Curtos, Nem Sempre Grossos

                                    Laerte Antonio

textos 1

Tema:

Ser Pai Não Basta, É preciso Participar

 

    Paiê!

    Fala, Carlinhos.

    A professora falou

      que caranguejo tem dois pênis,

      um ao lado do outro —

      assim ó: como um plugue...

    E daí, Carlinhos?

    Daí que o bicho é fera, pai!

..............................................................................

    E você, Carlinhos, também

      gostaria de ter dois?

    Claro, pai. Bem mais que claro!!!

      Mas assim ó: cada um como um dos lados

      de uma mesma pinça...

    De onde tirou essa imagem, menino?!

    De Dorotéia, pai,

      que senta bem ao meu lado.

..............................................................................

    E você, pai, também não...

    Não, Carlinhos.

    Sou que nem Galileu:

      nada de coisas fixas...

      mas o eixo: o eixo na elipse —

      e o bailado constelado!...

..............................................................................

    Chique, hem pai?

    Chique-et-cetera, Carlinhos.

      Chiques chiliques.

      LA 06/001

 

 

 

 

Síndromes

 

O cara quis rezar de novo,

a mulher aconselhou:

Deixa uns “watts-f ” pra depois,

benzinho, —

senão entras em apagão.

LA 06/001

 

 

 

 

Imputa-se-lhe o dedo

do suicídio do marido,

que amava exclusividades.

LA 06/001

 

 

 

 

Credo Zul...

 

 

 — Em sociedade é assim:

      Se você der o nego come,

      se não der passa vontade,

      e você capitaliza.

 — Credo, Zulmira!

      Você anda romântica...

      Se você der, o nego come;

      se não der, pega à força.

      LA 06/001

 

 

 

                — Conhece esta senhora?

 — Sim, meritíssimo.

 — E então?!

 — De um proceder inimputável.

LA 06/001

 

 

 

Caboclo meteu a tarrafa.

Tirou d’água duas ninfas

( daquelas camonianas! ).

Não vendo ninguém do Green-peace

nem do IBAMA, —

comeu-as.

LA 06/001

 

 

 

Dependendo de quem vem,

elogio ou crítica

nada acrescentam.

Mesmo assim,

elogio não se despreza.

A crítica?

Só ajuda os honestos-consigo-mesmos.

LA 06/001

 

 

 

 

Pois É

 

Só sofremos

aquilo que nos permitimos

sofrer.

Ninguém irá fritá-lo,

se não lhe empresta fogo,

panela e óleo.

 

Se o gajo insiste,

há de sair

com o fiofó fatiado

e à milanesa,

mas tudo sem violência —

pelo desprezo

e lúcida alienação...

LA 06/001

 

 

 

 

Mercovertigens

 

Em subterrâneos, sob os pés do mundo,

fareja-se uma agenda socialista

para um centro universo de governo.

Em termos exotéricos,

isto se chama Globalização.

Tal sentimento traz em si

o integrismo de uma liberdade

e de modos de vida

que são nem mais nem menos que zumbis

identitários —

restos de naufrágio

ante o riso da era do Mercado.

LA 02/001

 

 

 

Mas Nem Por Isso...

 

Ah, o por dentro das pessoas!...

Ver de longe ou de soslaio,

tudo bem —

mas de perto... Ver de perto machuca.

Fica-se com medo,

com medo de si mesmo...

........................................................................

Toda relação duradoura

é um caso de cegueira avant la lettre,

mas nem por isso infeliz,

nem por isso menor

que qualquer outra coisa.

LA 02/001

 

 

 

 

Quem Será...

 

Se não-ver-não-saber

lhe são felicidade —

dê graças a Deus, meu velho,

por não ver e não saber...

Aliás, meu caro,

o bom, o belo só o são —

pelo seu não durar... Isto é:

até que o ver e o saber

sejam vistos e sabidos

não assim tão bom e belo...

.......................................................................

Se o coração não vê nem sabe,

quem será quem pra lhe passar

a ilusão de ver-saber

por um ângulo infeliz?

LA 05/001

 

 

 

 

Lembrete

 

A ciência discursa-explica —

de autocorreção

em autocorreção.

A religião consola —

de fé em fé,

de esperança em esperança.

E em ambas,

a verdade

é o quanto o homem pode suportar.

 

Que o saldo disso tudo

não seja o riso,

mas a beleza

de se esperar,

viver e ser —

mas todos com dignidade.

Se isso é possível?

Para muitos e muitos

o significado de humano

está nesse dia.

LA 06/001

 

 

 

 

Paradoxo

 

Em geral não nos falta

uma capacidade arguta,

terrivelmente lúcida,

de julgar friamente os outros.

Lúcida capacidade

intimamente unida

a um não enxergarmos

— incrivelmente nada —

do que acontece conosco.

LA 06/001

 

 

 

 

Cena

 

Pés descalços pelas ruas.

Pés de crianças.

.........................................................

A tarde dói

no céu de agosto.

 

O vento chicoteia fantasmas

usando ramos e folhas.

 

Poeira, muita poeira

( devíamos ser mais humildes...).

 

E a tarde dói,

não na tarde —

mas lá em mim bem dentro.

LA 06/001

 

 

 

 

Exclusão Criminosa

 

O fato de só poucos se servirem

do que a vida oferece

( em primeira e segunda naturezas )

é o que há de mais criminoso —

e deve-precisa-urge

tornar-se insuportável:

cada vez mais insuportável

esse estado de coisas.

Que assim seja!

LA 06/001

 

 

 

 

SEM DIGNIDADE,

O HOMEM

É UM ANIMAL QUE ESPANTA.

LA 06/001

 

 

 

 

Não poucas vezes, amada,

ficamos entre a cruz

e a estrada.

Se amor gosta de amar,

gosta igualmente de viajar...

LA 06/001

 

 

 

Não confundir

amor com amoras,

que sei: adoras.

Nem com as uvas verdes —

apesar de cheirosas...

LA 06/001

 

 

 

 

Vadiagem

 

Lembra quando a gente fazia amor

com a simplicidade de um selvagem

e a calma de um gambá, sob a ramagem

do ingá, numa inocência furta-cor?

 

Lembra, Joaninha? O céu da noite em flor...

você tão lisa ( em horas de friagem )

como um peixe entre as mãos... A paisagem

amaciada de lua e de torpor...

 

Lembra como era bom pensar em nada

a não ser na seguinte furunfada

e em outra e outras sucessivamente —

 

por dias, meses de vagabundagem?

Depois findou ( após durar eternamente )

a nossa inesquecível vadiagem.

LA 07/001

 

 

 

 

Decreto

 

Ninguém chamará o cônjuge de tarado,

sem antes certificar-se de que tarado é a ...

Nem ao outro de comedor ou boiola —

sem antes pedir perdão pelo que fez

sua mão, sua boca, sua genitália

( há poucas, bem poucas horas ).

Nem a ninguém de burro,

sem antes saber que a nobreza do burro

o mataria de vergonha.

