a margem espiral

                     lAERTE antonio

                 parte 3 - final

 

 

Põe Na Boca, Moleque...

 

Põe na boca, moleque, o teu apito.

Vê se gritas, acordas o infinito,

e, em bom tom, diz pra toda a sociedade

que não dá pra esconder tua verdade.

 

Bota raiva na ponta do teu grito,

diz ao mundo que dormes no granito —

ao vento, à chuva, ao frio, à feridade,

ao lixo, aos cães, ao gelo da cidade.

 

Põe a boca no mundo: entra de lança

no sossego burguês e sem-vergonha...

nesse tal de Estatuto da Criança...

 

Interrompe um momento a tua bronha,

a cola, o furto, a falta de esperança...

E grita ao mundo: Ei, rato também sonha!

LA 00/11

 

 

Longe, Bem Longe Da Palavra...

 

Longe, bem longe da palavra incerta —

para além da metáfora e do engrama,

mora meu sonho de encontrar aberta

a porta para arder-me em clara chama:

 

dissolver-me de mim pela deserta

estrada de saber-me lume que ama

a aventura de ser a própria oferta

de uma consciência que se fia e trama —

 

e se destrama e outra vez refia

lá pelo transverbal da criatura

em trilhas de querer e de ousadia...

 

E assim me vou por mim, bem ao compasso

de ser, em cada passo, o eco do passo

de eu ter no próprio Deus minha aventura.

LA 00/11

 

 

O Casamento? Orai Por Ele...

 

O casamento? Orai por ele. A sogra?

Não era assim tão má. Nem já rima com...

Outros tempos ( e belos ). Novas ânsias.

Já o vizinho não olha com arrogância...

 

Se a solidão machuca, do outro lado

dela encontramos a pomada. É só

usar, não com o grampinho da vovó,

mas por um meio digitalizado...

 

Saudades? Só daquilo que não foi.

Melhor o carro, o avião, a Net...

do que o bicho de pé e o tal carro de boi.

 

Será que existe isso de almas gêmeas?

Claro que sim, ué! Só que as duas são fêmeas.

Não fique aí parado: a vida não repete.

LA 00/11

 

 

Viuvez De Semana E Meia...

 

Viuvez de semana e meia já

pode cantar o hino até o final...

Nada de meias-coisas: já não há

tais chiliques de ordem social.

 

Sim, senhor: outros tempos! Hoje dá

pra içar o pano até a região glotal,

isto é: até que o cá se torne lá

por um simples motivo deitical...

 

Não me pense o senhor que estou querendo

transformar o cociente em dividendo,

nem confundir o divisor com o resto...

 

Não, senhor. Não e não. Aliás, me apresto

a reafirmar que nesse tempo mau

tal coisa se resolve a pleno pau.

LA 00/11

 

 

Os Três Poderes

 

A paixão é da alma, a inspiração

do espírito. Entre os dois está o Fado e a Vontade,

isto é: a liberdade e a necessidade —

o humano agir e a sua autocriação.

 

Se a vontade hominal muda o destino,

temos a liberdade construindo;

quando o contrário ocorre ( o desatino ) —

tem-se a necessidade decidindo.

 

Entre um e outro, o homem se suplanta:

os embates têm saldo positivo

na cadeia entre o vivo e o redivivo.

 

Quando um desses poderes se quebranta,

a ponto de desviar o nexo-consciência —

um terceiro intervém: a Providência.

LA 00/11

 

 

Farsa Escrota

 

No boteco da esquina,

um bando de cachaceiros,

em doce fraternidade —

lavam sua honra com pinga.

Esses tais serão o últimos

em cujo comportamento

a ideologia enfiou

terríveis caraminholas —

que foram virando... viraram

tão-só uma farsa escrota

de títeres que ficaram

em bandos e bandos sós

( ilhados em suas cabeças ) —

lá atrás do caminho.

...........................................................

Esses tais ( que delícia! ) hoje lavam

a sua honra com pinga.

LA 00/11

 

 

Maledicência

 

A maledicência é um modo

de — mesmo mentindo —

falarmos a verdade.

Como que nos desesconde:

torna-nos mais verdadeiros.

Durante a sua prática,

podemos ver mais claramente

o que somos.

E tal visão, quase sempre,

é motivo de mudança.

LA 00/11

 

 

Quando O Pranto Me Vinha

 

Quando o pranto me vinha, eu disfarçava

e ele, meio sem graça, não chorava —

ficava com o jeito da vizinha,

que dizia que sim, porém não vinha.

 

E a solidão, que sempre era tão brava,

ora ladrava, uivava ou mordiscava

lá dentro em mim, posto que nem convinha

fazer-lhe: Buuuuuuu!... Ela nem medo tinha.

 

Aí, eu me descia pro quintal

e, jogando gamão com meus fantasmas,

víamos que sonhar deixa sem graça o mal...

 

Víamos que o sorriso como o pranto

moram tão perto que, nas horas pasmas,

os dois ficam com gosto de acalanto...

LA 00/11

 

 

História Antiga

 

Um dia ela chegou com aquelas pernas

que me davam vontade de mamão.

Pediu-me que apagasse as três luzernas

para não machucar nossa função.

 

Agradeci-lhe com palavras ternas

por conduzir-me em tal mineração...

dizendo-lhe que nunca havia visto pernas

que me causassem tanto estremeção.

 

Respondeu-me que os homens somos bobos —

nossos chiliques de ferozes lobos

se domam pelos gestos liriais...

 

Disse-lhe que grilhões de ferro são

muitos mais frágeis que os do coração:

bem mais brandos que aqueles culturais.

LA 00/11

 

 

Era Outra Coisa A Vida...

 

Era outra coisa a vida, o amor, o sonho.

A realidade era outra realidade —

algo de algo que viesse assim inconho

e que só fosse em sua alteridade...

