Escrevivendo

 

              Laerte Antonio

 

              

 

Não seja a tua franqueza

uma arma dada a alguém

que possa te alvejar.

LA 05/007

 

 

Escrever é tão bom

quanto não escrever nada.

O diabo é o espaço em branco

sempre puxando conversa.

LA 05/007

 

 

Sabiá está cantando...

bonito de ouvir-sonhar.

Ah! Se eu fosse um sabiá

te fazia chover notas

macias e aperoladas.

Se bem que, não tendo penas,

te invento a minha poesia.

LA 05/007

 

 

Pensar em minha nega

é melhor que estar com ela...

Se bem que nem sempre isso é verdade.

LA 05/007

 

 

A vida é boa de pernas —

vive a nos dar rasteiras.

LA 05/007

 

 

Penso,

lá vem Descartes.

LA 05/007

 

 

Pensar não distingue,

o que distingue é repensar.

LA 05/007

 

 

Os homens são produtos,

ativa ou passivamente,

do seu sentir-pensar.

LA 05/007

 

 

Há os que sonham e os que são sonhados.

LA 05/007

 

 

No mundo ou se é bola, ou se é taco.

LA 06/007

 

 

A ciência, a moral, a ética,

o sentimento de humanidade,

de justiça e verdade,

de identidade universal

e solidariedade,

além do zelo ambiental —

isto são requisitos mínimos

para o ser humano

continuar sobre a Terra

cumprindo com a tarefa

que tem consigo mesmo,

com os seus semelhantes

e o todo

em diuturno ser-não-ser.

LA 05/007

 

 

A cada dia o seu mal,

a cada noite o seu bem.

LA 05/007

 

 

Prudente é perder com classe

e ganhar com desdém.

LA 05/007

 

 

Os grandes amigos

se visitam quase nunca.

Mas vivem de prontidão.

LA 05/007

 

 

O amor é como o sal, é como o açúcar —

a dose certa é sua longa vida.

LA 05/007

 

 

As mulheres não são para entender,

mas para compreender e amar.

Daqui a pouco elas estarão governando

em massa —

e mostrarão à História

que são da mesma laia:

seres humanos —

mais ou menos perigosos

quanto mais ou menos ressentidos.

LA 05/007

 

 

Melhor que fazer nada

não sei se existe,

já que não fazer nada,

pra muita e muita gente,

é a mais charmosa ocupação.

LA 05/007

 

 

Somos tão diferentes uns dos outros,

que nessas diferenças

podemos até encontrar

aquela tal que a gente

nunca soube que existia...

e então ficar

bobo de encanto.

LA 05/007

 

 

Manca, sim. O amor manca.

Mas a gente nem vê.

LA 05/007

 

 

Marilda era daquele tipo —

maravilhava os homens

e enraivecia as mulheres.

LA 05/007

 

 

Marilda sabia dar um sorriso

em conivência com um tal olhar,

que a gente até se sentia

fazendo amor com ela.

LA 05/007

 

 

O amor é como as joias —

quanto mais falso

mais brilha.

LA 05/007 

 

 

Há amores... e amores.

Como há orquídeas e flores.

LA 05/007

 

 

Como a erva que pouco dura,

o falso amor fenece.

Aliás, já nasce feno.

Já o amor de verdade

não morre nunca —

o tempo, ao contrário do que faz

com as coisas perecíveis,

nutre-o:

quanto mais os anos passam,

mais perenemente verdadeiro

é esse amor.

Esse amor não conhece a morte —
faz parte do nosso eu-consciência.

LA 05/007

 

 

Podermos mudar

é prova de que a bondade existe.

LA 05/007

 

 

Não conseguir o que sonhamos

é, sim, um problema.

Agora, quando a gente consegue,

o problema é diferente.

LA 05/007

 

 

Nossas coceiras e unhas

quase sempre se entendem.

LA 05/007

 

 

Ah! Quantas vezes, princesa,

tive vontade

do seu pão com manteiga,

seus purês e cuscuz.

Mas você nunca,

nunca abaixou a ponte.

LA 05/007

 

 

Satisfação humana é como o horizonte —

recua ao passo que se avança.

LA 05/007

 

 

Ah, cuida, nega, cuida bem das uvas,

e a gente faz vinho dos bons.

LA 05/007

 

 

Sim, eu também não tenho medo

de ter medo.

LA 05/007

 

 

Quanto mais distante, mais perto de você,

já que a distância faz pensar.

LA 05/007

 

 

Você mora nesta saudade

em que eu faço cafuné.

Sim, ficou uma saudade

gostosa de acarinhar.

LA 05/007

 

 

A fé

é o DNA de Deus em nós.

LA 05/007

 

 

LA 05/007

O amor são as nossas sinapses

a urdir de luz os sonhos.

 

 

A esperança é a fruição

do que ainda não se tem na mão.

LA 05/007

 

 

O belo da beleza

é saber que ela existe

porque a sentimos

e a vemos bela.

LA 05/007

 

 

Já fugiu de fantasmas?

Nem eu. Como fugir

do que está dentro de nós?!

LA 05/007

 

 

Sim, saiba tropeçar

e cair

quando estiver fugindo

de belas tentações.

LA 05/007

 

 

Lembra da sua meninice?

Também me lembro da minha.

A gente se lambuzava

de vontade de chupar manga...

e nunca que era tempo delas!

Está lembrada?

LA 05/007

 

 

A vida não lhe pede nada,

apenas que você entenda o impossível.

LA 05/007

 

 

O amor não lhe exige nada,

nada que não seja tudo.

LA 05/007

         

 

Existir é engraçado,

porque não há outra maneira.

Quem faz o existir divertido

achou sua melhor porção.

LA 05/007

 

 

A solitude

é a musa da oficina

que trazemos em nós.

A solidão

é um andar perdido

lá em si mesmo.

LA 05/007

 

 

Quando moço dava graças a Deus

por minha vida ser difícil.

Hoje, acho engraçado

ter pensado daquele jeito —

tanto que Deus me perdoou

e agora a minha vida é fácil,

gostosamente fácil.

Mas entendo: quando a luta é braba,

precisamos inalar ares de super-homem,

senão não conseguimos

nosso pedaço do mamute.

LA 05/007

 

 

O rico? Não raro é odiado.

O pobre, desprezado.

O médio, invejoso

em relação ao primeiro,

e arrogante com o segundo.

LA 05/007

 

 

Não jogue fora seus neurônios —

esqueça os que não gostam de você.

LA 05/007

 

 

Não comamos o fruto

da árvore da ciência

(daquela que está além do humano) —

este fruto é de ódio.

LA 05/007

 

 

Entre uma coisa e outra,

fiquemos com a que dá prazer

e só nos cobra o riso.

LA 05/007

 

 

Hoje nos visita

Sua Santidade

o Papa Bento XVI.

Muito carinho do povo,

que o recebe com amor

e muita fome de espírito.

Emociona

ver tanta fome,

não de justiça humana, —

fome de salvação.

Lembra a Bíblia:

“... Abraão creu em Deus

e isto lhe foi imputado

para justiça.”

Sim, emociona ver

como ainda é espinhoso

o sentimento do mundo

nos corações

ao lusco-fusco da verdade.

Como as pessoas necessitam

de que alguém lhes faça marulhar

as águas da fé,

do amor

e da esperança.

LA 05/007

 

 

Tudo tem um sentido relativo

e um sentido maior —

este cabe a cada um descobrir.

LA 05/007

 

 

Dia da Consciência Humana —

31 de dezembro.

( Deve ser esse o dia,

já que está tão refugada.)

LA 05/007

 

 

A arte é uma maneira de musicar

a beleza e a verdade.

LA 05/007

 

 

Um dia o dia da Consciência Humana

haverá de ser todo dia.

LA 05/007

 

 

As raças haverão de se calar —

deixarem-se tragar pelos tempos

e renascerem Humanidade.

Sim: o homem velho deve morrer

para nascer o novo.

LA 05/007

 

 

Tiremos nosso espírito da masmorra

pelo simples lembrar

que estamos numa marcha evolutiva

que deve se tornar (em tudo

e a todo o tempo) consciente.

LA 05/007

 

 

Nem herói nem bandido,

apenas gente com gente,

mas nem por isso displicente.

LA 05/007

 

 

Se você sabe que pode —

começou bem sua obra.

LA 05/007

 

 

Se você conhece um pouco de tudo

e quase nada de você —

seu conhecimento é subtrativo.

LA 05/007

 

 

Por fora,

vivemos todos

em liberdade

condicional.

Por dentro,

a liberdade

é do tamanho

do nosso ser-consciência.

LA 05/007

 

 

Sem o caos,

como teríamos renovação?

Sim, por dentro e por fora,

em nós e no universo

o caos é pai do recriar.

LA 05/007

 

 

Os deuses são da mesma natureza

dos homens,

que os pariram

de seus pânicos e temores,

suas angústias e necessidades.

Sim, em seus pavores e medos,

os homens

precisavam de protetores

terríveis e poderosos

a quem recorrer

para enfrentar seus monstros e rivais,

para matar, vingar, vencer as guerras

e serem protegidos e abençoados.

Sangue em sacrifício é o que pediam

tais entidades criadas pelos homens,

portanto, à imagem e semelhança do homem —

sem que se desconfiasse do processo-personas...

E assim os homens

trocaram sua condição de pais

para a de filhos humilhados e subservientes

de geração em geração

que, burilando o seu autoengano,

vão descobrindo o Espírito Criador —

que era antes de tudo, e é hoje e no futuro,

sem imagem, sem corpo ou entidade:

Espírito e Verdade, Alguém Pessoal,

Interpessoal, Universal,

Consciência Cósmica Onipresente:

Amor.

Deuspai, não visto, mas sentido e intuído,

dom-graça-inspiração,

alegria constante e força companheira,

presença em flor nas sensações dos que O aprenderam

a amar e a viver com Ele no seu coração:

sim, amá-Lo em espírito e verdade —

bondade e paciência sem fim,

deixando ao ser humano o seu mais pleno arbítrio

e as Suas leis a reger da gota d’água às galáxias,

da ameba ao homem.

Deuspai, o Sonho-Quem

que no homem soprou Suas virtudes —

passando-lhe a imagem-semelhança:

e o trabalhar unidos: Deus e o homem —

de Deus é o Sim,

do homem, a ousadia e a obra.

LA 05/007

 

 

A verdade é sempre do tamanho

que o homem pode suportar.

LA 05/007

 

 

O mesmo homem que mede a distância dos astros,

que faz cálculos da luz a atravessar os tempos,

que constrói aparelhos para computadorizar

seus estudos sobre o macro e o micro —

este mesmo homem não desenvolveu lá em si mesmo

aparelhagem alguma, nem sentidos nenhuns

para ver em si mesmo uma consciência a viajar-se

acasalada com o tempo que a enriquece e que a sublima,

nem muito menos desenvolveu olhos de ver

Deuspai em suas sensações e alegrias

ou sabe que a viagem que mais importa

é a interior: realizada lá no seu ser-consciência

enquanto Deus o é e o está ensinando

a conceber a luz e parir-se no sonho

que, acordando,

o traz de volta para Casa.

LA 05/007

 

 

Em vez de procurar entender a si mesmas

( em primeiro lugar ),

as pessoas querem entender

a vida, Deus, o universo,

os buracos de vermes do tempo...

LA 05/007

 

 

Sim, o caminho do meio

é sempre o mais seguro

e o do amor, o mais curto.

LA 05/007

 

 

O humor é como a humildade —

ajuda a abrir caminho.