Fica proibido tirar o poeira

do fiofó ou da xireca nas igrejas,

nas ruas, praças, hospitais, velórios...

Proibido igualmente canibalizar

nas procissões, filas de banco,

salas de aula, creches e similares.

O cônjuge do vizinho

só poderá ser solicitado

quando quem o faz esteja há quatro

terríveis longas horas sem fazer amor.

E já que se precisa de proteínas,

ninguém haverá de trocar suas trepadelas

por chocolatinhos, gomas de mascar, pirulitos etc.

 

PS. Foder é coisa séria e o melhor que temos em sociedade.

Somos, portanto, pela sua nunca-jamais banalização.

 

PS. do PS. Este entrará em vigor na data de sua

publicação, na qual (reiteramos) sexo fica intimado a ser

coisa séria, serièrrimíssima: qualquer contravenção (sempre

inafiançável) levará o de-cujando ao pau

pelas varas da Justiça.

LA 07/001

 

 

 

 

Da Série Poemas Sonsos ( 18 )

 

Quem quiser vir para a margem —

aproveite, venha já,

ou não vai achar lugar.

 

Para ser um marginal

há uns certos quesitos

( assim como pra pertencer à elite ):

assunção de perdas-ganhos

( ou vice-versa );

apropriação de um como halo

( de loucura? )

e concessão aos donos e notáveis

daquilo tudo que, por descuido,

( eles, os donos e notáveis )

não tenham ainda levado para casa

ou transformado em dólares

nos “paraísos” criados pelos seus iguais —

onde — sem dúvida — vivem,

saboreiam delírios

e estarão amarrados para sempre...

 

Sim: venha logo,

ou não terá lugar-tempo

( há um tempo para tudo, lembra? )

pra ser um marginal por opção,

um excluído por convicção.

 

Venha, enquanto há tempo,

e saiba: não haverá exibicionismo —

tal escolha e convicção se darão

lá no centro do seu ser:

nas recâmaras do coração.

Há de ver-se, então, como inúmeros:

um excremento...

Sim: uma excrescência —

mas que não vende ao mundo

o dom de sentir-pensar-viver —

um merrrr..., mas um merrrrr... que não abre

mão:

jamais ser pensado e vivido

pelo “glamour”, pelo “charme”,

pelo visgo do mundo.

E desse modo ( sem que talvez ninguém o saiba )

automarginalizado-e-excluído, mas atuante

( porque consciente ) —

bos- ( para o mundo ) -ta —, viverá,

mas com menos vergonha de ser homem.

LA 07/001

 

 

 

 

 

Less Is More

 

Menos é mais,

quando mais

diz ou revela menos —

não permite ao vedor

ou ao leitor adivinhar

a sua própria fantasia —

que há de ser de soslaio:

captando a coisa

pelas penas

ou pelo vôo...

 

A graça então se concentra,

a beleza ganha corpo,

a verdade não precisa

ser demonstrada —

o pouco se torna tudo

e se veste de poema —

menos é mais que suficiente.

LA 07/001

 

 

 

 

Muito Perto

 

Nossa sofisticada

simplicidade,

nossa arrogante

humildade —

por vezes nos convencem

de que deveras são

simples e humilde.

É que de tanto pregá-las

para os outros

chegamos a pensar que as temos.

E assim com tudo mais

de que pensamos dispor.

..............................................................................

Não nos podemos ver, talvez,

por estarmos muito perto de nós.

LA 07/001

 

 

 

 

Noites De Apagão

 

Candelabros houvesse acenderíamos

naquela hora vil, desvertebrada

de bela, suave luz que tenderíamos

a apagar só na última transada...

 

Suas velas, por certo, trocaríamos

pra escaparmos do escuro, em avivada

vontade de fazer o que amaríamos

se realizasse em tripla ejaculada...

 

Em vindo os apagões, logo tratávamos

de ir pra velha cama em que estalávamos

toda a floresta em seu gorjeio glabo...

 

“Velas, velas, amor! — a noite é longa...

Deita, deita-te urgente, sem delonga —

a penumbra arde mais que um candelabro”.

LA 07/001

 

 

 

 

Particular Balanço

 

Marx? Um belo engano.

Um sonho honesto

(enquanto era sonhado).

Freud, mais que a lanterna no cinema —

luz subterrânea: todos os filmes são nós-mesmos...

Joyce, um orgasmo seco de doer....

Mas relinchante...  relinchante orgasmo.

As vanguardas?

Um final de gargalhada.

.......................................................................................

O mais,

além de futuro-do-pretérito,

deverá ser hoje, hodierno-hoje:

bastante hoje-após-cada-manhã.

 

O homem?

O homem haverá de conseguir...

com os direitos de sua inteligência,

mas esquecida de intelectualizar,

de dialeticar...

 

O homem não se perdeu,

só não se lembra de seu rosto...

Por isso anda quebrando todos os espelhos.

Sua razão

há de lembrar-lhe que o seu coração

sabe o caminho.

Sim: o homem precisa achar em si

o caminho de sua casa,

onde o espera,

não Penélope a retecer,

mas a felicidade

que ele foi inventando —

mas nunca viu.

LA 07/001

 

 

 

 

Quantos Passos?

 

Do turvo ao torpe quantos passos?

Laços e laços

pelo caminho.

Intenções enrodilhadas...

No olho do remoinho

o vento anda descalço.

Do turvo ao torpe quantos passos?

 

O basilisco não faz barulho

nas folhas secas...

O que deixa gemer

por falta de justiça

deve valer

o bicho da carniça.

Do turvo ao torpe quantos passos?

LA 07/001

 

 

 

 

Temos de nos livrar

de nossos assassinos —

as nossas ruminações...

Lembrá-las, bem de soslaio,

e de tal modo indiferente,

que mais pareça esquecê-las.

Lembrá-las com um fio de água

caindo sobre elas...

LA 07/001

 

 

 

 

Figuras

 

Pelo mais mínimo problema,

o presidente os levava

( o ministros )

para a mesa quadrada.

Ali, se ninguém solucionava,

era porque não se queria —

pois tinham quatro saídas:

três a mais que uma mesa redonda

lhes permitia.

Mesmo assim, o povão

jamais foi mais feliz

que nos tempos em que as figuras geométricas

ainda não decidiam

na boa vontade dos homens.

LA 07/001

 

 

 

 

Um Caso Paralógico

 

Teodoro Dela Rua Filho,

serviçal do Municipal

( após uma noite constelada

pelos colares de diamantes

mais caros de todo o País ), —

achou, entre a passadeira

vermelha e a presilha do degrau, —

uma xiranha com cara

de fim de festa:

fastio das luzes...

e louquinha por um cachorro-quente.

 

O pobre homem

pegou-a como a um tesouro místico...

beijou-a logo acima do clitóris

( sim: achou-a completa! ),

levou-a para o barraco

e — com infinito amor —

pregou-a numa tábua-de-passar...

e a pôs debaixo da cama.

...................................................................