 

Era outro riso ( não muito risonho )

o que me ria atrás da opacidade

que eu julgava um olhar, gesto pidonho,

todo feito de sombra e claridade.

 

Era outra a cor dos olhos, outra a face

por debaixo da máscara de alface

que não durava nunca mais de um dia...

 

Era outra a amada, outra a ousadia...

Tudo e nada: outra coisa sendo-sida...

O sonho, o amor... era outra coisa a vida.

LA 00/11

 

 

Alienação

 

Entre o reflexo e a reflexão,

a maioria fica com o primeiro.

Pensar parece andar por espinheiro,

ou conduzir, quem sabe, a lugar-não.

 

Parece conduzir à perdição

dos que se rolam por despenhadeiro...

Um perder-se entre insânias de um roqueiro

mediunizado de alucinação...

 

Pensar conduz ao medo de se ver,

de topar lá consigo por cavernas

cheias de abismos, bichos por vencer...

 

Pensar nos lucifera de luzernas

que nos queimam, nos tiram a razão...

O normal é viver num aquém-reflexão.

LA 00/11

 

 

Sempre Que Os Vejo...

 

Sempre que os vejo conversando,

pego-lhes uma carona

no vácuo da conversa —

e seguimos vazios até nada.

LA 00/11

 

 

Ver(-Se)

 

Se o ver muda o real,

também existe o ver(-se)

para o masocodegustar-se.

O ver(-se)

tornado doença pura —

eternamente recostado

nos psicodivãs:

a dor tornada

em delícias de doer.

LA 00/11

 

 

 

Quem Caiu, Faz Tempinho...

 

Quem caiu, faz tempinho, foi o mundo,

e o que sonhávamos caiu com ele.

Difícil há de ser repô-lo sobre os pés,

já que isso só depende de confiança —

 

confiança uns nos outros e em nós mesmos:

com isso a gente até que construiria,

não um futuro tolo e ensangüentado —

mas um futuro com felicidade.

 

Caiu, já faz tempinho, aquele sonho

que era a argamassa de entre o material

com que a gente ia erguendo o nosso Nexo.

 

Para reerguê-lo só no dia em que

recobrarmos o crer de nossas mãos

que acreditavam no construir de todos.

LA 00/11

 

 

Farei De Vime Uma Gaiola...

 

Farei de vime uma gaiola, e nela

hei de guardar não só as nossas penas

como os cantos no pé de beringela

que ave alguma cantou, nem nas verbenas.

 

Montaremos depois na mesma cela:

a cavalgar por chãos, terras morenas,

entre o cheiro e o verdor da pimpinela —

o vento a flufluar suas avenas.

 

E cansados de tanto fazer nada,

( se bem que não fazer tem seus fazeres ) —

iremos pra cabana abandonada...

 

Faço fogo, abro um vinho e — se quiseres —

fazemos, refazemos, tresfazemos...  coisa e tal...

Tornamos a fazer... do começo ao final.

LA 00/11

 

 

 

Quando Chegasse Então...

 

Quando chegasse então o fim final,

eu bem que adoraria estar fodendo.

Mas, se não for possível, não faz mal —

então hei de lembrar-me de eu fazendo...

 

Trepadas que eram, mas que acabaram não sendo,

mister cumpri-las ainda com mais sal

que aquelas que não eram: com adendo

a explicar-lhes o tom bem mais feral...

 

Levantar todo o tempo não fodido —

e apresentá-lo à vida: olha, mãe,

quanto prazer tolamente não-sido!

 

Permiti-me, Babu, fazê-lo ser

com chiques e fricotes: facultai

que esse tempo se torne em tempo de foder.

LA 00/11

 

 

Se Os Lados Não Te Servem...

 

Se os lados não te servem, que fazer?

Um bom lugar, não raro, é sobre o muro.

Sobre ele, há os que esperam o futuro

e os que se jogam dele pra morrer.

 

Mas ninguém chora ou ri, só buscam ver

como é que é a queda: se o seu baque é duro

e quebra mesmo a cara, e se é seguro

como não precisar... ou ser sem parecer...

 

O mundo sempre apreciou os francos,

e incentivou muitíssimo a franqueza...

Adora os paraplégicos e mancos.

 

O mundo ama o pobre: a boa gente...

Ama os fracos, detesta o homem de agudeza

e abominavelmente inteligente.

LA 00/11

 

 

 

Andar, Andar, Andar...

 

Andar, andar, andar num chão que se desfaz...

Andar, andar até acabar o mundo.

Andar, andar, andar como o segundo

anda nas horas sem olhar pra trás.

 

Andar, andar tal como um ladravaz

fugindo de si mesmo e vagamundo —

sonha por inventar algo capaz

de fazê-lo invisível, mas fecundo...

 

Andar, andar, andar até que a estrada

se torne a antichegada da jornada

feita de fins-começo e de chegar-partir.

 

Andar, andar, andar até que a andança,

em seu pé após pé, perca a esperança

de se encontrar de frente... e se matar de rir.

LA 00/11

 

 

Sinto Uma Dor Que Me Faz Rir...

 

Sinto uma dor que me faz rir... um dó

de mim, que arranco e deixo de raízes

pra cima, enquanto invoco chafarizes

que me lavem da mágoa e do seu pó.

 

Rá-rá, Babu! É preferível só

( e com mulher, Babu! ) do que felizes

êxtases zens a sós... Que diretrizes

se têm quanto ao coçar do fiofó?

 

Nenhuma: pois coçar reclama unhas,

mas unhas que conheçam as mumunhas

da velha e antiga arte de coçar.

 

Mas de que mesmo a gente cogitava?

Ah, já me lembro: a gente merditava

sobre o rir que, de tanto, faz chorar.

LA 00/11

 

 

 

 

Atiro O Anzol E Fisgo...