LA 05/007

 

 

Com o tempo você sobe ou desce

com a mesma naturalidade,

até porque subir ou descer

só depende do ponto em que você está.

O mesmo vale para cair e levantar.

Sim, com o tempo, cair e  levantar

já não faz rir nem chorar —

lhe serão coisas da vida.

Se você sobe, ganha o prêmio:

palmas, elogios (até dos inimigos).

Se dá com os burros n’água, recebe as vaias

e o desprezo, mas sereno e já sabendo

que o maior dom da vida

é justamente as suas situações

durarem sempre pouco.

LA 05/007

 

 

A uma certa altura,

viver é bem divertido.

LA 05/007

 

 

Há brisas de alegria

num coração que sabe ser criança.

LA 05/007

 

 

O macaco? Se eu fosse evolucionista,

acharia uma honra

descender de bicho tão simpático.

Se fosse criacionista,

eu o acharia muito parecido

com muitos de nossos atos.

LA 05/007

 

 

Se não crês no amor,

azar teu,

que podias fingir que ele existe

e saboreá-lo gostosamente,

como o faz

a maioria das pessoas.

LA 05/007

 

 

O mundo só pode nos engolir

quando a gente o engole antes.

LA 05/007

 

 

Veja o que fazem os homens:

Na palavra honorários

está o termo honra: honor

para dar a impressão

de que aquilo que recebem

é de um fazer mais digno.

Bem sintomático, não?

Claro:

a interdependência vital,

que une os homens e as coisas,

não pode ser sentida

por quem ainda não tem

aparelhagem de senti-la.

LA 05/007

 

 

Sem consciência de humanidade,

viver é uma bobagem.

LA 05/007

 

 

Também os filhos de clãs e feudos

não se aposentam —

emeretizam-se:

emérito cabedal

que continua a vender as luzes

( e a força e o brilho )

de suas neuronoias.

LA 05/007

 

 

Quem tem valor

deve mostrá-lo em obras —

e não em conivências.

LA 05/007

 

 

Sim, há os que não fazem

e não deixam fazer,

não entram

nem deixam entrar.

LA 05/007

 

 

Para os que se refugiam nos fins dos tempos,

viver já é estar enterrado.

LA 05/007

 

 

Confesso que já me acostumei com a vida,

por isso aprendi a não ter pressa.

Ou como diria um bom romano:

“Festina lente”(apressa-te devagar).

LA 05/007

 

 

Pra duas coisas

não se deve ter pressa —

para morrer

e para pinxotar.

LA 05/007

 

 

Entre você e o mundo,

seja como o navio —

que vive e singra nas águas,

mas sem deixá-las entrar.

LA 05/007

 

 

Muita efusão

torna a amizade tóxica.

LA 05/007

 

 

No que se refere à vida,

chegamos sempre depois

e saímos sempre antes.

LA 05/007

 

 

Se a vida é dura,

a morte é o quê?

LA 05/007

 

 

Se não crês em Deus,

azar teu,

que não tens com quem falar

nas tuas longas noites brancas.

LA 05/007

 

 

O rato roeu a roupa do rei,

o tempo roeu o rei.

Tempo-rato, rato-tempo...

a nossa vida é vento —

mas um vento gostoso

de que, sensatos, extrairemos

muito aprendizado e gozo.

LA 05/007

 

 

Mariana lembrava

aquele doce de leite

en-ca-ro-ça-di-nho...

de se saborear

com colherinha niquelada.

LA 05/007

 

 

Ninguém precisa, Hafiz,

entender de bissetriz

nem chamar-se Beatriz

pra ser feliz.

LA 05/007

 

 

Para quem arde em fome

um pirulito é um banquete.

LA 05/007

 

 

As pessoas não se importam conosco,

nós é que fazemos um juízo errado.

LA 05/007

 

 

Quanto menos visitas os amigos

tanto mais a amizade se prolonga.

LA 05/007

 

 

A indiscrição torna quase impossível

viver com as pessoas.

LA 05/007

 

 

É bom não confiar em amigos,

não porque sejam maus,

mas pela própria natureza humana.

LA 05/007

 

 

Sem a música

teríamos bem menos companhia.

LA 05/007

 

 

A nossa natureza

é bem semelhante à dos nossos amigos —

portanto,

não exijamos muito de ninguém.

LA 05/007

 

 

Nosso tempo nos ordena:

Porás grades sobre muros altos

e sobre elas

pontas multifarpadas

e sobre estas

arames eletrificados.

Blindarás carros, portas e janelas.

Farás um esconderijo eletrônico subterrâneo:

ciber-esconderijo

dentro da tua casa.

Implantarás no corpo chips dígito-verbais

de interpassagem

do macro ao micro

e vice-versa: qual neutrino.

Só não colocarás câmeras e alarmes

naqueles lugares íntimos

de sair e de entrar.

Terás tantos seguranças quantos forem

teus cães carrascos,

teus tigres matadores,

teus lobos carniceiros.

Usarás colete blindado

sobre colante-corpo-inteiro,

também blindado.

Trabalharás, transitarás

e te comunicarás

tão-somente via Web.

E por último, meu filho:

nada de pânico —

já vai surgir aí a pílula

de invisibilidade idiossincrásica:

cada qual se fará invisível

segundo a sua natureza.

LA 05/007

 

 

Vá toureando seus bichos.

Alguma chifrada é normal.

LA 05/007

 

 

Organiza, decide a tua vida.

O que fizeres

seja bom para ti

e ruim para ninguém.

Um coração decidido,

um espírito reto.

O mais... o mais é viver

do modo que quiseres —

estando bom pra ti

está bom para Deus.

LA 05/007

 

 

A vida é um filme

que você faz para você

e a que assistirá sozinho —

lá em você-consciência.

LA 05/007

 

 

Você só pode sacar

o que investiu.

LA 05/007

 

 

Nosso primeiro erro na vida

é nos preocuparmos

demasiadamente em errar.

LA 05/007

 

 

Um de nossos problemas

é sempre querermos ensinar.

LA 05/007

 

 

Aconselhamos paciência,

mas temos pressa.

LA 05/007

 

 

Os que nos mandam aprender a viver

será que eles já aprenderam?

LA 05/007

 

 

Se você precisa de rotinas

para achar sentido nas coisas —

então já sabe o que é bom para você.

LA 05/007

 

 

Se precisa do novo em aventuras

para aplacar-lhe o desassossego —

então já sabe o que é bom para você.

LA 05/007

 

 

Se precisa tão-só do suficiente

para viver-crescer-organizar-se —

então já sabe o que é bom para você.

LA 05/007

 

 

A vida é bem maluca.

Talvez, por isso, o hospício

sempre fez parte dela.

LA 05/007

 

 

Sendo cego, o amor

nem atina com seus rivais

andando pela casa —

desde que usem tênis macio.

LA 05/007

 

 

Se um dia o amor se cansar,

ponha-o num spa, que logo, logo

volta-lhe a força e o tesão —

aí vocês se divorciam.

LA 05/007

 

 

Triste não é mudar o amor,

mas não se ter amor para mudar.

LA 05/007

 

 

O amor? Esse cara anda estressado —

nunca tirou férias.

LA 05/007

 

 

Há a guerra dos sexos

porque os dois lados se amam muito:

um não vive sem o outro —

e tudo gira saborosamente

em torno dessas charmosas loucuras.

LA 05/007

 

 

Machismo e feminismo

nasceram siameses.

Ninguém arrisca separá-los

porque qualquer desses dois bobos

faria muita falta.

LA 05/007

 

 

Incendiados de libido,

o amor é um desarranjo em nós.

Saborosas doidices.

Enganos de chocolate.

Logros com gosto de pistache.

Mentiras perfumadas,

celulares entrecortando

conversas aveludadas.

Temos que madurar pra ver

que essas loucuras foram o que houve

de mais delicioso em nossas vidas.

LA 005/007

 

 

O amor é bem capaz

de passar pelo fundo de uma agulha

e desprezar as delícias do céu.

LA 05/007

 

 

A distância entre a amizade e o amor

é uma bela história

que foi preciso se inventar.

LA 05/007

 

 

Enquanto o amor reza,

ofegante,

os cães ladram.

LA 05/007

 

 

O amor pode fazer sapatos

andarem nas mãos do dono.

LA 05/007

 

 

O amor é uma cabana

construída dentro de um castelo.

LA 05/007

 

 

Amor prudente

não traz o guardachuva.

LA 05/007

 

 

O tal primeiro amor

é só o primeiro quadro que pintamos —

sim: de modo algum o mais belo.

LA 05/007

 

 

O amor é aquela casa

que se constrói no coração

e em que se teima em ser feliz.

LA 05/007

 

 

Enquanto o amor faz estalar o estrado

os gatos miam arranhando a noite.

LA 05/007

 

 

Se não podemos mudar as coisas,

pelo menos fruamos gostosamente

os seus intervalos.

LA 05/007

 

 

Os homens não odeiam

os pequenos e fracos.

LA 05/007

 

 

Quem lhe confia segredos,

angústias, sonhos, traições

não é por certo seu amigo —

mas alguém que o confunde

com um padre ou psicólogo.

LA 05/007

 

 

O amor é especialista

em nos mostrar as coisas

como elas não são.

LA 05/007

 

 

Sim, o amor vê gente

em roupas no varal...

e vê fantasmas nus,

de carne e osso.

LA 05/007

 

 

O amor faz diamantes virar vidros

e faz de vidros belos diamantes.

LA 05/007

 

 

Se a vida é uma vela,

que ela queime

sem pingar em nossas mãos.

LA 05/007

 

 

Se não te acho com meus olhos,

te procuro com a memória.

Lembrar-te é bom

como dizer à infância em nós

que sua mãe já está chegando...

foi comprar doces, comida, coisas bonitas...

e eis que já está voltando...

Sim, lembrar-te é bom

como sentir o sol pela manhã...

Bonito como o céu de maio

todo florido em azul...

Lindo como colher flores silvestres

com duas pernas a correr na frente...

Excitante como a brisa no inverno...

Fascinante como os namorados

que fazem suas saudades

transarem por e-mails.

E belo, eternamente belo

como a beleza de te amar.

LA 05/007

 

 

Saber fazer durar nossos empenhos —

isto é que mostra de quem eles procedem.

LA 05/007

 

 

Devemos lutar nas adversidades

e nas diversidades.

Naquelas,

para sobreviver.

Nestas,

pra não morrer.

LA 05/007

 

 

Herdamos o medo de nossos pais

e dos que nos queriam castrar a infância.

LA 05/007

 

 

Sosseguemos!

 

Os negros fiquem sossegados —

todos os brancos

vão virar negros.

 

Os brancos que sosseguem —

todos os negros

vão virar brancos.

 

Tal só não se dará

com nossas mães —

para que cuidem de nós

com amor,

com muito amor,

e nos ensinem coisas

que vivam aqui e além

do arco-íris.

LA 05/007

 

 

A vida não é brinquedo,

não é uma bobagem —

a vida é muito mais que cor da pele,

tamanho, formas, chiliques.

Cada um nela tem

o que lhe é bom ter.

Cada qual nela está

em busca do que lhe falta.

A vida é muito mais

do que o nosso mesquinho não-saber.

LA 50/007

 

 

A pessoa ressentida

é sempre alguém pequeno.

LA 05/007

 

 

Perdoar é superar-se.

LA 05/007

 

 

Não perdoar é estar amarrado.

LA 05/007

 

 

E veio o medo

( bilhões no mundo o cultivam ),

um medo quase escudo,

um medo quase dom,

diria até — delicioso:

um medo que alivia

os sonhos e os cansaços —

medo misericordioso

de apocalipse,

de fim de mundo:

sim, medo,

medo catarse,

mesclado nas delícias

de fim extremo

( é assim que o cultiva o mundo ).