Y asi pasaba las noches:

quando a patroa dormia,

ele passava roupa a noite inteira,

gemendo orgasmos de Primeiro Mundo.

LA 08/001

 

 

 

 

Agora...

 

O diabo é que agora,

a um bom pedaço do caminho,

elas se revelaram

impiedosas opositoras —

ressentimentos em carne viva...

Fizeram dos corrimãos

bordunas, e outras armas.

E agora?

Agora já sabemos.

LA 08/001

 

 

 

 

         Tira-Gosto

 

Ela adorava colhões de boi,

com muita cebolinha e salsa.

Tinha orgasmos de segurar

nas pernas altas do mordomo

enquanto — lentamente —

os degustava

com talheres os mais nobres.

LA 08/001

 

 

 

 

Pois É

 

Atirou no que viu

e acertou no que não viu,

e olha que não era tiziu —

mas seu amigo que caía

baleado na alcova escura.

 

Tinha ouvido a esposa gemer

sob alguém que não era ele —

apontou nela, e acertou Clóvis —

o pastor que os freqüentava,

e que lhes batizara

todos os seus três filhos.

 

Enfermeiro chefe,

chamou rápido uma ambulância,

enquanto lhe estancava a jugular

com a ponta de três dedos...

O médico mostrou que era bom —

o amigo ( degustador ) escapou:

não-obstante um pulmão lesado,

o escroto rasgado

( a bala fez globo da morte... ),

sendo que se alojara no cérebro,

e ele na cadeira de rodas.

 

Após alguns meses,

o enfermeiro e a mulher do pastor

casaram-se,

enturmaram os filhos

e, para espanto dos lingüistas, —

foram visivelmente felizes.

LA 08/001

 

 

 

 

70%

 

Esquentes não, amor.

Somos 70% de água.

Esquentes não.

Se te evaporas,

viras nuvem:

não colhes mais amoras

( aos domingos à tarde ) pelos pastos —

montada no pescoço do Carlão

( cavalo que leva o nome

de seu patrão ).

LA 08/001

 

 

 

 

Lá E Cá

 

Entre a Sorbonne,

o Louvre e a Cidade-Luz —

aprendera certos brilhos:

não comia nem se deixava comer

a não ser à luz de velas.

No Brasil,

se acostumara

com a maciez crocante da penumbra

e com o romantismo

dos semi-apagões.

LA 08/001

 

 

 

 

Parapsico-econômico

 

Igual a microorganismos,

O Totalitarismo Econômico

opera invisível —

provocando febres e amputações

em todo o corpo mundial.

Parapsico-econômico,

endêmico e por trás do poscênio, —

dita o Script

para que seus atores

façam representar

e — sobretudo — reproduzir.

Seus atores

são brabos capitães-do-mato —

com nomes conhecidos e distribuindo

( com o maior descaramento )

condições-lugares

de cidadania,

de vilania,

de favelania,

de ruania

et ceteranias.

 

Seus “ismos”e “ias”, isto é:

seus intelectuais de manobra —

cuidam de reinventar

a cada dia

discursos que O justifiquem

como deus único e vivo,

e de modo algum responsável

pela Miséria —

aliás: Pobres? Sempre os tereis...

 

Enquanto isto

a sociedade se dissolve

( o Estado foge para seus paraísos...

deixando o povo

nas mãos dos Napoleões ) —

cada indivíduo ( num chão qualquer )

vira um pagador de impostos e taxas

para Alguém Invisível,

que recebe e quer mais.

E a vida canta ensandecida,

não mais à beira-caos —

mas feita caos:

um mar geral de banalização,

enquanto deus-Mercado

conta com a fé de todos os améns.

 

Y así pasan los dias...

E toca ajeitar o prefixo neo (grego!)

aos eternos “ismos”e “ias”

das explicações dos arrivistas.

 

Por isso, Godofredo, (é o nome do meu cão) é que

nem as pernas boas de tango

estão mais dando conta da dança.

LA 08/001

 

 

 

 

Tecno-erótica

 

Comprou uma máquina de fazer amor,

e chamou a vizinha para experimentarem.

Veio tão depressa que deixou o marido

no meio do que faziam...

e, para não dar a volta, —

pulou o muro.

Durante algumas yugas

e várias eternidades,

o consorte ficou se segurando

( com as duas mãos muito cheias ) —

enquanto ouvia os gritos, os gemidos

como de montanha-russa...

Dali a uma, duas, três horas...

a mulher voltou ( pelo portão ) —

esbraguilhada,

os olhos esbugalhados: seguros pelos aros negros

de olheiras elipticamente descolando...

Se jogou no sofá e ( antes de dormir )

disse ao marido ( que ainda tinha as mãos cheias ):

Termina o que começou, amor, termina,

e me faz uma janta bem acebolada —

enquanto durmo até a tarde fazer bico.

LA 08/001

 

 

 

Tempo Escuro

 

Tenho tantas lágrimas pra chorar,

que a empregada me pediu

deixasse para sexta-feira —

dia em que ela lava a cozinha

e a área.

Disse-lhe que falava sério.

Também eu — respondeu-me —

falo sério patrão.

E aproveitou-se de meu estado chuvoso

para pedir aumento,

uma blusa que julgou

eu não fosse mais usar,

mais uma mesa de centro

em que, na véspera,

eu derrubara cerveja e molho.

LA 08/001

 

 

 

 

Dolo Cultural

 

Xiranha é bom.

O diabo é a dona dela.

Há que se rever

esse dolo cultural —

injetar-lhe na veia

boa dose antiviral.

Xite, ô minha!

Homem nenhum é de ferro.

Preferível dar um nó.

LA 08/001

 

 

 

 

              Era Só Ele Beber...

 

Falava muito mal do amigo pra patroa —

que era um babaca, um baita de um putão,

estando mais pra rosas em botão

que pra macho que pega, ajeita, e arpoa!

 

Um desquitado, um manso, um coisa à toa...

Um fracassado: homem de paixão!...

Um vencido, um nanico, um sim-e-não...

Algo mais pra cachorro que pessoa.

 

Sim: um desenganado, um corno, um merda...

( A sua esposa, muda como pedra,

ia ouvindo... enquanto ele arrematava ):

 

E pra desgraça, o André ( nosso Andrezinho! )

tem-lhe os olhos, o andar, o jeito... a voz até!...

Um acaso que muito machucava.

LA 08/001

 

 

 

 

Entre Dois Mourões

 

Todos sabem que os homens são iguais:

não valem nada.

O que bem poucos sabem

é que — sem eles — as mulheres

( claro, sei que as exceções são salutares...

e muitas )

iam ter de criar em seus quintais

asnos, jegues e mulos,

aliás: sobretudo dois muares —

os sempre amados burros

e as tais bestas de carga —

todos pagos ( muito bem pagos )

com uma espiga

presa entre dois mourões.

LA 08/001

 

 

 

 

Incapazes

 

Tens de te libertar dos teus algozes

que te amam para si... porque se sentem,

talvez, algo maior do que se mentem

a um tempo que se fingem áureas vozes...