 

Atiro o anzol e fisgo semantemas.

Com eles me debato ao fundo e à flor

das minhas águas: vão criando temas

que se tecem de um rubro predispor.

 

Tudo parece claros transfusemas

de realidades mil a se interpor —

espiando por postigos de poemas

que vão ganhando corpo de viajor.

 

Lanço, então, minha rede na enseada

que retorna rasgando de pesada...

A vila toda come peixe e pão.

 

Volto, depois, às minhas águas muitas,

num marulhar em alma-coração —

rebuscando fisgar ovas fortuitas.

LA 00/11

 

 

Se A Solidão Não Dói...

 

Se a solidão não dói, não é da boa —

não acrescenta nada ao ser-pessoa.

Nem traz em si a esperança de remédio —

é ponte que quebrou, mora no tédio...

 

No morno tédio. E se auto-apieda à toa —

a ouvir o próprio dó, a própria loa...

E que fazer nesse sentir-se nédio

a ter por porta só o próprio assédio?

 

Ponte quebrada, a solidão é impasse

bem na divisa entre ser e ser-se —

na divisa impossível de se ver...

 

A solidão ( da boa ), em seu doer,

já traz a força para elaborar-se —

o combate, a ousadia em transcender-se.

LA 00/11

 

 

 

Père Lachaise

 

Daqui escuto o ressonar branquinho,

o sono chique lá do Père Lachaise...

E olha que existe o marulhar marinho —

águas e águas: oceano em sudorese,

 

entre nós, minha amada, e o sono lindo

daqueles que o Lachaise acaricia

com fama, glória, heroísmo e ousadia —

um sono-sonho: lindo ( quanto infindo? ).

 

Infindo em seu sonhar que se transcende

e de beleza e glória se reacende

por entre o pó e aquilo que não morre.

 

Um sono-sonho que, descalço, corre

e com os pés sujos de pó e astros —

deixam lá dentro em nós eternos rastros.

LA 00/11

 

 

 

Se Eu fosse Um Velho...

( O Velho E O Mal )

 

Se eu fosse um velho e fisgasse um peixe

maior do que o meu barco —

ah, eu ( também ) não me largava

de segurá-lo!

Lutaria com ele enquanto Deus

me desse força e tutano

( e por que não também colhões

iguais aos desses velhos marrudinhos

a quem só esses tais ainda lhes restam

com uma metáfora,

saudosa metáfora ao meio? ).

 

Lutaria esquecido,

esquecido de mim,

esquecido de tudo

e assim ( não sei por quanto tempo...

quem dera pela eternidade! )

nem me daria pela vida

e suas manhas e mumunhas...

suas frescuras orvalhadas...

suas delícias improváveis...

suas xotices crocantes...

Sim, senhora: em não a vendo,

( não vendo a vida lá fora ),

isto é: vivendo já sem viver-me

( e nem sabendo...) —

a vida deixa de frescura

e a gente pode ser feliz —

mesmo já sem bengala

a procurar

pelos buracos da vida.

........................................................................

E assim de pescaria

em pescaria

a gente até nem se via

a escrever O Velho E O Mal.

LA 00/11

 

 

A Pior Desgraça Humana...

 

A pior desgraça humana, certamente,

seria o homem tornar-se um ser eterno.

Isto, sim, lhe seria o grande inferno,

a desgraça maior, mais inclemente.

 

Se em sua miserável condição,

se no seu cheiro de mortalidade

sua arrogância e perversidade

não podem encontrar suportação —

 

Quanto mais arrogante e insuportável,

quanto mais desgraçado e miserável

não fora o homem feito um imortal?

 

As coisas só são belas neste mundo

por terem o seu outro lado oriundo

de santa Diretriz providencial.

LA 00/11

 

 

 

 

Ouvi Umas Risadinhas...

 

Ouvi umas risadinhas pelo quarto...

Vozes crocantes de crianças...

Cliquei a luz:

As minhas meias

corriam uma

atrás da outra...

 

Sim, estava na hora de lavá-las.

LA 00/11

 

 

Não Sei Aonde Me Levam...

 

Não sei aonde me levam meus sapatos.

Geralmente não sei, e os deixo ir —

maciamente a desviar de ratos,

bueiros abertos, camas de faquir...

 

Sobre as calçadas ou por entre os matos,

gostam do mesmo modo de seguir.

Não apreciam é pisar nos gatos

quando enrolados lá em seu dormir.

 

Como estás vendo, são bem comportados,

cavalheiros até, sempre engraxados,

cadarços enlaçados e impecáveis.

 

Um dia irão a Roma ver o Papa.

Não gostam de galochas nem de capa...

Pra quem não sabe: são insubornáveis.

LA 00/11

 

 

Humanóides

 

Os nababos, Babu, são bons de rabo:

se fartam com o bocado que é dos outros.

São bípedes mimados e de luxo —

seu ego vive cheio de “Eu mereço!”...

 

Os nababos, Babu, pilham-empilham —

São um tipo senil de consciência:

sua fome é maior do que seus olhos —

uma serpente a devorar o mundo.

 

Os nababos, Babu, são molequinhos

que vêem as coisas como seus brinquedos —

são todos seus, só seus, somente seus...

 

Os nababos, Babu, são usineiros:

fazem de gente a hominose: uma farinha...

e do que existe: fazem coisas suas.

LA 00/11

 

 

Engraçado, Babu...

 

Engraçado, Babu, que é a vida: quando

buscamos, não achamos; quando achamos,

já nem buscamos... e, assim, todos vamos

buscando-não-achando-e-achando-não-buscando...

 

Outras vezes, Babu ( não compreendo... ):

nos é dado, mas nós não aparamos,

e escorre como a areia que pisamos —

tocamos, temos... porém, não sabendo...

