....

Ai, Deus livre! alguém o visse

num lugar desses...)

 

Glórinha das Araras,

assim era chamada.

Na memória da Moleca

( era outro chamamento )

piava de noite e longe

o socó —

que nem suspiros de mulher

( mulher daquelas bandas )

suando de xodó...

 

Glorinha achava que a vida

é tão mais bela quanto mais sem-graça...

e que o melhor das coisas

é gozá-las de memória...

 

Melhor que luas e méis

nem mesmo o padre sabe,

e a irreverência dos olhos

tem bom tino e bom gosto.

 

Tolo é pensar

que as coisas são nossas —

principalmente aquelas

que juram ser.

Se bem

grande tolice mesmo

é não querê-las

entre a língua e o céu da boca...

 

Sim, a vida passa num zape,

e não dá nada por escrito...

Ah! Não viver seus enganos

é o que há de mais enganoso —

já que desaparecer

é voltar para a poesia

que não tem dono e vive à beira...

Mais ou menos assim

é que a vida fez sentir

e viver a Glórinha —

sorriso sem pai nem mãe

e gostado por ninguém,

a não ser praquelas coisas.

LA 12/003