 

Hás de vê-los, tão-logo te freqüentem

a casa, o corpo, a alma em seus ferozes

enganos, a fingir os seus entroses

no bem, embora contra o bem intentem...

 

Aos que te querem amarrado aos “ismos”

de seus ideológicos cinismos —

é salutar sabê-los descarados...

 

E logo se verão desenganados

quanto ineptos e tolos: incapazes —

tão incapazes quanto contumazes.

LA 08/001

 

 

 

 

            Operação-Carrapato

 

Jeitoso tirarei seus carrapatos —

um por um com a pinça feita de unhas...

Os das partes pudendas, — vários tatos

exigem: outras artes e mumunhas...

 

São bichos sensuais e sem recatos,

a permitir aos dedos façam cunhas

pra adentrarem o esconso dos relatos

da carne em suas dobras e pupunhas...

 

Com calma tirarei esses bichinhos

até dos lábios da frondosa ilhota —

mas com jeito virtual, não com espinhos...

 

Te aliviarei do ardente comichão

e buscarei inusitada rota —

fazer amor do avesso do tesão.

LA 08/001

 

 

 

 

A irmã Mais Velha Da Demo

 

Para os lados da Cleptocracia

é que os ventos vicejam

e azulizam

vinte e seis horas por dia.

Seu aproveitamento éolo-elétrico

acenderia

todas as lâmpadas do mundo, —

razão por que tais mãos

sejam apreciadoras do escuro —

assim quase não são vistas

em seu remoinharem para sua casa

o que é de todos.

 

Irmã mais velha da Demo,

a Cleptocracia

moureja fiel e assídua

com horas-extra e jetons,

reuniões extraordinárias,

propinas-para-aprovar,

auxílios-necessidades

( inventados pelas manhãs )

e coisas que só Deus sabe.

 

A Cleptocracia

irá até quando

A Demo do Demo quiser.

LA 08/001

 

 

 

 

 

                Isso É Bom

 

Pastou como Nabucodonosor,

não por ter ofendido a Deus: por ter nascido

onde nasceu: ter sido um excluído

dos bens terrenos e qualquer favor.

 

Pastou sobejos, mastigou bolor.

Sapos? Sim: engoliu-os bem cozidos,

com maionese, crus, maldeglutidos —

pastou o mundo e o incluso desamor.

 

Não teve como não pastar, nem arma...

Pastar na vida foi seu dom, seu carma —

e de pastar pagou seu dízimo ao pastor.

 

Já um nutricionista linha dura

disse-lhe que capim, fibras, verdura,

sapos: tudo isso é bom, apesar do sabor.

LA 08/001

 

 

 

 

Caso Da Torre

 

Construiu de cabeça para baixo

a sua torre de marfim. E a deu

à esposa que depressa compreendeu —

um viver de morcego: cabisbaixo.

 

E assim dependurada como um cacho,

jamais sua consorte o convenceu

a vir morar em baixo, ao lado seu:

beberiam de um mesmo e só riacho...

 

Ela estaria no último aposento

e ele no primeiro, caso a torre

tivesse o antigo posicionamento...

 

Como não tem, ganhou a liminar

pra ir morar na base: o último andar... Ocorre,

porém, que, ao chegar lá, vê a torre desvirar...

LA 08/001

 

 

 

                     

 

         

Descostura

 

Que muralha de noite nos separa

que não tenha uma escada que a transponha?

Ninguém viu uma face mais risonha

do que aquela que trama, insana e rara.

 

Que fúria ao nosso Instante se igualara,

se ninguém nota o quanto ele enfronha

e nos esconde sua ladra tara

atrás de sua cara sem-vergonha?

 

Se o galo, Pedro, já cantou três vezes,

não adianta matá-lo: o problema

está todo ele em ti, — nos teus reveses...

 

Prometeste não mais pecar... Se tu renasces,

Madalena, não poderei beijar-te as faces —

nem fazermos jamais nosso transema...

LA 08/001

 

 

 

 

História

 

Fora bom, se pudéssemos amar

antes de nos doer por não fazê-lo.

Escalpelar fantasmas... Do cabelo

fazer perucas pra nos disfarçar...

 

Fazer hoje, mais tarde recordar —

sem frustrarmos o tempo nem perdê-lo:

provar do bom, do indizível e do belo...

Sim: antes de sentir saudade, — amar.

 

Então será bem plácida a saudade —

saudade saboreada de memória:

saudade que é lembrar sem ter vontade.

 

Saudade que é bem mais lembrar a história,

sem querer revivê-la, história que há de

ser tão mais bela quanto mais inglória.

LA 08/001

 

 

 

 

Rir

 

Ra-ra-rá! A risada desopila.

Seja fazendo amor, seja no Banco,

para quem xinga ou ora em fé tranqüila —

rir é bom, mas um riso de tamanco...

 

Rir da vida, do amigo, do inimigo,

da honestidade ou desonestidade.

Rir do próprio nariz, do próprio umbigo,

da desventura ou da felicidade.

 

Rir é bom, porque rir nos desconcentra

e nos põe na mais vária sintonia —

a do gato que late ou cão que mia.

 

Ra-ra-rá, fariseu! Por que não entra?...

Rir da espera, do ganho, do prejuízo...

Rir de tudo, inclusive rir do riso.

LA 08/001

 

 

 

 

Bela

 

Bela

como a passividade,

a alienação ante o tirano —

ela passa

sobressaltando olhares

que se coçam

e dramatizam no mental.

 

Bela

igual a covardia computada

na hora da humilhação,

no acme da tocaia preparada —

ela atravessa a rua e entra

no consultório de seu médico,

e é a primeira a ser atendida

da enorme fila que espera, sentada e em pé.

 

Queres ver lá dentro?

Então olha:

na saleta do “eletro”,

a bela quarentona

põe-se nua numa bandeja

feito banana sem a casca —

que o doutorzinho,

baixo e bundudo,

grotescamente feio

( mordendo de lado a língua ) —

vai comendo e fungando

como porco com o cocho cheio...

.............................................................................

Logo em seguida, o homenzinho

lhe assina os papéis do Banco —

fiando-lhe mais um empréstimo.

E bela,

como não confiar —

ela sai,

leve e feliz,

semelhante à estudante

que acabasse de tirar a nota

com aquele professor

que capitaliza o seu nome

fazendo a sua disciplina

a mais difícil do colégio —

leve-livre-feliz, e formada

dias antes do Natal.

Com as sensações dessa estudante —

ei-la ( bela ): atravessa a rua

do seu cardiologista

e se dissolve entre as pessoas —

sorrindo para os outros

como se o mundo todo

— subitamente —

a compreendesse e amasse.

LA 08/001

 

 

 

 

Prece

 

Nos dê o Senhor

uma tão boa morte,

e bela

de fazer grande inveja

aos inimigos.

Amém.

LA 08/001

 

 

 

 

Poema Para Inimigo...

 

O mundo é um velho puto

que vive

com uma velha puta —

bem mais velha que ele.