 

Pior, Babu: se a gente pede bis,

a vida já desvia o olhar sem piedade...

como a dizer: Não deu pra ser?... Pois fosse!

 

Quando ainda bem moço, era feliz,

mas nem ligava. Hoje, a felicidade

procuro, e ela me faz beicinhos de cu doce.

LA 00/11

 

 

 Que Bom: Tudo O Que É Bom...

 

      Que bom: tudo o que é bom

                        faz mal.

      Sim, isto é bom —

      pois faz sobrar a todos

      um pouco desse bom —

      que — sendo pouco —

      já não faz mal.

 

    Deolin-n-n-n-dá-á-á-á-á-á-á-á-á!...

      LA 00/11

 

 

                     Menina De Beijo Bom...

 

      Menina de beijo bom,                   

      com sabor de araçá,

      sabe qual seu maior dom?

    Esse olhar de manacá.

      LA 00/11

 

 

Engraçado: A Gente Nunca...

 

Engraçado: a gente nunca é feliz

com o que tem na mão, ou bem à mão...

Quer sempre o que está longe do nariz

ou dividido entre alma/coração...

 

Se tem no cálice licor de anis,

então prefere pinga com limão.

Há de querer banhar-se em chafariz,

chamando ao bom chuveiro caretão.

 

O existente não sendo suficiente,

busca futuros do inexistente...

Troca papos e leros por divãs...

 

E na angústia da nunca-atualidade,

põe o que pode ser felicidade

na esperança sem mãos dos amanhãs.

LA 00/11

 

 

Cinza, Nos Prometiam...

 

Cinza, nos prometiam dias cinza

( lembram? ) e o povo, às lágrimas, aos urras,

o bolso e as mãos repletos de esperança,

delirava ante a faixa à tiracolo...

 

E, de fato, a partir do outro dia,

iam empacotando o ouro e o azul

dos dias, a trancá-los em cofrinhos

invisíveis que tinham pelo mundo.

 

O povo, assim entregue nas mãos cruas

e sanguinosas dos dominadores,

come-descome-come o pão do Diabo.

 

E nesse céu de ouro e azul ( que sobejavam ),

na ex-Floresta ( que tantos cobiçavam ) —

o povo vê realmente cinza e cinzas.

LA 00/11

 

 

Claro Que Os Sinos Dobram...

 

Claro que os sinos dobram para nós

e em cada um de nós, numa cadeia

de ressonâncias-corpos, ampla e cheia, —

de pulsão em pulsão, de entrós a entrós...

 

Afiada como a lâmina do algoz,

evidente que a morte erice cada veia

de cada criatura que lhe ateia

fogo à lembrança... e adentra um sentimento-nós:

 

todos num só navio com mil portos

de embarques-desembarques-vivos-mortos —

cada-um-é-o-navio-e-cada-um...

 

E há a hora e a vez de cada vivebundo

provar o insólito sem par algum —

frente a frente consigo: só e moribundo.

LA 00/11

 

 

Muitas Vezes Nos Negamos...

 

Muitas vezes nos negamos

a ver o óbvio —

desejaríamos ele não fosse

assim tão lavado, tão futilmente lúcido...

chão de recicladora de vidro —

um sem conta de caquinhos

eriçados, multicores,

perfurante-cortantes —

mas bonitos de se ver...

 

Só a partir do momento

que o vemos ( o óbvio ) e o assumimos —

é que verificamos

que a sua feiúra

tem até muito charme —

e aceitamos o não-ser-aquilo... da vida.

LA 00/11

 

 

Animal Racional...

 

Animal racional pela metade

( se tanto ) satisfeito: é isso o homem?

Sei não. Só sei que a alma é insaciedade —

é abismo de abismos que se comem

 

e se metabolizam na consciência

de não haver sequer trivial satisfação

( aí entre, talvez, o riso como ciência

de aplacar a insaciável ambição ).

 

Animal racional trazendo a morte

pendurada na angústia: é isso o homem,

sem cão nem mão ou nada que o conforte?

 

Sei não. Só sei que o homem é bem mais

que a grandeza ou os males que lhe assomem —

o homem é sempre mais que o homem e seus ais.

LA 00/11

 

 

 

Dor De Corno Ou De Ouvido...

 

Dor de corno ou de ouvido, qual dói mais?

Sei não. Mas esta tem remédio; aquela...

remediada está. Chá de canela

dizem que é bom pra sensações gripais.

 

( Namorei certa moça [e isso já faz

algumas trocas de moedas...] bela

como o sonho não ter erisipela,

que me dizia: “O amor é como antraz...” )

 

Nunca entendera o que ela me queria

dizer naquele gesto de ironia —

pois que tinha o atrasmente celestial...

 

Não sei por quê, mas quase me esquecia:

a moça era enfermeira e, por sinal,

casou-se com o dono do hospital.

LA 00/11

 

 

Tinha Os Atrases Tão...

 

Tinha os atrases tão hidaulizados,

que o doutor-fazendeiro, mal a viu,

roubou-a do marido e, qual tiziu,

recobria-a de cantos pulipiados...

 

E passavam-se os dias, vertebrados

e erigidos dos sais daquele sonho

de quanto mais pidonho mais inconho —

dias profícuos, lento-trabalhados...

 

Mas... a musa do lar evém da Europa!

E agora?!!

                 Ele pegou mulher e roupa

e pessoalmente as ( fez questão ) leva ao marido.

 

Este a recebe muito comovido,

e brada à vizinhança, ao céu, ao vento

que a oração lhe salvara o casamento.

LA 00/11

 

 

Banimento

( Ou Hedonismo Hodierno )

 

De mim esconde a morte, ó Virgem Santa,

livra-me de pensá-la ou de lembrá-la,

seja-me tão constante o ignorá-la

tal como a pedra ignora almoço e janta.