LA 05/007

 

 

Os muito pobres vão pegando

um mal-estar do ser humano.

LA 05/007

 

 

Se buscamos um sentido,

ele precisa ter sentido.

LA 05/007

 

 

Não se esqueça:

Ria sempre,

e bastante —

não só dos outros.

LA 05/007

 

 

Sempre emprestava a Deus

em suas caridades.

LA 05/007

 

 

Amar demais o trabalho,

refugiar-se nele

é estar nos braços

de alguma coisa terminada em “ia”.

LA 05/007

 

 

Quem não sabe ser feliz com o suficiente,

por certo a vida não lhe será agradável.

LA 05/007

 

 

Estava André a afogar o bípede,

quando eis que mão intempestiva,

estranha quanto infeliz,

lá da rua,

lhe torpedeia a porta!

Olhou pro belo lago,

e este lhe diz,

já bem a marulhar:

Acaba de matá-lo! Acaba,

acaba... Com esse bicho

não tem oito,

sim, não tem oito —

só oitenta.

Obedeceu sem hesitar:

e foi estrangulando-o,

devagar, devagarinho —

até tê-lo estiradamente

morto-minguante,

minguante.

LA 05/007

 

 

Um dia pensarão que estou caído

na estrada, na rua, no parque... Mas não —

era só minha capa.

LA 05/007

 

 

Onde há muita pompa e luxo,

ao lado ou dentro

existe muita miséria e doença.

LA 05/007

 

 

Vamos vendo nos outros

exatamente aquilo,

aquilo que queremos ver.

LA 05/007

 

 

Um dia pensarão que morri,

mas não —

só troquei de morada.

LA 05/007

 

 

— Se todas fossem, minha nega, iguais

a você,

ah, minha nossa, que tédio!

— Acha mesmo, amorzão?

— Sim, como é que eu poderia

fazer amor só com você,

mas cada vez mais variado —

toda vez mais diferente

e original —

a ponto de algumas vezes

trocar-lhe o nome?

A diferença é linda:

faz de uma coisa

punhados,

variedades dela.

E isso não custa nada, nega, —

só se usa a imaginação,

que não custa nem dói.

Ah, se pudéssemos todos

e todas,

minha nega,

se pudéssemos todos

ser um —
como a consciência de cardume!

Aí nem se precisava

extraviar-se em pensamentos.

Até os moralmistas

iam gostar.

LA 05/007

 

 

Ah, aquela Marilda!

Marilda colecionava.

Sabia, conhecia,

e como conhecia!

Conhecia e se fartava.

Saudade

do seu sorriso hormonal,

do seu olhar guloso.

É bem provável

que já tenha mudado

de sua fase de móbile

para aquela tal imóvel.

LA 05/007

 

 

Sim, o tempo a enterrou, mas bem depois

de ela ter enterrado

devagar e de-li-ci-o-sa-men-te,

com líricas fungadas,

os homens “interessantes”

de seu romântico rincão.

LA 05/007

 

 

O que a boca diz sinceramente

os olhos sabem que é mentira.

LA 05/007

 

 

Em geral “exigimos” que nos digam

exatamente só aquilo

que queremos ouvir.

LA 05/007

 

 

Ferido o orgulho,

a vaidade se rebela.

LA 05/007

 

 

Os amantes que se visitam

fingem ser bem mais felizes.

LA 05/007

 

 

O fato de nunca termos feito,

minha amiga,

é que gerou essa delícia

eterna

lá num raro teria-sido.

LA 05/007

 

 

Sim, o tempo guardou as delícias

da musse que não fizemos —

de sorte que fazê-la hoje

seria até pecado.

LA 05/007

 

 

O vento passa louquinho

com as suas orelhas

de abanar fogo.

É já que vai chover,

comadre.

Sim, vai chover, minha comadre,

vai chover. Entra pra dentro,

vamos tomar um cafezinho

enquanto Alzira, a minha nega,

não vem.

LA 50/007

 

 

 Ah! Era bom quando ela vinha.

A gente parecia ponte pênsil.

LA 05/007

 

 

A embaixatriz matou-se

com um bilhete alfinetado à blusa:

Cansei de ser expletivo

da vaidade humana.

LA 05/007

 

 

Sorri aos que te odeiam,

finge-te forte aos inimigos

e ( de porta fechada )

chora perante Deus.

LA 05/007

 

 

A mais bela maturidade

de uma pessoa

é aquela verdinha

de sua infância.

LA 05/007

 

 

Em grupo,

a loucura é mais visível.

LA 05/007

 

 

— Que diabo, Rosa!...

— Que foi, padre?

— Ainda tenho meio copo de vinho,

mas seu marido já vem vindo...

Se ele me vir saindo,

diga-lhe que sou um empresário

bem sucedido —

fabrico berrantes.

LA 05/007

 

 

Lembra, nega, quando passávamos

um longo tempo sem nos vermos?!

A gente parecia um chafariz.

LA 05/008

 

 

Amantes rimam

com diamantes,

mas tudo pode acabar

em bijuterias.

LA 05/007

 

 

Tuas mãos deixam bonito

o esmalte de suas unhas.

LA 05/007

 

 

Mandei-lhe pensamentos passeriformes

cantar, hoje, à sua janela.

Você pode não tê-los visto,

mas eles estiveram aí.

Você pode não tê-los ouvido,

mas eles cantaram para você.

Feliz aniversário!

LA 05/007

 

 

O cara se sente tão mal

que marca data pro fim do mundo.

LA 06/007

 

 

Quando eu for pro beleléu,

te espero, nega, no céu —

a menos que não vás pra lá.

LA 06/007

 

 

Eram mãos que abrilhantavam

quaisquer anéis,

e pernas que adornavam

quaisquer saias.

LA 06/007

 

 

Quem vê cara

vê coração e tripa.

LA 06/007

 

 

Marido bom é o que volta pra casa.

Esposa boa é a que não entende,

mas compreende.

Tenho orado a Santo Antônio

por uma mulher assim.

Sim, para estas,

tem-se que entrar na fila —

não existem à pronta entrega.

LA 06/007

 

 

Quando ele trocava de carro,

corria ver o amigo —

sim, só para falar um “oi!”

LA 06/007

 

 

Ela atravessava a rua,

bela como saber-se assim.

Nossos olhares se roçaram...

mas foi o suficiente —

beijafloramo-nos no ar

LA 06/007

 

 

Você deixou esta saia

a mais bonita que já vi.

LA 06/007

 

 

Frederico, o Fredinho,

visitava o amigão do peito

e sua linda esposa

ao menos três vezes por semana.

Uma amizade assim,

diziam os vizinhos,

é coisa rara.

LA 06/007

 

 

Um cônjuge que foge não abandona —

deixa o outro livre dele.

LA 06/007

 

 

Sem alegria, viver é pecado.

LA 06/007

 

 

A alegria somos nós

de bem com a vida

e libertos das nossas miudezas.

LA 06/007

 

 

Em geral, querem nos mudar...

Mas não sabem que, se o conseguissem,

serviríamos ainda menos

para o que querem de nós.

LA 06/007

 

 

Nossos limites são para serem ultrapassados

e não para construirmos um pódio sobre eles.

LA 06/007

 

 

Um minuto para somar a consciência

à Consciência Humana —

todos os dias

das onze e cinquenta e nove

ao meio-dia.

LA 06/007

 

 

A adversidade nos dá força

para construirmos degraus e patamares

por fora e por dentro de nós.

LA 06/007

 

 

Procuro ser melhor do que a mim mesmo

sem desfazer do que fui e do que sou.

LA 06/007

 

 

Triste, terrível:

hoje a violência se tornou gozo

entre todas as classes sociais.

A violência tem uma forte libido.

LA 07/007

 

 

A impiedade vai matando a alma.

LA 06/007

 

 

Afins geram afins —

aqui e além.

LA 06/007

 

 

O homem é o que ele tem no coração.

LA 06/007

 

 

Quem adotou a mentira

dificilmente criará a verdade.

LA 06/007

 

 

Há uma mão no final do seu braço

com que você deverá contar.

LA 06/007

 

 

Se você sabe do que é capaz,

o mundo pode falar o que quiser.

LA 07/007

 

 

Se a chinela não lhe serve,

lembre que por aí

anda muito pé descalço.

LA 07/007

 

 

O amor é como o fogo —

haja lenha!

LA 07/007

 

 

Frase ecologicamente incorreta:

Haja lenha!

LA 07/007

 

 

Se as belas pernas

não são a alma do circo,

ao menos são seu corpo.

LA 07/007

 

 

Palavras ensaboadas

com o tempo descoram de sentido.

E quem as pronuncia

fica vazio,

deliciosamente vazio.

LA 07/007

 

 

O mundo late, berra, ruge, mia

sob a batuta da economia

a executar a sinfonia

dos coniventes dominós.

LA 07/007

 

 

Não esqueçamos:

hoje é o dia

da Consciência Humana.

LA 07/007

 

 

Era um cara bem profundo.

Escrevia, pensava tão profundo,

cada vez mais profundo,

profundamente profundo,

profundo...

até que um dia —

não veio mais à tona.

LA 07/007

 

 

Meu amigo Sofósio ponderou:

Se Deus criasse Adão e três mulheres,

o nosso pai primeiro nem pecava —

enquanto as três se arrancavam as melenas,

painho Adão dormiria

gostosamente preguiçoso

que nem Macunaíma.

LA 07/007

 

 

Os grandes intelectuais

têm uma bunda de ferro.

LA 07/007

 

 

Devagar, pega leve,

cara.

Bravatas e bazófias

pra quê?!

Vem a vida, te dá um chapéu...

e passa a bola

para quem ela quer.

LA 08/007

 

 

Uma das delícias do amor

é ser ele cego

do olho que lhe convém.

LA 08/007

 

 

Há os “vim-fiz-sumi” —

vêm, fazem e somem

rápido-rapidinho,

mas deixam um belo rastro.

LA 08007

 

 

Nossa maior decepção,

aliás, ruína,

seria podermos ler

na mente das pessoas.

LA 08/007

 

 

— Que horas são?

— Agora é hora

da Consciência Humana.

LA 08/007

 

 

Claro que a realidade

é como a vemos.

Assim não fosse, nega,

que graça que teria

a estupidez geral?

LA 08/007

 

 

Muitos se preocupam em ter amigos.

Nunca vi ninguém preocupado

em ser amigo.

LA 08/007

 

 

Nossos sonhos e alvo,

sendo o que nos apraz,

nos dão alegria e força,

de sorte que assim nos livramos

do que o mundo nos quer impingir.

LA 80/007

 

 

Quem disse que seria boa

a oportunidade perdida?

LA 08/007

 

 

O lado mais belo do amor

é ele se reinventar a cada dia.

LA 08/007

 

 

Em alguns casos,

temos mais dó do cachorro

do que do cego.

LA 09/007

 

 

Sabendo que posso me matar,

sinto-me mais à vontade

para zelar por minha vida

e vivê-la com um sentimento

de ungida preciosidade.

LA 09/007

 

 

Fazer-se de desentendido

faz tropeçar a arrogância.

LA 09/007

 

 

Trabalho é bom, mas o descanso

é ainda pra lá de bom.

LA 09/007

 

 

Repouse, coce os mimos

e goze o dia que o Senhor lhe deu.

LA 09/007

 

 

Mal acabamos de escrever,

o texto voa de nós para sempre.