Nada contra.

Mas não é proibido saber

que os dois ainda não são

o que são.

LA 08/001

 

 

 

 

Agosto De 2001

 

Agora — de repente — somos nada:

aposentados e a virar sucata,

no meio de uma sociedade aguada,

que nos vê como aquela vil barata...

 

Nos vê e trata como coisa-lixo,

uma excrescência, um corpo morto, um bicho

atirado ao lixão da humanidade,

e em compostagem com a hilaridade...

 

Crise, crise: energética e argentina...

Mas não se espante não, ó Josefina,

que eles dizem que a coisa vai passar...

 

E se dizem que “sim”, é porque “sim”.

Gente boa: não há de nos lograr —

só nos quer com nariz e jeito de arlequim.

LA 08/001

 

 

 

 

 

No Bar

 

    Aves são dinossauros,

seu Mané!

       Dinossauros são aves.

       Coisa mais louca, né?

       Taqui ó: na Folha de hoje.

       Dizem, seu Mané, que é só

       montar no DNA de uma ave —

       dar marcha à ré na evolução,

       e a gente se vê

       na cacunda de um dino!...

    Eta baiteza de idéia porreta,

      minha Nossa! —grita

      a mulher do Mané,

      uma cearense arretada,

      formada em Pedagogia

      e lecionando desde nunca.

      

  — Baseado, seu Mané,

       baseado nessa sabença,

       vou ver se pego carona

       no DNA de uma gorila

       até chegar ao ovo

       que “ia” gerar o nosso...

       Então, ó Manezão: como ele!

       Como ele cozido, com pinga.

       .........................................................................................

    Raios! Se me comes de fato

esse malfadado ovo —

não te cobro mais uma só pinga

pelo resto da vida!

LA 08/001

 

 

 

 

Desejo

 

Uma franga jurássica

há de ter coxas e peito

estupefacientes...

Quero comer

uma franga jurássica —

com pena e tudo

LA 06/001

 

 

 

 

Diretrizes E Bases...

 

Faz tempos e desvergonhas

que a deseducação

é o que houve-há

em auges que se suplantam.

Deseducamos sempre que “educamos”

em nome de alguma coisa.

Só educaremos

quando ensinarmos

a não saber.

O que as emoções significam

é o início do aprender sem lesões:

a liberdade não-ferida,

a felicidade sem lágrimas.

O mais é morte,

e o negócio é correr e chegar antes...

O mais é vida,

e o segredo é não pretender sabê-lo.

LA 08/001

 

 

 

 

Enroladamente

 

Estava sempre enrolada,

a cabeça espiralmente enrolada,

pescoço, ombros enrolados:

um enrolado em roscas —

bem afro,

caindo em caracóisssssssssssssssssssss

em caracóisssssssssssssssssssssssssssss

LA 08/001

 

 

 

 

 

Blusa Ruiva

 

Aquele português cuja mulher

lhe mandou ( lembra? )

dar uma pintada no portão...

daí a duas semanas

telefonou à consorte

dizendo que lhe estava mandando

um amigo

para que ela lhe cedesse

sua peruca que — pelo tamanho do moço —

parecia lhe encaixar perfeitamente,

pois que ele estava muito precisado:

devia treinar seu uso e manejo

para representar um drama joco-sério

em sua Companhia...

...........................................................................................

Quando o cônjuge chegou à tarde,

não preciso contar-lhe, inteligente leitora,

como é que os encontrou:

na ponta da mesa —

ele, principalmente,

com uma coisa ruiva

da cabeça ao pé...

LA 08/001

 

 

 

 

 

Visita Em Vídeo

 

Coração bombeando medo.

Latidos de luz fria.

Sensações siderúrgicas

fagulhando termuras.

 

Braços de arame,

beijos de pedra.

 

Em-tudo-dentro-e-fora —

mil e mil olhos.

Loucuras eletrônicas

a acompanhar a loucura.

Em nada ( e a um tempo em tudo ) angélica

essa hiper-real

Los Angeles —

cidade do muito longe

e do perto demais...

Elo do material

e do virtual,

do trágico e do sublime.

Rosto global.

LA 06/001

 

 

 

 

 

Se Não Sabe...

 

Se não sabe o que está fazendo,

coce alguma das partes

( por ex.: os ombros, as costas ).

Os pígios nunca(!)

nem seus antípodas.

Ou... olhe bem para o tempo —

como quem vai filosofar...

Apenas olhe e não diga nada...

Olhe outra vez, mais outra...

e jamais diga nada, a não ser

alguma coisa oracular

com aquela incensada ambigüidade

ainda orvalhada com a saliva

de finória pitonisa.

Alguma coisa surreal —

já dissolvida no ar

milésimos de segundo antes

de ser articulada...

 

Se não sabe o que está fazendo,

deve fazer não-fazendo —

isto é, fazer que faz

ou fazer-desfazendo: fiar-desfiando,

como aquela Penélope.

 

Se não sabe o que está fazendo,

tem de — pelo menos —

fazer bem devagar:

como o aluno

que está de ouvido no sinal

e de olho no professor...

 

A quem não sabe o que está fazendo,

uma boa notícia:

vocês ( que não sabem o que fazem ) são muitos,

muitos mesmo.

Portanto, devagar no seu fazer...

Devagar, que logo termina

o seu mandato ou cargo ou profissão —

e vocês se aposentam. “S’imbora!”

E serão “convidados” a dar aulas

nalguma Universidade ( que charme! ),

onde irão passar aos jovens

tudo aquilo que nunca souberam,

mas que — glamourosamente —

sempre estiveram fazendo.

LA 08/001

 

 

 

 

 

Açucenas

 

A noite sempre traz

seus gemidos de vento,

seus ladridos de libido —

liberação afrodisíaca

lá dos escuros do Id.

 

Vagam almas de princesas

suspirando doloridas

por todas as nossas veias.

Moças do povo também vagam

desfolhando bem-me-queres

sobre nosso desejá-las.

 

Entre almas e pernas

( envernizadas de sol ) —

claro que preferimos

o que é mortal:

açucenas dolentes —

amor e morte.

LA 08/001

 

 

 

 

              Conselho De Pai Velho

 

Esquente não, Eulália. Guarde a calma, —

o pai a aconselhava assiduamente.

Esquente não, que pode virar nuvem...

Somos quase só água...

Cerca de 80% de água, minha cara!

Por isso mesmo, filhota,

mantenha o nível da caixa —

a bóia no ponto certo,

nenhum calor excessivo...

 

Sabe, Eulália, na vida

a gente tem de aprender

a engolir sapos com aleluias

e até pregos

com pedaços de orelha de martelo....

 

Relacionar-se é bicho feio —

entre a onça pintada

e o carrapato miudinho.

A gente anda de orelha em pé

e a coçar entre o couro e o cabelo...

Há olhares que são facas,

sorrisos que são coveiros...

Sentimentos blindados

e palavras de esteira...

com intenções, é claro: fidalgas e santas.