 

Viver de forma alienada, e tanta,

que a realidade seja desprezá-la,

e a voz do mundo seja muda, e a fala

seja tão clara como a de uma planta.

 

Lancem-se os corpos lá no mar profundo...

e a idéia clássica de cemitério

seja de vez varrida deste mundo.

 

E o carpe diem seja o eterno lema,

tendo a ventura como claro emblema —

viver seja isto-agora em riso sério.

LA 00/11

 

 

O João De Barro Explode...

 

O joão de barro explode em gargalhadas.

O vento passa erguendo a saia verde

das laranjeiras novas, replantadas...

Uiva de saia em saia, e após se perde...

 

A manhã são mil seios nas ramadas,

usando sutiãs azuis que o vento

mostra ao abrir os ramos em lufadas,

gemendo e fecundando em sonhamento...

 

Mais longe, o canto esparso das ceifeiras

se mistura com o sol e as laranjeiras —

e a cantilena ajuda a suavizar

 

o calor, os espinhos, as canseiras,

o salário aviltado... E o vento, a uivar,

morde o rosto das moças a cantar.

LA 00/11

 

 

 

 

Jeito Zen

 

Dançai, gente! Dançai-dançai. A cada

mudança cambial: dançai-mudai —

tal qual a orquestra mundial vos vai

tornando a dança mais globalizada.

 

Dançai, e conservai equilibrada

a vossa e-loucura-sã... Dançai.

Dançai, senão peteca vossa cai...

Dançai, mas preservai a alma aquietada!...

 

Conservai vossa louca sanidade

com muita bossa e zen-serenidade —

sem perturbar a paz do vosso ser...

 

É assim que vos querem, gente amada:

cada vez mais feliz com a tarada

da vossa vida, — entre zen ser e ter.

LA 00/11

 

 

 

jazz

 

Mediunizado de si mesmo, o jazz

reconta no ar a realidade, inventa

( já reinventando ) em via, ora nevoenta,

ora diáfana, — da cabeça aos pés...

 

Sim: da cabeça aos pés ou, de viés,

em recriada estrada sempre isenta

de termo-fim que, aliás, só acrescenta

( em espirais ) ao meio, ao alto, ao rés...

 

O sofrimento, o riso, o improviso:

o improviso, o sofrimento, o riso —

alumbres cancionados de anjos-luz...

 

Liberações de sonhos-sonhamentos

de sentimentos-coisas-pensamentos —

automediunizados fluindo a flux...

LA 00/11

 

 

 

Calma, Meu Velho! Calma...

 

Calma, meu velho! Calma, coração.

Se te partes de amor, me enterras todo.

Assovia uma valsa, encontra um modo

de mudar esse réquiem em canção.

 

Réquiem?!! Pois sim: viremo-lo do avesso —

aquele com um fim sem um começo...

Pode morrer o que nunca nasceu?

Claro que não! — diria seu Abreu.

 

O que é, o que é: É exigente pacas —

pois quer do rosto a simpatia e o suor,

e quase sempre acaba em duas macas... ( ? )

 

É ele mesmo!, e se assemelha à asma:

pior do que ela só o seu fantasma...

O coração? É sempre de menor.

LA 00/11

 

 

Uma Lembrança Má...

 

Uma lembrança má foge a cavalo...

Vai pro diabo ( infeliz! ) que te carregue!

Teu próprio pai te execre e te denegue

por noite negra de corisco e estalo.

 

Esporeia teu luto! E cavalgá-lo

te seja a pena que jamais sossegue!

O teu galope a parte alguma chegue —

a não ser a veredas de iniciá-lo.

 

Chicoteia o teu ódio! E, de feri-lo,

te aumente a longa desesperação

no coração sem paz, jamais tranqüilo!

 

E basta ( creio ) para se notar

que a vida, sem recíproco perdão,

não terá luz, nem pés de caminhar.

LA 00/11

 

 

Se A Beleza E A Verdade...

 

Se a beleza e a verdade

se encontram possuídas

uma da outra —

então nosso sentir-pensar,

nosso fazer-criar

estarão cheios da glória

de alumbrar-se

daquilo em nós que não morre.

 

A verdade-beleza

são os sais do sonho

a esgalhar-se

pela árvore da vida.

Nossa mortalidade

só não pára na morte

porque o Verbo de Deus

é a encarnação daquelas duas.

Sim: o Universo,

a matéria ( biopsíquica )

está prenhe do sonho

do Espírito de Cristo.

LA 00/11

 

 

 

Falta, Uma Fal...

 

Lealdade...

escrita sobre o pó

de uma grande mesa

numa casa fechada há muito.

 

A pessoa que a zelava

não sabia absolutamente ler —

por isso apagava sempre

aquelas letras

que não sei quem desenhava.

Apagava tão facilmente

assim como faz o vento

com um rastro de réptil

em árido caminho.

 

Um coração alérgico

aos silogismos da esperança.

Um arrepio ao pó

de lugares fechados —

silêncios-ácaros-fungos...

Um cheiro sensual-mortal.

Falta, uma falta de...

Um redoer mascado

pelo lembrar.

LA 00/11

 

 

 

Mais vale uma xota ao lado

do que mil te prometendo.

LA 00/11

 

 

 

    Saudade dói?

    Dói e lateja.

LA 00/11

 

 

 

Vamos Dançar, Amor...

 

Vamos dançar, amor, vamos dançar

a valsa vienense sobre um poste.

Quem sabe o velho tédio desencoste

e vire um mu charmoso e vá pastar,

 

correr, pastar, correr e relinchar,

correr, correr e, em seu correr, emboste

trilhas por onde nosso olhar se mostre

pasmado ante seu pinto a balançar...

 

e a fazer rir a nossa velha angústia

que com um certo jeito até deguste a

cena em seu aprazível picaresco...