LA 09/007

 

 

Lembremos: cada momento

é momento de Consciência Humana.

LA 09/007

 

 

O amor comum é isolamento,
exigido dos dois lados.

LA 09/007

 

 

Claro, pode ser feia...

mas tem que ter no charme

aquele pizz-pulsão.

LA 10/007

 

 

Se você tranca o amor,

ele escapa quando quer.

Se você o deixa livre,

então já está livre.

LA 10/007

 

 

A beleza da vida nos é dada

em seus noventa e nove por cento

pelo nosso beato não saber.

LA 10/007

 

 

Chorar para as pessoas enfraquece,

mas chorar para Deus nos fortalece.

LA 10/007

 

 

Doces mentiras,

saboreadas com competência,

viram verdades.

LA 10/007

 

 

Muitas vezes trocamos

bom senso por loucura

e provamos para nós mesmos

que isso foi muito bom.

LA 10/007

 

 

Mente-se tanto

que se acaba acreditando

no que se mente.

LA 10/007

 

 

Mente-se tanto

que se morre pela mentira

aos sons de capciosos hinos.

LA 10/007

 

 

Uma jabuticabeira

ainda moça

com colares e colares

de esferas lustrosas e negras.

LA 10/007

 

 

Entre sonhá-la e querê-la

vai o amor pisando as uvas

do seu capitoso vinho.

LA 10/007

 

 

Todo ano, entre outras coisas,

é ano da Consciência Humana.

LA 10/007

 

 

Nem precisamos mais de vaca.

Várias empresas

de laticínio

estão fazendo leite

pra nóis.

Fórmula:

água (óxido de diidrogênio),

soda (hidróxido de sódio)

e água oxigenada (peróxido de hidrogênio).

Nem Deus sabe há quanto tempo

a gente vem comprando e consumindo

essa coisa branca laboratorizada

que pagamos caro, muito caro

e ingerimos como leite.

O senhor ministro,

branquinho como ricota,

disse que ficássemos sossegados —

temos um dos melhores leites

do mundo.

LA 20/10/007

 

 

Enxergamos e compreendemos

o que mais nos convém.

LA 10/007

 

 

Nosso amparo espiritual

é do tamanho

que acreditamos ter.

LA 11/007

 

 

Amor anda muito caro.

Mas dizem que o genérico

está tão bom

que o outro nem faz falta.

LA 11/007

 

 

Adoro mulheres brabas.

Gosto de vê-las

quebrando a cara

dos amigos e vizinhos.

LA 11/007

 

 

A cara do ministro

parecia uma fatia

bem grossa

de marmelada.

LA 11/007

 

 

Seu clitóris era lindo —

parecia uma careta

de cajuzinho do campo.

LA 11/007

 

 

Pescando traíra e bagre

Sofósio explica ao André:

Perereca, seu moço,

tem um coaxo engasgado.

Tanto canta na vala

quanto canta no pau.

LA 11/007

 

 

Minha amiga tinha mais anéis que dedos,

por isso carregava alguns

numa correntinha ao pescoço.

Seus psicólogos

( sim: tinha vários ),

como Galileu,

olhavam-na em elipses.

LA 11/007

 

 

Todo mês é mês

da Consciência Humana.

LA 11/007

 

 

Só sabendo o que em nós não é bom

é que podemos alcançar o melhor.

LA 11/007

 

 

Quando a teoria

já não para de pé,

muda-se um poucochinho

o ângulo da dialética —

e prossegue-se.

LA 11/007

 

 

Amor à primeira vista não quer dizer

que dure até a vigésima olhada.

LA 11/007

 

 

Coisa dura é ter que rir

para agradar —

já que o riso ensaboado

conserva as aparências.

LA 11/007

 

 

A fertilização in vitro é romântica,

já que o mundo tem gente

vazando pelo ladrão.

LA 11/007

 

 

O inútil e o fútil

são um mesmo e só tesão —

o fútil e o inútil,

só muda a posição.

LA 11/007

 

 

Era tão boa,

tão bela,

tão perfeitamente feminina,

que o padre nem a deixava ir à igreja —

ia lá.

LA 11/007

 

 

O primeiro amor é o primeiro quadro

de qualquer galeria.

LA 11/007

 

 

Tudo caminha bem,

mesmo quando

nos parece o contrário.

LA 11/007

 

 

Por bom que tenha sido,

o passado

é café requentado.

LA 11/007

 

 

Penteamos os cabelos,

pingamos colírio,

passamos filtro solar,

lustramos os sapatos...

O coração, coitado! nem ligamos

com o que sente ou pensa na vida.

LA 11/007

 

 

O amor é um gênio —

finge ser o que finge.

LA 11/007

 

 

O segredo

é irmos nos adaptando

e aprendendo sempre —

assim sobrevivemos

a quaisquer meios e tempos.

O que somos realmente

só nós e Deus sabemos.

LA 11/007

 

 

Em geral, pregam-nos mudanças

porque do jeito que somos

já não está servindo

ao que querem de nós.

LA 11/007

 

 

Quem gosta de mandar

deve saber obedecer.

LA 11/007

 

 

O homem não soluciona —

modifica.

LA 11/007

 

 

Todas as teorias

estão doentes de incertezas.

Portanto, muito cuidado —

deixe que o tempo

mastigue-as bem,

depois você engole.

LA 11/007

 

 

Uma teoria

é apenas uma picada

na borda de uma floresta infinda.

Para chegar-se ao ponto,

muitos enganos,

desenganos,

lutas e sagas —

muita aventura.

LA 11/007

 

 

 

Teorizar é ousar.

Sem essa base-força,

não há começo.

LA 11/007

 

 

O bom discípulo

fareja o aprendizado —

sábios e tolos,

situações favoráveis e contrárias,

tudo pode ensinar

a quem está conscientemente disposto

a aprender e organizar-se.

LA 11/007

 

 

Quando há obsessivo apego no amor,

ele começa a desamar.

LA 11/007

 

 

Falando-se nas entrelinhas,

geram-se as linhas

e a tinta

que vai pintando a boca das palavras.

LA 11/007

 

 

Morrer de pé

é igualmente morrer.

LA 11/07

 

 

Será que alguém já viveu sem medo?

LA 11/007

 

 

Se o homem abusar

da bondade de Deus,

por certo se prejudicará.

A paciência divina é infinita,

mas há leis que fazem cumprir

os desígnios da Vida.

LA 11/007

 

 

Quem sabe um dia

alcançamos viver o que somos.

LA 11/007

 

 

Somos ingênuos na infância

e desvão seguinte.

Somos tolos na adolescência.

Petulantes na mocidade.

Insensatos na meia-idade.

Passamos por prudentes

( melhor fora: tímidos )

na idade branca.

E nunca,

nunca dá tempo

de aprendermos a viver.

LA 11/007

 

 

Tanto nas convicções como nas mentiras

vejo a verdade correndo perigo.

LA 11/007

 

 

Os pobres sempre pagam

o pato ( que não comem )

e o vinho ( que não bebem ).

LA 11/007

 

 

Se tu me amas, fá-lo

bem devagar —

ninguém venha a escutar

um só estalo —
sussurrava-lhe Marilda

naquela frágil caminha

no quarto enorme

(com pessoas ressonando) —

tudo escuro como tiziu.

LA 12/007

 

 

O amor que nunca saboreou loucuras

não sabe degustar

as deliciosas doidices da razão.

LA 12/007

 

 

Viver é um tesão,

mesmo porque a vida

está sempre com aquela

sainha-abajur —

pedindo que se lhe troque a lâmpada.

LA 12/007

 

 

Reze contra as tentações do amor,

seus amavios e trapaças,

seus jogos e seduções.

Porém, não reze tanto,

senão tais males

jamais lhe vão acontecer.

LA 12/007

 

 

Coberto até o pescoço,

lá da cama saboreei:

Um sabiá acordava

a aurora

com infinito,

aperolado carinho.

LA 12/007

 

 

O homem só começa a crescer em humano

quando deixa abrir lá em si

a consciência

da Consciência Humana.

LA 12/007

 

 

Ah, imagina, nega! Apenas

quebramos o galho.

Mas se houver uma lima

pra amolar o machado —

derrubamos a árvore.

LA 12/007

 

 

O humor,

o riso,

a ironia,

o trocadilho,

a brincadeira,

o ridículo —

são para os saudáveis.

LA 12/007

 

 

Niemeyer

escreveu com concreto

sua mitopoesia.

Mostrou que o cimento

pode também viver

sua utopia —

sem precisar descrer

do deus das formas.

Niemeyer

recriou em cimento

a sua mitoinfância —

nume a mediunizar

o homem genial

que é.

Seus mitopoemas

são declamados

pelo tempo.

Honesto consigo mesmo,

os anos foram depurando

sua pessoa

até aquele ponto humano

em que o homem sente em si

a humanidade inteira

e se transcende sorrindo,

solvendo-se em calma e luz.

Deus abençoe, senhor Niemeyer,

seus cem aninhos de cimento armado.

LA 12/007

 

 

Quase sempre as pessoas,

quando vivem muitos, muitos anos,

despregam-se dentro de si mesmas

(como o caroço de algumas frutas)

e brotam para o outro lado das coisas —

transcendem-se:

já vivem além de si mesmas —

lótus que vem da noite à luz,

nascido com o pé no lodo

e a corola a transbordar

do sorriso de Deus.

LA 12/007

 

 

Três cheiros bem domésticos:

o café sendo coado,

a goiaba sendo apurada

e o pão assando.

LA 12/007

 

 

Pois é.

Tem dia que de noite é assim.

Feliz Natal,

cambada!

E um 2008

com muito amor no bolso.

LA 12/007

 

 

A Marilda?

Me disse que só se ajunta

com homem de P maiúsculo

e bolso RECHONCHUDO.

LA 12/007

 

 

Um partido

só se lembra do seu credo

quatro minutos após ser eleito

o dono do trono

pelo qual fez o diabo.

Exagero? Pode ser que sim.

Quem quiser

acrescente uns segundos

aos tais quatro minutos.

LA 12/007

 

 

No amor tudo é maior,

inclusive nossa burrice.

LA 12/007

 

 

Na estrada para o fim

nos lembramos muito de nossos pais

e daquela casa que eles nos emprestaram.

Tudo ganha um sabor de pão da infância,

um cheiro daquela goiabada

feita em tacho de cobre.

Temos lastro bastante

para conversarmos com eles frente a frente

e sabermos que não sabemos.

Isto é, vemos que eles estavam certos,

mas que fizemos muito bem

em não concordar com eles.

Gostamos deles, os amamos,

mas nos sentimos outra gente,

tal como são outros os nossos filhos,

outros os nossos netos.

Na estrada para o fim

percebemos que o tempo

são portas que se abrem e fecham

na casa em que Deus nos pôs

e que ficou dentro e fora dela...

e que nos sendo ( Deus nos sendo ),

também estamos,

sim estamos dentro e fora de tudo

e que, como Ele, também somos tudo.

Na estrada para o fim

caminhamos sempre para um começo —

um fininício cruelmente belo.

LA 01/008

 

 

Solenidade,

formalismo,

academismo,

cenho duro —

coisas para os enfermos.

LA 01/008

 

 

Quem sabe

só sabe

não saber.

Agora

quem faz a hora

é o relógio —

que, tendo pilha,

a faz acontecer.

LA 01/008

 

 

Hoje é dia da Consciência Humana.

LA 01/008

 

 

André, ontem, bebeu umas

e desabafou:

Tive uma amiga gostosa,

inteligente e bonita.

Uma mulher metida —

ativa e depoentemente

metida.

Metida em todos os sentidos —

metida.