 

Comer o pão com o suor

ou com o sorriso do rosto —

não sei, menina, o que é pior.

Talvez só mude nisso:

a primeira é maldição antiga,

a segunda é maldição moderna.

 

Esquente não, filhona.

Chegue nunca ao risco vermelho...

Não viu nossa vizinha? Subiu!

Evaporou bonito.

Quando o marido viu,

a pobre já não era —

o homem só achou suas sandálias

e — bem no meio delas — duas

perucas:

uma triangular

e a outra elíptica...

Chamou o compadre pra confirmar,

e dele ouviu para crer:

É isso mesmo, André: as duas são da Lazinha —

mesmo porque essas coisas

o tempo

faz doce para comer,

vai deixando de lado no prato...

....................................................................................................

 

Esquente não, Eulália,

que a vida não remonta a vida,

nem rebobina

a sua bela comédia.

LA 08/01

 

 

 

 

 

Ures

 

A morte venha

quando eu esteja alhures,

e cá não encontrando

quenhures —

só leve ( em suas mãos vazias )

sua mortalidade outrures.

LA 08/001

 

 

 

 

Mortais, Bem Mais Mortais...

 

Mortais, bem mais mortais que o homem,

só os seus casamentos,

alianças e amizades.

Esses tais morrem antes,

ou vegetam de viés —

morrem em alma.

Por isso, tantos zumbis,

tantos cascões astrais

sendo levados pelo vento...

mortos, há muito tempo mortos.

 

Mais mortal do que o homem —

só a sua palavra.

LA 09/001

 

 

 

 

 

Unha E Dedo

 

Não morrerei pela verdade.

Também não pela beleza.

Mas pretendo renascer,

fazer-me nova criatura —

por amor da verdade

e da beleza:

unha e dedo da vida.

LA 09/001

 

 

 

 

Endorfinadamente

 

Sem o humor,

o riso,

a gargalhada —

a gente é quase nada:

só uma coisa trancada.

 

Endorfinada,

serotonizada —

a vida é algo mais:

dom assumido e agradável.

Sim, um bom hábito, André,

é aprender a rir de tudo,

mas de tal modo

que rir não seja

ridicularizar —

senão dar a tudo

a importância que tudo tem:

poder tornar-se riso,

riso bom —

porque autolibertador.

 

Se nunca riu de si mesmo,

então faça: ria largo e gostoso.

Desaforo só os outros

poderem rir de você.

LA 09/001

 

 

 

 

Loucos Abismos

 

Absalão

foi duro com seu pai.

Preso entre galhos

pela pujante cabeleira,

foi morto por Joabe

com três dardos no coração.

Zur e Hur

morreram pela espada,

tal como Balaão —

o cínico profeta,

que confundia a verdade,

e aquele que, se abençoasse,

estava abençoado...

se amaldiçoasse,

amaldiçoado estava...

Aquele cuja mula

( com voz humana )

o advertiu de sua insensatez...

Balaão confundia a Palavra —

não entrava

nem permitia entrar...

............................................................................

Não é difícil encontrarmos

Balaões e Balaões pela vida —

tentando substituir-nos

o caminho de sob os pés

por seus loucos abismos.

LA 09/001

 

 

 

 

Hora Construída

 

Ah, veja, minha Zefa,

o que nos construíram:

estamos

empobrecendo e apagando!...

Será que nas proporções

lá entre o “sim” e o “não”,

conseguiremos, minha cara,

não ir para a cucuia

ou para “a casa do chapéu”?

 

Sei não, Zefa. Sei não.

Vamos aproveitar e rir,

rir e coçar —

enquanto nos deixarem fazê-lo.

 

Só nos restaram, minha velha,

o nosso riso e coceira.

........................................................................

Lembremos um ao outro

que a hora que nos construíram

é de ver e gargalhar —

pra não chorar.

LA 09/001

 

 

 

 

Fomes

 

Come-descome-come...

Meu Deus, e essa fome?!

 

Ante-mal-bem-pós-come —

quem souber de melhor tempero

não nos vá usurar o nome.

 

Come-recome-come —

e esse desejo poroso,

poroso igual pedra-pome:

fomes por dentro da fome.

LA 09/001

 

 

 

 

 

Y Así...

 

Quando um deles assumia,

já prometia ( lembra? )

dias cinzentos...

A gente então aplaudia

e nem achava que a esperança

iria se resfriar na chuva...

Sim: a gente se achava lido,

“politizado”

e entendido das coisas...

Auto-suficiente para...

 

Y así pasaban los días...

E os nossos sonhos

se vestiam de saco

e se sentavam sobre cinzas...

Esperavam absolvição

pelo pecado

de a gente falar latim

um pouco acima e abaixo do Equador.

 

Y así pasaban los días...

E a gente discutia

política, economia,

geopolítica e outros “ismos”

e “ias” —

vendo colégios nomearem

aqueles que prometiam

dias cinzentos...

 

Y así pasaban los días...

Depois, mandaram-nos votar —

viramos eleitores

( renascidos de nossas próprias cinzas... ).

E passamos a eleger

homens que se diziam outros,

mas que nos prometiam

aquelas mesmas promessas —

dias cinzentos...

 

Y así pasaban los días...

E aí é que nós vimos —

cinzentamente visto,

que tanto quanto nossos cães e gatos —

tanto assim nós sabíamos votar...

Vimos também que nossas esperanças

morriam de pneumonia dupla —

tão-sempre a aguardar na chuva,

sob céus inventados

e bem da cor do chumbo...

E os dias — carrancudos — se vestiam,

cinicamente, se vestiam

( os empossados sempre em semiluto )

de novos dias cinzentos.

 

Y así pasan los días...

O céu esbanjando azul,

nossa esperança na chuva

e nós vivendo sempre e ainda —

dias cinzentos.

LA 09/001

 

 

 

 

 

Vivo Ou Morto

 

Os povos ricos,

quase o G-8 em peso,

fazem rodar sua esteira

sobre a fome,

sobre os farrapos,

os aleijados,

sobre as crianças, os órfãos,

sobre a desgraça

de um povo, cujo arsenal

tem-lhe a imagem-semelhança —

gargalhadas de ferrugem.

Sua miséria,

juntada ao do Talibã,

é de gente que ri —

porque o extremo da desventura

faz rir.

Um povo a quem viver-morrer

é um hífen com a indiferença —

tão miseráveis foram feitos.

Quando têm milho,

comem com seus muares.

Quando não têm —

comem capim.

Suas crianças pastam —

literalmente pastam.

E não são animais —

são pessoas pessoas:

tal como os belos filhos,

as lindas filhas do mundo.

 

E o chefe desse pool bélico

( que tem a cara

de uma tábua de peroba

ao sol e à chuva

por mais de meio século... )

disse — com riso paranóico —

que vão lutar de-va-ga-ri-nho...

A gente entende:

como quem faz amor bem lentamente,

a empurrar, ao máximo,

o tempo em seu instante-orgasmo.

 

Motivo desse mata  todos:

prender um homem —

uma semente de mostarda

ao vento, aos vendavais

por um país de geometrias

alucinadas.