 

Senão a valsa, amada, — serve um tango.

Senão comigo, — com o orangotango,

desde que o bicho, amor, não seja fresco.

LA 00/11

 

 

 

Transpôs ( A Idéia ) A Vau...

 

Transpôs ( a idéia ) a vau do pensamento,

e aguardou entre a praia e não saber-se

o terreno de esplêndido momento

para a semente em árvore fazer-se.

 

Árvore poderosa de um intento

que não nasceu em mim, mas do tecer-se

dos inúmeros fios do argumento

que há de ter o seu lúcido interesse

 

de erigir-se em factível edifício

onde estudo, pesquiso e aprendo o ofício

de recriar-me para transcender-me.

 

Ofício em que morrer é o de somenos...

e o fazer não é coisa de pequenos.

Ofício em que viver é ser em ser-me.

LA 00/11

 

 

 

No Entanto, Temos De...

 

No entanto, temos de levá-la a sério

( a sociedade ) até à gargalhada —

ir-lhe mostrando o ranço deletério

e o ar de meretriz glamurizada.

 

No entanto, temos de levá-lo a sério

( o amor ) até o mais lúcido deboche —

cocote antiga de barroco broche,

cujo caldo engrossou o cemitério.

 

Também levar a sério a amizade

que juntamente com a fidelidade

sempre legaram o mais belo riso...

 

Levar a sério a pobre da vizinha

que de tanto ficar sozinhazinha —

acabou por perder todo o juízo.

LA 00/11

 

 

 

De Vez Em Quando Assenta-Se...

 

De vez em quando assenta-se ao meu lado

um amigo esotérico e ex-aluno.

Daí decorre um papo acebolado

com carne de mamute e sola de coturno...

 

E piora o cardápio: um ensopado

de cobras-sapos-ratos: caldo bruno —

fumegante no prato, e já empurrado

boca a abaixo... sabor inoportuno...

 

Fico a rir de nós dois, observando

como é fácil falar: ir fabulando

coisas em que se quer acreditar...

 

Nossa pobreza sempre se desviando

de a Deus, a nós e ao próximo amar —

como ponto de todo começar.

LA 00/11

 

 

 

Entra No Ritmo De Uma...

 

Entra no ritmo de uma canção

qualquer, meu coração, e solta a franga!

De preferência, uma canção de tanga,

sambando solta em sem-vergonhação...

 

Dengues de Cama-Sutra, coração, —

lisos, leves: de alguém chupando manga

com aqueles fiapos de xandanga —

fininhos, claros em pentelhação...

 

Frescuras, arrepios e pulsões

em horas sedas, cheias de lisuras,

de segundas e quartas intençoes...

 

Uma canção com todas as solturas,

mil fricotes, chiliques e frescuras —

cantada em três ou quatro impostações.

LA 00/11

 

 

Se O Que Dói Se Apieda...

 

Se o que dói se apieda do que dói,

acaba doendo uma dor dobrada —

existe o pé que anda pela estrada

e aquele que em andando a constrói.

 

Ao delicado, o mundo vem e o mói.

O ressentido tem a mão atada:

sua mágoa lhe torna a vida em nada —

repleta do seria que não foi...

 

Sim: toda frustração será cobrada

com juro, correção, coisa inventada

e fantasmas com frio a fazer bu-u-u-u-u-u-u!...

 

E aquele que não cai na gargalhada,

direto cai no bico do urubu —

que então começa por comer-lhe o cu.

LA 00/11

 

 

 

A Beleza Dos Lírios...

 

A beleza dos lírios amarelos

sobe, mais uma vez, por finas hastes.

Vede-a: não é a mesma que apreciastes,

ano passado, com os mesmos zelos?

 

Não é a mesma beleza que ofertastes

entre versos, cartões os mais singelos —

brotada dentre o chão e o sonho em elos

de sombras-brilhos que tão forte amastes?

 

A terra de setembro os vê brotar,

assídua, pontualmente ano após ano —

bem mais humanos que outros vegetais...

 

Olhos que os vêem costumam perguntar

se entre tanta incerteza e certo engano

verão mais um setembro em tons liriais.

LA 00/11

 

 

A Torre De Marfim

 

A torre de marfim caiu. Matou

( se não erro ) o último nefelibata,

sepultado bem entre um democrata

e velha china que se envenenou.

 

Dizem que o tal da torre nem notou

que ela inclinava como um acrobata...

nem aceitou salvar-se na gravata

que a vizinha, bom grado, lhe achegou...

 

O gajo ( contam ) foi-se porque quis —

e até esboçou um gesto de feliz

quando virou pro canto ao expirar.

 

Falam que alguém tentou negociar

o material da torre de marfim,

mas que eis... virou sapatos de arlequim.

LA 00/11

 

 

 

Canção Para Elisa

 

Por que esperar por quem não vem? Ansiar

pelo gosto da angústia de esperar?

Melhor não fora, nesse desespero,

dizer que te amo, mas que não te quero?

 

Por que fingir que estás quase a dobrar

a esquina onde plantei o meu olhar?

Por que fingir, se sei não ser sincero

esse não te querer, enquanto espero?

 

Manhas do coração a disfarçar

( com vergonha de si? ) o que seria,

entre o vento e o areal, seu chafariz?

 

Manhas cansadas desse andorinhar

fingindo não ser água a água fria

em que se banha o seu feliz trissar?

LA 00/11

 

 

Vivo A Escrever Só Para Ver...

 

Vivo a escrever só para ver se passo

por debaixo do pêndulo... e me safo

da tirania desse descompasso

de passado e futuro. E já me estafo

 

no agora ter de desvendar o baço

dessa realidade que engarrafo

como a um gênio ( veado ) lá do espaço,

e agora preso, sem o verbo e o bafo.