Só não o fez comigo.

De mim queria

lhe segurasse a cabra —

pra ter uma referência,

um porto

e então poder singrar

por mares nunca dantes...

Dessas que gostam de variar —

a unidade na diversidade.

Recebia em sua casa intercrural

seus nobres vaginícolas.

O engraçado

é que jurava a si mesma

que eu a aceitaria assim

sem hesitar
e agradecidamente.

Ah, essas metidas!...

LA 01/008

 

 

O Josildo?

Tentou malandrear Cacilda(!)

e levou um bem maior

do que podia aguentar.

LA 01/008

 

 

Sempre que padre Ignácio

advertia as mulheres:

Cuidado, muito cuidado

com essas linguiiiiiinhas!,

o sacristão pensava:

Sim, uma pena

empregar mal as coisas.

LA 01/008

 

 

Caberemos  nós todos

no dia constelado

da poesia.

Mas quando chegar a noite

cada um vai dormir

com o que fez.

LA 02/008

 

 

Excelentíssimo senhor:

Também quero um Cartão

Corporativo

preciso viajar,

tomar sorvetes,

comer tapioca

e ( ninguém é de ferro! )

me divertir em Las Vegas.

LA 02/008

 

 

Cresce a consciência

da Consciência Humana.

LA 02/008

 

 

Não sei se compro sapatos

com um número maior

ou corto as unhas.

Talvez não faça

nem uma coisa nem outra —

ando descalço.

LA 02/008

 

 

Mamãe disse a nós duas

que de mocinhos

o que se pode esperar

é um pouco mais de dureza —

mas só isso.

LA 02/008

 

 

Bem mais que o vinho,

fermenta a Consciência Humana.

LA 03/008

 

 

Sim, não há odre que aguente

o expandir da Consciência Humana.

LA 04/008

 

 

Amarra-se o corpo,

jamais a Consciência Humana.

LA 05/008

 

 

Mata-se o homem,

jamais sua consciência

dentro da Consciência Humana.

LA 06/008

 

 

Subiu tanto na vida,

que quando caiu

não sobrou nada.

LA 07/008

 

 

Era tão bela e doce,

que o marido morreu de diabetes

aos trinta e dois.

LA 07/008

 

 

As grandes marcas dos tempos

são os teores da Consciência Humana.

LA 07/008

 

 

Quanto à mulher,

o problema seria não havê-la —

pois que ela não só faz viver

como dá sentido à estrela.

Sem a mulher, meu filho,

não haveria quem aguentasse.

LA 08/008

 

 

O melhor de um relacionamento

é quando ele termina.

Seu punhado de lembranças boas

compensam ter acabado.

LA 08/008

 

 

O orador falou quatro horas e dez minutos.

Depois de oitenta minutos,

a platéia de quando em quando

o aplaudia de pé,

demoradamente de pé —

para descansar a bunda.

Nestas alturas, o palestrante

se derretia em ares

de serafim...

e com as mãos cruzadas,

um sorriso beato,

parecia dizer a todas

e todos:

Imaginem!... Imaginem!...

Bondade, bondade sua,

minhas senhoras...

minhas boas senhoras...

e senhores.

E logo voltava,

bem compassado,

poético,

num tom afetado e musical.

LA 08/008

 

 

Voar muito alto nos torna invisíveis

para os que ainda não têm asas —

dizia o paraninfo

sorrindo inteligente

para os seus afilhados.

LA 08/008

 

 

Trabalho, Nega, É Bom...

 

Trabalho, nega, é bom, mas há que haver

a sua honoris pausa: a maciota —

esse gêmeo palrar into com ota

e tudo mais que seja não fazer,

 

ou, por outra, que seja refazer

o tal não feito: descalçar a bota

antes de pô-la, a descascar lorota.

Sim, fazer muito nada a nadescer.

 

Trabalho, nega, é bom e dignifica,

se bem que isso não é pra gente rica —

a tal já coleciona honoris causa.

 

Trabalho de bacana é até folguedo.

E quanto mais folguedo e mais brinquedo

tanto mais merecida a honoris pausa.

LA 08/008

 

 

Os Amplos Céus...

 

Os amplos céus coalhados de gaviões

e as gaiolas repletas de pardais.

É até bonito ver tantos ladrões

unindo os céus e os ares federais.

 

Sim, federais, universais: normais

como exercer com charme o além-funções

de suas mãos tão mágico-geniais

a engavetar formais acusações.

 

É patético ver que mãos mortais

pilhem e empilhem lá nos seus porões

como vivessem vidas eternais.

 

Aonde será que foi o sonho-mais

sob estes céus coalhados de gaviões

e gaiolas repletas de pardais?

LA 08/008

 

 

Aprendi muito com você.

Inclusive que o depois

(nunca havido)

foi bem melhor que o antes,

que também jamais houve.

LA 08/008

 

 

Se soubéssemos calar,

tornaríamos possível

até a convivência.

LA 08/008

 

 

Um dia você me disse

que eu tinha chegado “depois”.

Não demorou, você mesma,

você mesma se viu chegada

depois do meu depois.

LA 08/008

 

 

O universo, seus enigmas,

seus buracos. Buracos.

Cientistas e cosmólogos

têm cosmogônicas obsessões

por tais sorvedouros.

E vivem se encantando com os tais.

Aqui na Terra

nunca foi diferente —

existe até a metáfora

para expressar engano ou dificuldade:

‘O buraco é mais embaixo’.

Para acabar de vez com a dúvida,

fui à cabana de Sofósio

e joguei-lhe a dúvida:

Afinal, meu bom caboclo,

o tal buraco

é mais embaixo ou mais em cima?!

Ele bodoqueou:

Depende, gente boa, depende...

De costas, é mais em cima.

De frente, é mais embaixo.

LA 08/008

 

 

Aprendi a ironia,

o humor,

o riso,

a gargalhada —

e assim pude sobreviver-me,

a mim e ao mundo.

LA 08/008

 

 

O tempo proclamou

a barba de Karl Marx

bem mais gloriosa

do que as suas ideias.

LA 08/008

 

 

As correntes se partem

com o martelo

da Consciência Humana.

LA 08/008

 

 

Olha, compadre,

é como já dizia

meu saudoso Teodoro:

Esse negócio de razão e gosto —

é cada um ca sua

e cada um cu seu.

LA 08/008

 

 

Pato Lógico

 

Se juntarmos

o meu pathos com a tua pathas,

amorzão,

por certo teremos penas

para muitos travesseiros.

LA 08/008

 

 

Nossos cabelos brancos

a Imédia já deu um jeito.

Quanto às nossas fraquezas

sabemos disfarçá-las.

LA 09/008

 

 

Amanhecimentos

 

Sim, sorte tua: vives num momento

em que podes pensar, principalmente

porque já está morto o pensamento —

morto, sepulto lá dentro da gente.

 

Por sorte tua, com algum talento,

podes também sentir, bem friamente,

que está anestesiado o sentimento —

em coma: em nosso coração e mente.

 

Sonhar já nem se sonha: se é sonhado.

Esperar, hoje, é pão embolorado —

um esperar cansado e amanhecido.

 

E as promessas em nosso ter vivido?

Algo que se negou e está passado —

e até já cheira mal: sabe a vencido.

LA 09/008

 

 

“ Quem parte leva saudade,

quem fica” ‘não vai no trem’.

Dinheiro e maturidade

não fazem mal a ninguém.

LA 09/008

 

 

Sim, claro, nega, —

tudo vale a pena

se a alma

não se depena.

LA 09/008

 

 

Olhando para trás, se entende.

Para a frente, se vive.

LA 09/008

 

 

Com o farol de ré da experiência

e o farol de avante da perspicácia

e analogia

temos o ver da Consciência Humana.

LA 09/008

 

 

Sou apenas um “velhinho”

esbordoado

latino-americano

sem dinheiro e sem bolso

nem coisa alguma na bolsa

pagando taxas e impostos

num antigo sobreviver.

Lutei feito um danado

mas sempre vence o mercado

com seu poder de safado,

com seu tesão desbragado.

LA 09/008

 

 

Chorar só pra desabafar,

logo em seguida — rir,

calma e gostosamente rir

e ver a vida passar

de minissaia.

LA 09/008

 

 

O que os pais escondem

os filhos contam

e descontam em cheques.

LA 09/008

 

 

Quem espera passa a hora,

fica até escurecer.

Já quem virá

pode até se esquecer.

LA 09/008

 

 

Os homens são títeres,

não do destino,

mas das bolsas

da deusa economia.

Os homens são marionetes

da ganância pessoal

casada com a universal —

e assim constroem uma coisa triste,

muito perversa e patética,

que chamam de realidade.

LA 09/008

 

 

Escrevivendo,

aprendo-entendo —

organizo a mim,

os enganos,

as loucuras da vida,

as amargas delícias,

as venturosas desventuras,

os martírios dos céus,

os manjares da terra

e os raios (que não nos partam!),

já que não faltam.

LA 09/008

 

 

Você planta, o vento arranca,

a chuva manca,

o crédito se tranca...

E aí?

Aí ou você chora ou ri.

LA 09/008

 

 

O amor? Não se preocupe —

enquanto você pagar o ingresso,

haverá espetáculo.

LA 09/008

 

 

Só nos preocupamos com os outros

quando atacam a nossa vaidade.

LA 09/008

 

 

Se o amor é bom de rabo,

dura mais um pouquinho.

LA 09/008

 

 

O que temos ou somos não nos agrada.

Adoramos o que não temos ou somos.

LA 09/008

 

 

Quando a vontade é fraca

os sonhos não têm força

para romper a casca da esperança

e ganhar asas.

LA 09/008

 

 

Muitos ajuntam dinheiro a vida inteira

e querem que os respeitemos por isso.

LA 09/008

 

 

Quando você entende a logística do amor

é porque ele acabou.

LA 09/008

 

 

Sim, a vida é uma sombra que passa...

e o seu significado é a luz

que faz haver essa sombra.

LA 09/008

 

 

Livrar-se das armadilhas do mundo

e dos logros de si mesmo

é a maior riqueza de um homem.

LA 09/008

 

 

Se a rosa tivesse o nome de hortênsia,

então diríamos que a hortênsia

era a mais bela das flores.

E seus espinhos continuariam

sendo o segredo do seu charme —

a delícia dos opostos.

LA 09/008

 

 

Não raro, o mentiroso é tão ingênuo

que a gente acha uma pena

que o que diz não seja verdade.

LA 09/008

 

 

Nossos hábitos ( e vícios )

se tornam como que entidades exigentes

dentro de nós

a nos desafiar a razão e a consciência.

LA 09/008

 

 

Nossos pensamentos

são pedaços de nós.

Sim, formam coisas que são nossas.

LA 09/008

 

 

A vida é uma equação

que foi montada por nós

e por nós deve ser resolvida.

LA 09/008

 

 

O ressentimento baralha a realidade

mudando a chave do destino.

LA 09/008

 

 

Perdoar

é desfazer a parelha

entre ofendido/ofensor —

é um livrar/livrar-se.

LA 09/008

 

 

O homem se arrasta pela felicidade,

essa vilã dos tempos.

LA 09/008

 

 

Muitos fazem da verdade algo tão alto

que não podem jamais alcançá-la.

LA 09/008

 

 

A alegria é dom gratuito —

não precisa de motivo.

É graça que resplandece

plena de infância e orvalho:

sorriso de Deuspai em nós —

por isso nos é força.

LA 09/008

 

 

Já a felicidade

pede motivos:

precisa-se disso ou daquilo

para tê-la.