Tal semente, demonizada,

justificará o extermínio

saboreado aos poucos

— paranoicamente aos poucos —

de todo o Estado

daqueles a quem morrer

é tão bom, tão belo

quanto viver o é

para os seus matadores —

os notáveis, os donos,

os mamíferos de luxo

do planeta.

LA 09/001

 

 

 

 

Até Que...

 

Candelabro acendi nos apagões,

lamparinas, lampiões, também candeias,

velas a óleo, a gás... Forjei carvões,

queimei um pobre armário e três cadeiras.

 

Isqueiros acendi, soltei rojões,

pus fogo até em sapatos, velhas meias;

fiz arder um estrado e dois colchões,

estalar, no galpão, nobres madeiras.

 

Cento e dez guarda-chuvas da ex-patroa...

panos de prato e toalhas, roupa boa,

com pijamas e cuecas fiz arder.

 

Mas qual! Só fumo e escuro... Até que Dulcinéia,

minha vizinha, e eu tivemos uma idéia:

plugar o anoitecer no amanhecer.

LA 09/001

 

 

 

 

Medo Do Medo

 

Tens medo de ter medo, minha Rosa?

Isso é bom.

Agora, medo do medo —

tenhas não,

e o medo vai embora.

 

Fantasma covarde,

o medo sempre se vai

quando se olha de frente para ele...

Se bem que o medo tem seu lado bom:

quem julga saber o que será

está, no mínimo,

ninando um belo engano.

LA 09/001

 

 

                      

 

 

            A Natureza E O Homem

 

A natureza cria e transforma,

o homem cria e destrói.

Na primeira, há um processo

de criar, crescer, madurar

e recriar(se) —

a vida em seus ciclos e reciclos,

segue em geometria de luz.

Já o homem se apropria

da natureza —

desarmoniza seus componentes

e com eles destrói

a própria natureza.

 

Ao infringir a “razão implícita”,

o homem tiraniza

e destrói.

LA 10/001

 

 

 

 

Meio De Uma Conversa

 

       Os nossos meios, minha prima, são honestos.

       Não apenas honestos: são sensatos —

       só nosso objetivo é safadão...

       Mas entre safadeza e sensatez,

       até que dá para ficar com as duas.

       Há safados sensatos

       e sensatos safados.

  — Tendo dinheiro (diz minha vizinha),

       os dois vão bem...

       Seu marido a olhou

       com a ar de temporal

       ( era pastor pentecostal )

       e ela logo assumiu

       ares de honesta —

       sensatamente honesta.

       LA 10/001

 

 

 

 

Morituri

 

Me empresta, Hafiz, a tua burca,

que vou lá fora da caverna

buscar daqueles pães

que os deuses nos despejam lá das nuvens

sobre o chão recheado com bombons...

 

Os deuses nos são bons, Hafiz

( Júpiter os ilumine

com muitos de seus raios! ).

Os deuses nos são bons:

montaram vasto frigorífico —

engordam,

matam

com luvas de água limpa...

A consciência para sempre

justificada.

 

Me empresta, Hafiz, a tua burca,

que os terroristas licenciados

estão jogando pãezinhos de São Blair

embrulhados com lindas bombas...

Lindas e inteligentes.

 

Cuidemos, minha amiga,

do Bruxo não ( ah, quem nos dera!... ),

mas do bucho, que é o órgão

que mais humilha o ser humano.

Enchamos, minha amada, o bucho

com o creme dessas bombas.

E cantemos, Hafiz! Cantemos,

junto com as nossas crianças,

o canto do Desengano —

atrás temos a morte,

à nossa frente o morrer.

 

( Se lhe restasse esperança,

que esperança, ó você,

lhe sobraria em meu lugar? )

...................................................................

Ave, ó Mundo Apoltronado,

os que vão morrer te saúdam!

LA 10/001

 

 

 

 

Quieto...

 

Ele telefonava pra ex-mulher,

quando o marido da vizinha regressava.

Era brava a ex-esposa, muito brava...

Mas... bem pior comer com a mão que com colher.

 

Sim: jabá, quando bem feito, sequer

se humilha por filé chorando sobre brasa...

Se bem que é bem melhor não se ter outra casa

que a do amigo, se (é claro ) ele não estiver.

 

E assim, entre sua-ex e a dos amigos,

ia coçando tanto mais umbigos

quanto mais seus amados viajavam.

 

O diabo é que à medida que cresciam

as crianças mais e mais se pareciam —

e os olhares, que as viam, se espantavam...

LA 10/001

 

 

 

 

Fax Da Amada

 

Olhe, meu Bin:

sei que não vive

com os antolhos do mu,

nem com a ingenuidade

do mimoso caga-sebo

lá das plagas de Cabral,

mas mesmo assim, meu Bin,

quem ama cuida:

para o seu maior bem,

não deixe que o trasladem —

só sobraria ossama,

ou talvez náden.

 

                         De sua amada,

Binbina —

pê-da-vida com sua burca

desde menina.

Alá o guarde

e o vá tornando antimíssil,

meu sapeca!

 

PS

Não se esqueça

de seu banho ( de bombas não ) —

aquele normal-mensal.

De seus paninhos macios...

e de trocar as cuecas.

...........................................................................

Com saudades, aguardo-o

para aquele carneiro assado,

regado a Coca-Cola,

Pepsi & Crush,

que você tanto ama —

apesar de Osama.

De sobremesa ( e matinê ) —

um vídeo bem pornô,

que ganhei de um piloto

loirinho como uma espiga...

 

Mais uma vez, salamaleque!

Um beijo bem na ponta

do seu avantajado

( a noite está de chuva...)

nariz.

LA 10/001

 

       

 

 

Pragamatismo

 

À pragmática liberal

e neobeiral

chovendo no global —

a essa prática pragmática

tão volitivo-voluntariosa,

tornada fé ou possibilidade

de objeto já tocado

e feito realidade —

será preciso — diuturnamente —

com insistência perguntar:

A que preço tal Sonho-Coisa

tem funcionado?

Quem tem arcado com seu sucesso?

Quanto custará aos povos

amarrados aos seus cordéis?

Quantos mais serão excluídos,

quantos mais robotizados

por seu script-roteiro —

nas mãos reprodutivistas

dos escravos alegres

que fazem funcionar

essa Máquina Pragmática

mascarada de liberdade?

Sim: até quando seremos escravos

da “nossa” liberdade?

LA 10/001

 

 

 

 

E Agora, Sancho?

 

Que faço agora, Sancho? Agora

que vejo todo o meu fazer inútil?

Agora que já não posso

combater com meus fantasmas...

Sancho, que faço agora?

 

Que minha “triste figura”

já não mais me socorre...

Sancho, que faço agora?

 

Agora que Dulcinéia

é só o avesso de um sonho...

Sancho, que faço?

 

Agora que não sei o que realizo

com meu fazer de tantas penas...

Sancho, que faço agora?