 

Escrevo para ver se esse futuro,

que finge vir de frente ( ou sobre o muro ) —

me venha então maduro pelas costas...

 

E, assim, possa remir o meu passado —

não deixá-lo pisar, desmemoriado,

seus bichos, suas taras, suas bostas.

LA 00/11

 

 

 

Redundâncias Saradas...

 

Redundâncias saradas e rotundas,

exuberâncias, curvas, reentrâncias,

seios aeróbicos, sovadas bundas —

lanças-reentrâncias-mil-exuberâncias.

 

Calipígios orgasmos e jucundas

xotas marulham satisfeitas ânsias...

E a noite é só latejos e ganâncias

de cópulas agônicas, facundas.

 

Cosmopolita ardência, fúria-zorra —

vai jorrando e escorrendo um mar de porra

pelo globo terráqueo em coaxos guapos...

 

As estrelas, com cara de cocote,

já vão fechando os olhos... e o decote...

Cai para um terço o coaxar dos sapos.

LA 00/11

 

 

Uma Semana No Caribe

 

Insalivei meu verbo, e ninfas vieram

servir-me abacaxis, mangas e pêras —

vertebrei os meus sonhos e quimeras,

comendo coisas várias que me deram.

 

E dessa mordomia provieram

outras: todas sem máscaras nem ceras...

Sim, todas muito táteis, reais e veras —

ensinaram-nos tudo o que aprenderam.

 

E eram tantas as coisas que nos davam,

tão generosamente nos tratavam,

que essa estada deixou saudades-queixa...

 

Dentre as filhas das águas, uma havia

que me pedia (  atrás da luz do dia )

lhe rachasse bem lento o “)(” da ameixa ...

LA 00/11

 

 

 

Um Amigo É Demais...

 

Um amigo é demais( nem precisava

tanto ), mas, se tiveres um amigo,

guarda-o, conserva: rega, estaca, escava...

Dizem que é bem melhor que um inimigo.

 

Se bem que o inimigo até nos lava

e abre os olhos: previne do perigo...

Já com o amigo a gente até deprava:

dá-lhe as costas ( ! ), julgando-se ao abrigo.

 

O inimigo é o eterno desafio

para nós e ele próprio: o pobre lio

entre amarmos a Deus, ao outro e a nós.

 

É claro que a amizade desengana —

falta-nos fenda... falta-nos entrós...

Amigo ou não: é condição humana.

LA 00/11

 

 

Meus Pés Têm Os Grilhões...

 

Meus pés têm os grilhões da gravidade,

mas minhas mãos voejam de lugar

em lugar, como sombras de ave que há de

atravessar os mitos desse mar.

 

Tanto entro em ira como em piedade.

Ouço estrelas madames a cantar

sua traição, sua infidelidade,

e/ou sua vontade de esmagar...

 

De minhas mãos também percebo o medo

de fazerem o mal ou serem molestadas...

medo de resvalar no cimo de um penedo...

 

Meus pés? Medo do escuro, cobras, fosso

de elevador e estradas bloqueadas...

Meu espírito? É calmo esse moço.

LA 00/11

              

 

 

Andavam Por Aí...

 

Andavam por aí, tranqüilamente, —

passo fofo, descalço, cor de vento,

disfarçados por trás do pensamento —

atrás do nosso medo adolescente...

 

Andavam por aí, sem dor de dente —

sem desemprego algum e sem tormento.

Tinham por vezes, cor de sentimento

ou se mimitizavam de silêncios...

 

Eram antigos, velhos companheiros,

sempre leais e nobres escudeiros —

a sonhar realidades imortais...

 

Assíduos companheiros de jornada,

fazendo da esperança a sua estrada —

mudando pedras em canções triviais.

LA 00/11

 

 

Oh-la-lá! Quanta Angústia...

 

Oh-la-lá! quanta angústia nesse mundo.

Não fôssemos de circo, minha musa,

já tínhamos levado nas oclusas

o que jamais negou Monge Rotundo.

 

Antigo, Zefa, como andar na fiúza

dos outros, é confiar por um segundo

no insalivado lero desse mundo.

Faltando camisinha, usa-se a blusa.

 

Bom é não confiar nem no papai

que passa pra mamãe o que esta santa

também pode passar para papito.

 

Vai, musa Zefa, vai pentear teu ócio, vai!

Esquentes não. A vida é isso pra mais tanta...

Cantes não. Sopra aqui: toca esse apito.

LA 00/11

 

 

 

 

Poetizar O Banco...

 

Poetizar o Banco tem seus sais...

A loucura também tem poesia:

o roubo, o luxo, a fome, a anomia

são bem patéticos, — portanto iguais

 

a todas as demências desiguais

aos poemas econômicos do dia:

os demônios da pan-economia

com suas intenções virtuais-fractais...

 

A estrutura do mundo está amarrada

ao jeito de pensar-sentir-fazer

que recria a estrutura estruturante...

 

O homem construiu-se uma louca estrada —

aquela que se perde em ser de ter...

Não sabe ser caminho-caminhante.

LA 00/11

 

 

Ser-Ter

 

Os donos, os dominantes,

por através dos séculos,

foram — jeitosamente —

engendrando, na cultura,

ideológica oposição

entre ser e ter.

Você viu no que deu

e no que está dando —

isto é, parece

que a Astúcia tem vencido.

 

Para o homem poder agir

no mundo

e desenvolver a sua aparelhagem

hominal-volitiva —

ele precisa do binômio

ser-ter:

ser, o viajante;

ter, a viagem, —

em duas palavras:

corpo e moral.

 

Este milênio entrante

vai cobrar ao homem

o que pertence ao homem —

gritando-lhe ao ouvido

que o cinismo já não cabe.

LA 00/11

 

 

A Boca Rósea, Ágil...