LA 09/008

 

 

Perdoar fica sempre

bem mais barato.

LA 09/008

 

 

Vingar-se é continuar na roda.

LA 09/008

 

 

Um palácio é um palácio

quando quem lá mora é a corte.

Se invadido por muitos

e dividido em espeluncas —

então será um cortiço.

LA 09/008

 

 

Se o cair da chuva,

o canto das aves,

as cores do verão,

um olhar sorridente

não lhe tocarem a alma —

você está doente de mundo adulto.

LA 09/008

 

 

Só os mendigos sabem verdadeiramente

abençoar o pão ao parti-lo.

LA 09/008

 

 

Nossos sonhos

trazem em sua natureza

muito do nosso meio

e do nosso DNA.

São do tamanho

da nossa dedicação em ousar.

LA 09/008

 

 

Os sonhos

são a nossa alma inventando.

LA 09/008

 

 

Para o que gostamos de fazer

levantamo-nos de madrugada.

Para o que nos é enfadonho —

muito justamente

perdemos a hora e o trem.

LA 09/008

 

 

Não acreditem no amigo, principalmente

se vocês forem ricos

ou tiverem cônjuge muito bonito.

LA 09/008

 

 

O coração ama a vida

e a vida é a rosa na mão do arlequim.

LA 09/008

 

 

Quem jura mente,

principalmente

se apaixonado.

LA 10/008

 

 

Tira as máscaras que o mundo te moldou,

ainda deves ter uma face.

LA 10/008

 

 

O tempo nos opera da miopia

e vai nos dando a visão madura

da Consciência Integral Humana.

LA 10/008

 

 

Não direi a ninguém que tudo aquilo

que mais aparentas não ser

tu o és bastante.

LA 10/008

 

 

Sentimos e vemos o mundo

de acordo com o que estamos sendo

em alma-coração.

LA 10/008

 

 

Primavera poderá ser inverno

e vice-versa,

se assim os sinto lá em mim.

LA 10/008

 

 

O sentido das coisas,

ou sua falta de sentido,

somos nós.

La 10/008

 

 

O ser e o tempo emprestam à vida

sentido e movimento.

LA 10/008

 

 

Pela vontade remoldamos

e recriamos

a nós e as coisas.

LA 10/008

 

 

Sem uma obstinada vontade de vencer

não se rompe a barreira da mediocridade.

LA 10/008

 

 

A ira, o ódio, a mágoa

embaçam nosso ver e sentir

a vida e o mundo.

LA 10/008

 

 

A rosa é bela

quando estamos belos por dentro.

LA 10/008

 

 

Saber é fácil,

difícil é fazer.

LA 10/008

 

 

Ser pedra é bem tranquilo,

o duro é bater nela.

LA 10/008

 

 

Ter belas idéias não é difícil.

Difícil é fecundá-las,

incubá-las —

dar-lhes corpo de realidade.

LA 10/008

 

 

Em geral as pessoas vivem como fantasmas

entre o passado e o futuro,

longe, bem longe do hoje —

que é onde se pode fazer

e refazer,

criar e recriar,

moldar e remoldar:

viver

e ajudar a viver.

LA 10/008

 

 

Os pensamentos das pessoas podem se tornar

seus fantasmas persecutórios

a vagarem por labirintos tresloucados

de sua leviana mente.

LA 10/008

 

 

Internet é bom, amor.

Tão bom que dá mania —

por ela a gente reinventa o mundo

e nem percebe

que nunca foi nem é amado.

LA 10/008

 

 

É patético ver inúmeras pessoas

renunciarem ao que são

e se agarrarem ao que sonham ser.

LA 10/008

 

 

Quando vem a inspiração —

ou a esboçamos enquanto nos queima,

ou nunca mais o faremos.

LA 10/008

 

 

Sem um firme propósito

e uma inteira dedicação —

nossa mão não alcança.

LA 10/008

 

 

Nosso corpo é o que fizemos

de nossos anos.

LA 10/008

 

 

A imaginação só é profícua

quando a tornamos cavalgável.

LA 10/008

 

 

Muito pecado

pode acabar purificando.

Muita virtude, depravando.

LA 10/008

 

 

O amor tem coragem pra tudo,

até para não ser amor.

LA 10/008

 

 

O mal que se pratica

vai se tornando fantasmas

de mãos geladas.

LA 10/008

 

 

Por ser o próximo mais próximo,

a gente se enxerga pouco.

LA 10/008

 

 

As paixões cegam, por isso o amor

vai precisar de transplante de córnea.

LA 10/008

 

 

O elogio é a ruína da vaidade,

já que ela não admite a crítica.

LA 10/008

 

 

Ao adversário,

ao invejoso,

ao competidor desonesto —

é prudente deixá-los

no banho-maria da dúvida.

LA 10/008

 

 

A humildade,

a passividade calculada,

o sorriso cabisbaixo

são atalhos

que nos livram do prepotente.

LA 10/008

 

 

Se acha que deve adiar,

adie —

muitas vezes não fazer é lucro.

LA 10/008

 

 

Quem não achou um sentido

e se sentiu indignado

é porque tem sentido

que buscar um sentido

tem, sim, muito sentido.

LA 10/008

 

 

Elogiar a morte na guerra

há de ir se tornando injusto,

cada vez mais injusto —

porque nenhuma guerra é justa

e o homem vive

para mudar a si e as coisas —

mas a começar de si mesmo.

LA 10/008

 

 

A morte

é a hora covarde.

LA 10/008

 

 

A vida pode se tornar

uma rede ou um tobogã,

uma prisão ou passaporte —

segundo o modo de vivê-la.

LA 10/008

 

 

Quem muito dá

muito quer.

Quem muito exige

em geral não se doa.

LA 10/008

 

 

Não seja egoísta demais.

O amor não pode girar em torno de você,

a não ser que bebesse muito.

LA 10/008

 

 

Oferecem aos pobres

uma justiça póstuma.

LA 10/008

 

 

Ouvimos o canto,

jamais vemos o grilo,

que sabe ser feliz

sem olhos que o vejam

nem mãos que lhe batam palmas.

LA 10/008

 

 

Têm aumentado

aqueles mendigos ricos

e os tais ricos paupérrimos.

LA 10/008

 

 

Há duas coisas infinitas:

o precioso ridículo dos homens

e o amor, que é o sublime do ridículo.

LA 10/008

 

 

Tratemos bem o amigo

e não nos recriminemos

por não poder confiar nele.

LA 10/008

 

 

Acreditar é cafona,

duvidar é chique,

mas a vida é muito mais que modismos.

LA 10/008

 

 

Cagarregras,

normas

e estilos.

Parasitas nepotizados

dos feudos e clãs:

marotos encastelados,

metidos a ditar leis

lá das escadarias do céu —

descansai em suspicaz

chão: naquele podre limbo

de vossa chã criatividade!

Vossas críticas sáfaras

(tendenciosas

e coniventes),

as conhecemos:

levam do nada ao nada.

As vossas obras não vimos.

Onde estão elas,

ó eméritos?

Ah, egrégios de egrégios!

Vós sois os que não fazem

e não deixam fazer.

Os que não entram

e não deixam entrar.

Houve até um entre vós

que chegou a escrever um livro

(está por aí nas bancas)

“revelando” as manhas e mumunhas

a serem adotadas por aquele

que deseja passar vivo

pelo corredor-polonês dos vossos deuses

e escorregar para o sucesso...

(Sucesso!... Quaquaquá.)

Os tempos são bem outros,

ó conspícuos, ó ilustres,

são bem outros —

vivemos num país continente

e temos acesso diuturno ao mundo.

E o mais importante —

a Arte já não tem dono.

Ficai em paz, ó preciosíssimos

das doutorices coniventes

e incorporadas a pingues salários

(ou melhor: honorários).

No vosso trono de nada,

cacarejai em paz.

A Arte nem sabe

que vossas deidades existem.

LA 10/008

 

 

O que nos dá prazer

é fácil de fazer,

por isso muitos não conseguem

realizá-lo.

LA 10/008

 

 

Se avalias,

pagas por outrem

e de lambuja

arranjas inimizade.

LA 10/008

 

 

O último dos males

será a esperança.

LA 10/008

 

 

Calar nos faz fortes,

contar nos enfraquece.

Sobretudo quando falar

rompe a casca onde é feliz

nosso silêncio:

onde se emplumam

os nossos sonhos.

LA 10/008

 

 

Sofrer no presente evocando o passado

cria o não raro gosto de lastimar-se,

o hábito de se apiedar de si —

e se sentir um belo desgraçado.

LA 10/008

 

 

Lutar por um grande amor,

esfalfar-se para tê-lo,

é bom, é legítimo —

mas tudo isso

numa ajeitada cama.

LA 10/008

 

 

Sim, o amor é uma loucura e uma merda —

mas a melhor de cada uma delas.

LA 10/008

 

 

No tique-taque do coração

o tempo chora como o vento,

como o vento que só sabe ir.

LA 10/008

 

 

Um rebolado impetuoso,

falando “ois!” dos dois lados —

com saltos-10 perfurantes...

LA 10/008

 

 

Saber, todos sabemos.

Difícil é não saber na hora certa.

LA 10/008

 

 

Sim, ensinar a pescar!

Mas onde há rio e peixe

e não seja proibido pescar.

LA 10/008

 

 

Sim, ensinar a pescar!

Bela desculpa

pra não se dar esmola,

não se ajudar a ninguém.

LA 10/008

 

 

O orgulho vai ilhando o orgulhoso,

até ele se sentir sozinho e odiado,

inclusive por si mesmo.

LA 10/008

 

 

Não pude escolher meus irmãos,

mas posso escolher amá-los.

LA 10/008

 

 

Agradeço a Deus por ninguém ser perfeito,

assim tenho com quem barganhar imperfeições.

LA 10/008

 

 

As oportunidades não acontecem duas vezes,

pois seria enfadonho perder sempre as mesmas.

LA 10/008

 

 

O amor é cego,

mas só de um lado —

que ele não diz qual é.

LA 10/008

 

 

Aprendi que as coisas não importam tanto

quanto pensamos que elas importam.

LA 10/008

 

 

Tempo-ser-consciência —

eis o tripé lá por degraus no homem.

LA 10/008

 

 

Costumo me lembrar mais de uma vez por dia

de que estou numa jornada

por veredas de mim mesmo

e pelo mundo —

cujo destino-finalidade

é superar-me e transcender-me

pelo tempo que me é oferto:

psicodinamizado pela consciente vontade

de alçar-me mais e mais liberto

numa espiral (e na Espiral)

de aguda consciência e luz.

LA 10/008

 

 

Não dê ouvidos ao que falam de você,

mas ao que não falam.

LA 10/008

 

 

O silêncio pode não ser de ouro,

mas às vezes vale uma nota.

LA 10/008

 

 

Há cidadãos que nos provocam

a indiscrição,

e se regalam

com nossas confissões

e destemperos.

A eles o que merecem!

O que é mesmo que merecem?

LA 10/008

 

 

Se a pergunta era indiscreta,

André mandava:

Um outro dia a gente senta,

fatia a melancia

e lhe tira semente por semente.

LA 10/008

 

 

Não daria meu perdão a quem não fez

nada de bom nem nada de mau.

LA 10/008

 

 

A adversidade em criança e na adolescência

pode nos livrar da mediocridade.

LA 10/008

 

 

Por vezes somos um abismo

de dar arrepios.

Sim, um abismo

despenhando dentro de nós.

LA 10/008

 

 

Pedimos aos céus tantas coisas

que se fôssemos sempre ouvidos

estaríamos cheios de tranqueiras.