 

Agora que somei à dos marginais

a minha calma esperança...

Sancho, que faço agora?

 

Agora que o meu ideal

teve a coragem de mostrar-se nada...

Sancho, que faço agora?

 

Agora que aceito o mundo

como essencialmente injusto...

Sancho, que faço agora?

 

Agora que já não me importa

se o meu fazer se esgota ou não em si mesmo...

Sancho, que faço agora?

 

Agora que me vejo entre dois tempos:

um em que creio, outro em que descreio,

e ando colecionando

convicções jamais convictas...

Sancho, que faço agora?

 

Agora que vejo que os tempos só têm fim

dentro dos fins de si mesmos...

Sancho, que faço agora?

 

Agora que estou mais lúcido

que o brilho do meu fazer inútil...

Sancho, que faço agora?

 

    Senhor, só faças

quando o fazer pareça

melhor que o não-fazer:

uma louvável inutilidade.

LA 06/001

 

 

 

 

        Mastucidade

 

A diferença entre os dois

é uma questão

de maturidade e astúcia.

A mulher dá,

e fala que não deu.

O homem não come,

e fala que comeu.

..............................................................

Se um dia o homem

deixasse de ser bobo,

o sexo perderia

sua beleza ladina,

sua graça cabotina

e a disfarçada propina.

 

Deuspai, Deusmãe,

o que o homem não faz

por uma fedegosa?

LA 11/001

 

 

 

       

 

       Que Fazer?

 

       Que fazer com uma e outra coisas

       milcravejadas de diamantes?

       Milcravejados de diamantes,

       jovens e nobres, ambos filhos

       do ouro-negro-líquido —                                                        

       ( régios senhores e donos

       das vacas pretas )

       que em suas núpcias perguntaram:

       Que mais no mundo se nos faz preciso?

    Jogar fora os diamantes,

    foi o que se ouviu de uma voz

       de alguém a um canto,

       tão sereno quanto humilde

       e enriquecido pelo tempo.

       ..........................................................................

       Que fazer, meu Deus, que fazer

       com uma xota,

       com um priapo

       cravejados de diamantes?

    Jogar fora os diamantes,

      depois sim: entrar no gozo da carne.

      LA 10/001

 

 

 

 

Sin: Yo Las...

 

Yo no credo en mujeres,

pero que las quiero, las quiero.

Solo no me gusta levarlas para mí casa —

tenerlas como un amor

terribile y oculto.

Un corazón inexorable...

Mantenerlas con su corazón de pluma,

o como un amor sacrílego y secreto —

pan alegre y felicidad

del vino compartido:

un tiempo de poesia y fiesta,

poesia y fiesta inexorables:

delicadamente burlescas

y ridículas —

pero del amor,

ahora hecho alas satisfechas.

...........................................................................

Sin: yo las quiero, las quiero...

pero no credo en mujeres,

solo en brujas.

LA 10/001

 

 

 

 
Novas Atribuições

 

A vizinha terceirizou

as competências do marido.

Aliviado, o homem suspirou:

Agora posso até dormir.

Sabem o que ela respondeu?

“Que esperança, André! Que esperança!

Você agora fica

pra suplemento de festa...”

Ele aceitou de pronto

e achou gratificante

( a patroa era riquíssima )

suas novas atribuições —

que eram ele fazer cócegas,

               de lado,

               o braço bem esticado,

( com uma pena de gralha )

no cavanhaque lourinho

da xaxola

em pleno ato de terceirização.

LA 11/001

 

 

 

 

Bobódromo

 

Bobódromo global.

Eis-nos correndo

aos silvos, aos apitos

de Dona Economia.

Esta senhora

dita-nos a Verdade e a Mentira

( economismo fundamentalista? ):

o que dizer, fazer, o tom, o ritmo,

o quanto, o sim, o não... ao infinito.

Botou argolas numa só corrente,

prendeu os pés de todos —

paranóia dos elos...

Impossível parar de pé.

 

Economia: o que era lei de casa

virou lei de todas as casas:

Adaptem-se, ou morrem! —

eis o seu brado

maniqueísta.

A diferença virou pecado.

Abaixo a diferença!

Abaixo a túnica, o turbante, a barba...

E os sutiãs de brilhantes, também?

Claro que sim!

Abaixo!

E as xiranhas e priapos

cravejados de diamantes?

Ah, isso dói, só de pensar!

Abaixo!

Abaixo!

 

O diabo, meu senhor, é que, ao som

de “abaixo as diferenças!”,

aqueles 4 bilhões

( os tais que desvivem com 2 reais ao dia...

lembras?... )

estão começando a desconfiar

que também eles têm direito à vida...

 

E então? Abaixo as diferenças?

“Abaix...!

Abai!...

Ab!...

Ah, isso já é abuso!

O próprio Jesus não disse:

‘Pobres sempre os tereis’?”

Pobres, sim. Pobres, sim, senhor, mas

 os-empurrados-para-fora-do-contexto, não!

 

Esses tais, os desviventes,

vão aprendendo coisas, senhor.

Muitas coisas, senhora.

Vão aprendendo a ver, pensar,

sonhar, querer...

Até o desplante de indagar

aos homens de bem

( como o senhor e a senhora ):

Onde os nossos Direitos?

Só queremos o trivial, —

dizem os desviventes —,

o razoável, o “democrático”:

só queremos o básico,

o utópico —

trabalho bom,

comida boa,

casa boa,

bolso bom,

sexo bom,

lazer do bom —

dignidade!

Escusado até mencionar

Saúde, Educação, Segurança...

Escusado.

( Dignidade tem duas faces:

uma de cera, outra normal.

Ou melhor: dignidade

é para quem se faz digno

ou para quem é feito digno?

Quem não se faz nem é feito

caminha pela estrada

da esperança na chuva...)

 

Sim: Dona Economia

dita o certo e o errado,

a verdade e a mentira,

o bem e o mal —

uma senhora

de crença ( e de prática! )

fundamentalista.

Sim: uma senhora fanática,

monoteísta desde sempre —

sempridobrada, com as suas

trezentas e sessenta e cinco faces

— em gesto de quem adora —

voltadas para o centro

de seu círculo-altar:

ofertando ao seu deus Único.

Jamais pergunta

se o que tem por verdade ou por mentira

é ( para uns e para outros )

uma verdade-mentira ou mentira-verdade...

Isto é: se bom,

se capcioso,

se perverso.

Jamais pergunta,

só explica economêsmente

para seus servos,

ou a quem “de direito”:

“Não, não podemos; impossível —

não temos fundos...”

Mas, e os bancos quebrados? —

lhe perguntam os Emílios...

Um silêncio divino.

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E essa senhora faz de cada um

um escravo ( escravo alegre )

da própria liberdade.

 

E o engraçado é que Economia

não tem nenhuma venda aos olhos...

Se tem, é de contato... não se nota.

Os que a vêem distraída dizem

que seus olhos são azuis-fidalgos...

Mas quando se machuca, dá pra ver:

o seu sangue é vermelho.

LA 11/001