LA 10/008

 

 

Aprendi que o aprender

caminha na mesma medida

em que vamos desaprendendo.

LA 10/008

 

 

Cada qual merece os amigos que tem.

LA 10/008

 

 

Uns gostam do mel, outros dos ferrões,

e as abelhas estão aí

para dar a cada um segundo as suas preferências.

LA 10/008

 

 

A vida não tem pressa.

Nós é que devíamos nos apressar

em aprendermos a livrar as costas

de sua vara verde.

LA 10/008

 

 

A consciência é tempo em movimento

no ser.

LA 10/008

 

 

Quando vamos madurando,

acabamos.

LA 10/008

 

 

O tempo nunca dá tempo.

LA 10/008

 

 

Os corações covardes não saboreiam

os pratos finos do amor.

LA 10/008

 

 

Se você faz do coração oráculo,

pode quebrar sua cara —

um coração apaixonado

oscila sempre

entre o herói e o bandido.

LA 10/008

 

 

O amor é sempre adolescente,

mas nem por isso deixa de ter cãs.

LA 10/008

 

 

O amor é um luxo,

mas vale pagar pra ver.

LA 10/008

 

 

Mais vale uma no dedo

do que mil delas desfilando.

LA 10/008

 

 

Os ciumentos inventam

as delícias do seu ciúme.

LA 10/008

 

 

Beijos não tiram pedaços.

Nem massagens deformam formas.

Sem contar que hoje

o amor nasce sem o hímen.

LA 10/008

 

 

O amor é a única loucura que vale o hospício

e o único hospício agradável.

LA 10/008

 

 

Quem deseja esquecer um afeto

é porque tem fome e pressa

de viver outros e outros.

LA 10/008

 

 

Entre nós e o que será de nós

está o delicioso não sabermos —

pelo que muitos se ralam em desvendar.

LA 10/008

 

 

O que olhos não vêem

as tripas sentem e comentam

lá em seus borborigmos.

LA 10/008

 

 

Quem tem mais culpa, nega,

você ou meu desejo?

LA 10/008

 

 

Sim, já enverguei belas perucas.

LA 10/008

 

 

Se amas com os olhos,

estás com a pessoa errada.

Se amas com o coração,

então esta é a pessoa.

LA 10/008

 

 

Dou graças por não ter muito.

LA 10/008

 

 

Sem a alegria dentro de si

a percutir uma bela e curiosa canção,

o homem será sempre um fraco —

um diabo velho e magoado.

LA 10/008

 

 

Reconhecer-se no filho

é ter se dedicado bastante a ele.

LA 10/008

 

 

Sim, nada é tão terrível,

desde que não aconteça conosco.

LA 10/008

 

 

Sim, concordo: dez, quinze, vinte anos

mais velho,

isso não é nada —

principalmente para a pessoa mais nova.

LA 10/008

 

 

Por vezes

são tantos os dementes,

que nem nós escapamos.

LA 10/008

 

 

Era uma fera de beleza:

loirosa inteligente,

cargo invejável,

carisma a dar e vender,

família honesta e simpática —

aerodinâmica monroe,

labaredas de cabocla

esperando o seu Tião

que lhe escreve de São Paulo...

Uma prenda do sul que meu amigo

André me roubou

e minha mãe desabafou:

Dê graças pelo roubo, filho meu...

Eu, de minha parte, dei graças,

fiz caridades,

dei glória a Deus

pelo rapto da sabina,

ou melhor: da sabida.

De fato, após três meses,

por excesso de felicidade,

André fez voar seus miolos.

Mas sosseguem, que isso só foi sonho

após eu ter comido vatapá

e ter bebido pinga com gengibre.

LA 10/008

 

 

 

 

 

 

Quase sempre nos esquecemos

que a mais bela das artes

é sermos felizes baixinho

em meio à desventura.

LA 10/008

 

 

Sim, em geral, em sociedade,

pimenta é bom refresco...

e dá até bom sorvete.

LA 10/008

 

 

Não fossem as dúvidas

as meias-verdades não existiriam

e a verdade

perderia o charme de mandona.

LA 10/008

 

 

O humano se humaniza

pela consciência da humanidade.

LA 10/008

 

 

Mulher quanto mais bela,

mais alto investe,

o diabo são as quedas da bolsa.

LA 10/008

 

 

Esquecê-la seria bom,

desde que o esquecimento

do esquecido

também viesse de lambuja.

LA 10/008

 

 

... se eu cheguei depois,

que terias para oferecer?!

Os restos de muitas festas?

LA 10/008

 

 

Chorar refresca a alma

e deixa meigos os olhos.

Mas o riso... eu prefiro o riso,

mesmo que ele incomode

os funestamente sérios.

LA 10/008

 

 

Quanto mais rejeitada

mais a pessoa se apaixona.

LA 10/008

 

 

Ouça os conselhos dos amigos e amigas,

mas siga a voz interior.

LA 10/008

 

 

Se você não sente a recíproca,

não deixe o seu coração

cair de joelho.

Confia, que o que é seu

vem vindo aí.

LA 10/008

 

 

O amor tem seus brinquedos,

e é vital saber brincar.

LA 10/008

 

 

A grandeza do amor

nem o maior sábio atina.

A sua beleza cósmica

é uma terra de leite e mel —

o pré-sabor das delícias

da casa de Deuspai.

LA 10/008

 

 

Quando fala o amor

o tal ressentimento,

a mágoa,

a mesquinhez

não comparecem.

LA 10/008

 

 

Num casamento

há um que é generoso,

outro que se farta.

Acaba, se o primeiro se cansa.

Continua, se o segundo

sabe eternamente fingir

que está mudando.

É um campo fértil. Amplo.

O amor é belo e terrível.

LA 10/008

 

 

O homem amaria se houvesse

uma bola de cristal

para lhe revelar o que vai ser.

Como não tem, faz de conta

que isso não tem importância.

E esta é sua força: não saber.

LA 10/008

 

 

Se a covardia faz parte de seu esquema,

deguste-a com colherinha niquelada

e bem do jeito seu.

Sim, jamais faça o que o cínico

espera de você.

LA 10/008

 

 

Use quantas máscaras

possa precisar —

o mundo não é um palco

e não lhe exigem nele atuar?

Agora, o melhor para você

será sempre amar a criatura.

LA 10/008

 

 

Quando te chegar a hora,

morre, morre direitinho,

tão direitinho

que nem estejas lá,

mas vendo um filme

de Woody Allen.

LA 10/008

 

 

Concordo em que Deus não joga dados.

Se jogasse xadrez,

metade da humanidade

haveria de achar que podia ganhar Dele.

Mas, cá pra nós: acho que não seria tão bobo

ou medíocre

a ponto de jogar xadrez.

LA 10/008

 

 

O meu amigo André

está num ser ou não ser

danado:

Não sabe se a Norfa

é ou não é...

faz ou não faz...

E como não lhe ousa perguntar,

fica por aí, com a mão cheia:

é ou não é...

faz ou não faz...

É que ele nunca leu Kierkegaard:

“Ousar é perder momentaneamente o equilíbrio,

não ousar é perder-se.”

Pois é.

Deus abençoe o André,

e a nós também!

LA 10/008

 

 

Claro que você sabe que este mundo

é um maravilhoso hospício.

LA 10/008

 

 

As palavras são boas de rabo,

como algumas mulheres

e as nédias vitelas —

dão um ensopado

de se comer de joelhos.

LA 10/008

 

 

É comum alguém trocar

o que é bom pelo que não lhe serve.

E muita gente o faz

só porque vê fazer.

LA 10/008

 

 

Prefiro ficar com minha dor

a buscar outras que nem conheço.

O mesmo vale para meu modo de ser.

Mas sou alguém que degusta

tanto a dor como a alegria.

Sem essas duas,

como buscar algo além-nós?

LA 10/008

 

 

Contar com a consciência humana

é saber-se com as potencialidades

desde o primeiro

até o ser humano de hoje.

LA 10/008

 

 

A solidão nos induz

a outras gamas de ser.

Precisamos tanto dela

como dos outros

pra degustarmos a vida

em sua efígie e multiverso.

LA 10/008

 

 

É um péssimo contador de histórias

o que não sabe mentir

nem fingir que não sabe

quando a história termina.

LA 10/008

 

 

Os poetas são intérpretes da realidade,

por isso a pecha de impudicos

ou de solenes

não os atinge.

LA 10/008

 

 

Padre Mário nunca xingou —

jamais teve uma dor de dentes.

LA 10/008

 

 

Sim, padre João, o perdão

é a maior fábrica de pecados.

LA 10/008

 

 

O modo, o jeito de dizer

faz com que possas dizer

tranquilamente tudo

o que quiseres

e o que nem querias.

LA 10/008

 

 

A consciência são os atritos do tempo.

LA 10/008

 

 

Para o banquete

temos os amigos.

Para as nossas grandes angústias

não temos ninguém.

LA 10/008

 

 

Nossa amizade com Deus

transforma os espinhos em pétalas

nas horas de aprendizado

e sofrimento.

LA 10/008

 

 

Saibamos tourear nossas angústias,

sendo uma boa companhia

para nós mesmos

e nos amando

tal como deveríamos

amar a todos.

LA 10/008

 

 

Olhando daqui

a coragem que tive

em certas etapas da vida,

é que vejo

que nunca estive sozinho.

LA 10/008

 

 

Aos meus tombos —

seguem-se risos.

Aos degraus que subo —

o desprezo invejoso.

Mas o silêncio que me envolve

é música  interior e conforto.

LA 10/008

 

 

 

A gula une os miseráveis de espírito,

amantes de salões e filigranas.

Já o altruísmo

une raios de luz.

LA 10/008

 

 

O caráter é aquele cara

que sempre lhe acena solidário

nas situações difíceis.

LA 10/008

 

 

O ser passa por si mesmo

nascendo, morrendo e renascendo

por várias gamas de vida.

LA 10/008

 

 

Os sonhos são bem mais que importantes —

são a coisa em seu além-ser.

LA 10/008

 

 

Muito bem nos teria acontecido,

se tivéssemos deixado

que seus dons se aproximassem.

LA 10/008

 

 

Não ousar

muitas vezes é perder.

Outras vezes é ganhar —

sem esforço.

Ousar ou não ousar:

aqui entra a intuição.

LA 10/008

 

 

Quando você lembrar

uma dor lá no passado,

sinta o gozo

de ela estar no passado

e só poder atingi-lo

se você permitir.

LA 10/008

 

 

Não deixe que ninguém lhe diga:

“Ouse!”

Antes, apenas ouse

quando sentir

o instante-sim de ousar.

Aí sim: ouse ou não ouse.

Errarmos pelos outros

dói bem mais

que errarmos por nós mesmos.

LA 10/008

 

 

Ninguém está deveras preocupado

quanto a vencermos

ou fracassarmos —

apenas são espectadores,

ávidos de entretenimento.

LA 10/008

 

 

Aprenda a perdoar-se

como tem perdoado.

E quando aquela vozinha azucrinante

vier lá do passado alfinetá-lo,

diga-lhe que Deus

já perdoou a você,

e o ama, o ama desde sempre.

LA 10/008

 

 

O sentimento gratuito de culpa

nos apequena e aprisiona.

LA 10/008

 

 

Nobres ressentimentos,

mimadas mágoas,

tal como Lázaro —

já vão cheirando mal.

Não há o que fazer,

senão chamá-los para fora

( do sepulcro lá em nós ) —

e já ressuscitá-los em amor

pelo perdão.

LA 10/008

 

 

O medo

vem mais do que não existe

do que realmente há.

Há várias gamas

de uma coisa ser,

já que ser ou não ser

são os rastros da dúvida.

LA 10/008

 

 

Tudo, todas as coisas

têm o seu correspondente fantasma.

Uma questão de vibração.

LA 10/008

 

 

De nossos sonhos e medos

nós parimos os deuses.

Sobretudo de nossos medos.

Sim, os deuses são nossos órfãos

a quem chamamos de pais,

de mães e outras narconoias

que nossas crenças manipulam.

Sim, de pais passamos a filhos,

filhos e títeres.

LA 10/008

 

 

O bem e o mal

foram paridos de nós.

Portanto, existem sim.

Libertário é vivermos

com um sentimento

que suplante esses dois —

que lhes vá além,

sem nunca os subestimar.

LA 10/008

 

 

Racionalmente,

o homem rearranja as coisas na memória.

No coração,

elas ficam no mesmo lugar.

LA 10/008

 

 

A dúvida nos impede,

mas impedindo

também pode nos livrar.

A dúvida é a preparação

do salto

entre a sombra e a luz.

O risco é o preço

entre os degraus de ser.

LA 10/008

 

 

Os obstáculos aumentam a força

de quem sabe o que quer.

LA 10/008

 

 

Não realizar um sonho

é pior que não tê-lo.

LA 10/008

 

 

Ninguém é insubstituível,

exceto para o apaixonado.

LA 10/008

 

 

O que não tem solução

já é impropriamente a própria.

LA 10/008

 

 

Quem faz um elogio

leva três,

porque elogios

liberam serotonina —

uma espécie de gozo-colibri.

LA 10/008

 

 

Dedicação e força de vontade —

eis o que vai decidir

na questão entre o possível e o impossível.

LA 10/008

 

 

Uns matam para se exaltar,

outros se esfalfam em caridades

silenciosas.

Os opostos se explicam

e nos ensinam.

LA 10/008

 

 

Há os que venceram pelos seus crimes

e os que preferiram fracassar pelos seus princípios.

LA 10/008

 

As palavras estão cheias

do que o homem tem no seu coração.

LA 10/008

 

 

O amor que sabe que ama

não é amor.

Quem ama não precisa saber —

tem a luz do seu amor.

LA 10/008

 

 

O amor é como o junco —

resiste ao sol, à chuva, ao frio,

à tempestade. Verga-se até o chão,

e ei-lo: já de pé.

LA 10/008

 

 

O hoje é o ponto neutro: o poder-ir

para trás ou para a frente.

Cada vez que olhamos para trás,

mexemos nos arquivos,

portanto: manipulamo-los.

Sempre que operamos no hoje

construímos algo que já cai

na esteira a caminho do passado

e algo que projetamos

aonde ainda não chegamos.

Sim: quando nos projetamos,

enfeixando querer e pensamento,

criamos ninhos-sonhos no futuro

que rolam pela esteira incubadora

entre o porvir e um hoje abstrato:

uma espécie de bica de colheita

daqueles sonhos arremessados

num espaço interior: lugar-zero

de inseminação e incubação —

o tempo nos devolvendo coisas

ainda orvalhadas

de nossos sonhos materializados.

E eis que o tempo é a consciência em estações.

LA 10/008

 

 

Entre o sábio e o tolo

está o que tem luz própria

e o que tem uma vela ao vento.

LA 10/008

 

 

Todos poderiam fazer

uma tal difícil coisa —

depois que alguém a fez.

LA 10/008

 

 

O homem precisa ser mais,

precisa ser bem mais —

para alcançar-se

no sonho de Deus nele.

LA 10/008

 

 

A arte e a filosofia

são bengalas e corrimãos

dentro do imprevisível castelo

nem sempre claro da vida.

LA 10/008

 

 

Escrever me é um modo de contar-me

coisas que nem sabia que sabia.

LA 10/008

 

 

Aprendemos sempre tarde.

Assim a vida evita

que usemos de covardia

com aqueles que julgamos menores

que nós.

LA 10/008

 

 

Perdoamos o passado,

mas sabemos que ele não está morto.

LA 10/008

 

 

Aprendizado é assimilação de contatos

com vivos e mortos —

crescemos às custas de quem teve

ou tem pra dar.

LA 10/008

 

 

Ninguém é tão grande

que não possa ser um canalha.

LA 10/008

 

 

Há muitas gamas de realidade,

de manifestações de vida —

mas todas permeadas dos degraus da Consciência

que serpenteia

por toda a Criação.

LA 10/008

 

 

Fracasso e sucesso

são dois belos impostores.

Um quer nos levar à comiseração,

o outro à exaltação de nós mesmos.

Melhor fora tratá-los, a um e a outro,

com toda a maturidade possível.

LA 10/008

 

 

No silêncio você se escuda,

nas palavras se desnuda.

LA 10/008

 

 

Muita vez a mentira

presta mais que a verdade.

LA 10/008

 

 

A consciência humana faz das dúvidas

suas verdades provisórias.

LA 10/008

 

 

 

Certezas servem

para virarem incertezas

que se vão revestindo de certezas.

LA 10/008

 

 

Em geral a beleza se vende,

investe-se na bolsa do mundo:

atola-se sem nenhum amor-próprio.

LA 10/008

 

 

O que não tem conserto

compra-se novo.

Não existindo,

a gente incuba o ovo

da fênix.

LA 10/008

 

 

Não direi que Marli

tinha gosto de sapoti,

mas que era bela como a mentira,

linda como joia falsa

e vivia fugindo

do bem-te-vi.

LA 10/008

 

 

Quem um dia já plantou um jardim

ouvirá sempre e sentirá

a canção e o perfume daquelas

a quem mandava belas flores.

LA 10/008

 

 

Chorar pelo que perdemos

afugenta novos ganhos.

LA 10/008

 

 

O tempo é o hoje

que se vai travestindo de passado

até um amanhã que é o futuro

de um pretérito quase amanhecido

e sendo feito novamente hoje.

LA 10/008

 

 

A nossa mente

concebe um tempo linear —

leda ilusão.

O tempo é infinita espiral.

Ontem-hoje-amanhã

são apenas balizas-símbolos

para não nos perdermos em nós.

Ser e tempo, tempo e ser

são uma só coisa eterna —

eterno movimento em espiral:

a consciência em estações.

LA 10/008

 

 

Vez por outra é bom perder amigos —

faz renovar o estoque.

LA 10/008

 

 

Há palavras que são cobras,

já outras que são ratos,

coelhos ou pavões,

tigres, escorpiões, colibris,

vespas, ouriços, borboletas...

O bom é ouvi-las

sem deixá-las entrar.

LA 10/008

 

 

Tinha um cenho nublado,

um tom escatológico...

E perorava

mais ou menos assim:

Tu és água

e às nuvens voltarás —

bebido pelo sol.

Chuva, retornarás

ao húmus dos rios e oceanos —

a tua origem.

E novamente subirás aos céus

e outra vez descerás à terra —

num sobe e desce eterno

por entre a sombra e a luz.

A maioria gostava de ouvir —

era uma voz que ecoava

lá dentro do que sentiam:

um misto de tragédia

sonhando sua catarse

vinda de um fim final.

LA 10/008

 

 

Pra cada mal seu remédio,

pro sem remédio basta o mal.

LA 10/008

 

 

Para pegar um belo peixe

o pescador o engana.

E é fácil de assimilar

a tática do pescador.

LA 10/008

 

 

Aprendemos com as quedas,

desde que a altura não seja muita.

LA 10/008

 

 

O amor anda por aí.

Abaixe a ponte e lhe sorria,

ao menos.

LA 10/008

 

 

Os conselhos não ouvimos,

mas nos babamos pelos elogios.

LA 10/008

 

 

Vá devagar ou depressa,

mas cuidado, senão tropeça.

LA 10/008

 

 

Quem não sabe calar

vai ter que se explicar.

LA 10/008

 

 

As promessas são boas e necessárias

para suster

nossos deliciosos enganos

e as mentiras que amamos

e tanto nos ajudam.

LA 10/008

 

 

Uma das coisas que mais me comoveram

foi conhecer pessoas

que gastaram o seu tempo

estudando os profetas de fim de mundo.

Era patético vê-las escavando textos,

“intuindo” mensagens,

adivinhando datas do fim-final.

Hermeneutas do destino!

Muitos e muitos já se foram

sem terem tido a graça

de ao menos sentir sob os pés

um, um só pequeno terremoto.

LA 10/008

 

 

O mundo está tão articulado

pelo dinheiro,

que quando um de seus grandões

perde a carteira

todos ficam roubados —

principalmente os pobres.

“Ismo” nenhum dá certo,

“ia” nenhuma é suficiente

para o mundo conviver

ao menos

com uma sofrível

honestidade.

LA 10/008

 

 

Com o endereço errado,

encontrou outra pessoa...

Mas certa, para ele, certa.

LA 10/008

 

 

Escrevia no ar

pra que ninguém lesse os poemas

que fazia para a vizinha.

LA 10/008

 

 

Minha amiga me disse

que investiu farta e gostosamente —

até a queda ( irremediável )

da bolsa.

LA 10/008

 

 

É sempre uma pré-satisfação

uma bela mulher.

LA 10/008

 

 

O passado é um inseto

sempre zumbindo ao nosso ouvido.

LA 10/008

 

 

Ela estava linda,

linda e cheirosa —
uma jabuticabeira em flor.

LA 10/008

 

 

Muito obrigado não, senhora!

Vai tiran...

LA 10/008

 

O sexo é sempre o prólogo

de um posfácio.

LA 10/008

 

 

Não sei o que, sussurrando,

dizem as abelhas

às belas, cheirosas

 jabuticabeiras —

quando se vestem de branco.

LA 10/008

 

 

A vida é enfadonha,

mas ai de você, se acreditar

que a vida é enfadonha.

LA 10/008

 

 

Até as mais raras joias

o tempo e o uso

fazem perder o encanto.

LA 10/008

 

 

O tempo é a poção

que o ser bebeu

para poder sonhar

e viajar por si mesmo.

La 10/008

 

 

Quem não se acerca dos grandes livros,

dos mestres,

dos buscadores,

dos divinos loucos —

como poderá crescer?

LA 10/008

 

 

O perdão deve ser a natural barganha

dos imperfeitos.

LA 10/008

 

 

Ter muito medo de errar não é bom...

O diabo é que muitas vezes erramos

às custas dos outros.

E aí? Pedimos perdão e pronto?!

Não. Não é tão simples assim.

Não podemos ser cínicos:

errar implica o outro,

não se erra sozinho.

Por isso, o medo de errar existe.

Que este medo não anule o fazer!

LA 10/008

 

 

Guarde a sua força

e com ela se eleve,

eleve a si e aos outros,

que o verão elevar-se.

LA 10/008

 

 

O Capeta não sabia o que fazia

quando criou essa palavra em “ia”

que criou uma outra em “ismo”... Mas já era tarde:

estava feito.

E logo o homem loquaz de terno e gravata

suplantou o tinhoso: tornou-o tão pequeno

e insignificante que nem se falou mais nele —

sumiu envolto em silêncio e desmemória.

Então o Faustiano (com ajuda do Demo)

criou Democracia e Capetalismo:

súditos da Deusa Economia —

úbiqua Miss Bancos do Planeta Terra.

Tal Deusa, fecundada por Deus Pecúnia,

pariu os Gulatras,

e, com a Gulatria,

o Bolo esfarinha:

cresce e esfarinha,

cresce e esfarinha,

cresce e ...

Esfarinha.

LA 10/008

 

 

Para as formigas,

os farelinhos da mesa.

LA 10/008