 

A boca rósea, ágil, fresca, alegre —

muito de asa, de flor, de vôo e sombra —

sonho a se materializar, entregue

ao ar, entregue ao ar... gizar de pomba...

 

E eis esse mesmo rosto: lábios, dentes

em gestos e meneios: olhos, queixo,

faces, cabelo, voz, riso, pingentes —

tudo montando o eixo-semblante, o eixo...

 

em cujo entorno forma-se a aura, o clima,

o magnetismo pessoal, o ar,

toda a expressão: o glamour, essa enrima...

 

Um todo belo-raro-salutar:

beleza desfolhando luz e graça,

charme chafarizando em plena praça.

LA 00/11

 

 

Por Que Será, Senhor...

 

Por que será, Senhor, que nos deixaste

com essa falta sempre em falta? Um vão

impreenchível em alma-coração:

um doer, um autodoer, um sempre-engaste...

 

Será que desse jeito nos criaste —

com essas dores-insatisfação,

pra que do próprio mal que nos legaste

a dor fosse um não-sim... um não-sim-não?

 

Graças Te damos, Pai, que esse vazio

tem entre nós um escarlate fio —

sempre sustido pela Tua mão.

 

Misericórdia, e não o sacrifício!

A alegria, Senhor, nos seja o ofício

a dar-Te glória e achar satisfação.

LA 00/11

 

 

Soneto? E Por Que Não?

 

Soneto? E por que não? Se tem a cara

de quem faz, há de ser engraçadinho.

A menos que nos dêem outro caminho,

então abjuro em nome da preclara...

 

Dentre os tais da lixeratura, um cara,

de glorioso nome, fez beicinho

pro soneto, dizendo que finara

com fulano de tal, um seu padrinho...

 

Fez previsões, profetizou os bons,

disse quais eram maus e meios-tons...

Chamou de engraçadinhos uns, tarados

 

outros. Errou: dez anos desmentiram

seus chiliques e tudo o que previram.

Era um homem de dons enrodilhados.

LA 00/11

 

 

Não Obstante...

 

A vida é uma loucura de improviso,

em que os sensatos sempre lutarão

( com toda a nossa alma e coração )

para mudar o sofrimento em riso.

 

Já foi bonito até perder o siso...

confundir sentimento com razão,

e achar maior razão na emoção...

Mas não faz mal vevência com juízo.

 

Morrer de amor foi belo, e de aventura.

Foi honroso o duelo e elogiada a loucura.

Glorioso ser herói e estar-se por um triz...

 

Hoje acabou tal graça. E o melhor mesmo

é não trocar o rumo pelo esmo

nem coisa alguma pelo ser feliz.

LA 00/11

                         

 

O Meu, O Teu, O Seu...

 

O meu, o teu, o seu...e quanto ao mais,

que nos ajude Deus. Não foi assim

que se viveu, se vive nos anais

e nos nasais desde começo-fim?

 

Foi sim. E é assim, será assim: os ais

dos pobres que se curem com capim...

sua fome que vá plantar batatas,

calcem seus pés o chulé do arlequim.

 

É assim, e não se abre: é maktube,

é ideologia, é norma lá do Clube...

é coisa aceite e quase sem juízo...

 

Mas o mundo já vê, mesmo entre os brutos,

que o que foi posto em leis e em estatutos

é preciso expandir-se em bens e riso...

LA 00/11

 

 

O Mundo Quer Queimar-Te...

 

O mundo quer queimar-te as fantasias

e te fazer vestir o seu fardão.

Em geral quer trocar-te as utopias

por um viver que diz ter pé-no-chão...

 

Até as tuas santas alegrias

de seres um “calhorda” ou “covardão’’

quer mudar-te, — insinuando-te “logias“

que te façam um novo “cidadão”...

 

E haja ...lhões pra tais ideologias

ouvirem com paciência-rejeição,

fazendo as virtuais analogias...

 

Haja-os! pra perguntarmos ao Patrão:

Jogamos fora as nossas coesias —

e o que nos dás, além de um bem grandão?

LA 00/11

 

 

 

Felicidade, Morte...

 

Felicidade, morte, e tudo é vida —

que nada cobrará pra ser vivida,

senão o preço justo da ousadia

de viver com coragem cada dia.

 

( Por saber que a vingança da alegria

sobre o luto é torná-lo em melodia

de vida: antes que a rábula atrevida

do pó faça do beijo uma ferida. )

 

E que fazer, senão acreditar

que, embora seja tudo uma mentira,

é na verdade que o mentir respira?

 

Que mais fazer, senão querer ousar

enquanto a própria vida nos confira

a graça diária de perder-ganhar?

LA 00/11

 

 

Com certeza, o gato mia

porque não sabe latir.

LA 00/11

 

 

A Roupa Suja Já...

 

A roupa suja já apodreceu.

Se lhe lembramos a sujeira , é que

em nós ainda a conservamos, e

não a roupa que já desvaneceu.

 

Foram-se a roupa e o rato que a roeu

dentro do tempo, e o tempo também se

foi para outras prateleiras de

giros outros... e um outro os sucedeu.

 

E, no entanto, a lembrança inda está suja —

como o agouro do pio da coruja...

que só fez mal a quem no agouro creu.

 

A lembança está suja, e pra limpá-la —

só a água da graça a depurá-la:

gotejando no vaso fariseu.

LA 00/11

 

 

OLIGOQUETO’S

 

Era um especialista: olhava, e pofe!

Só lhe escapava mesmo o tipo bofe...

esse que serve aos tímidos e ao pobre,

e ( por que não? ) ao decaído nobre.

 

Olhava, e pofe-pofe! Degustava,

e não coisa qualquer, mas de áurea cava —

coisa de formigar, deixar boboca,

de dar chilique e muita água na boca.

 

Olhava, e pofe! Enfiava na fieira.

Tantas, segundo alguns, que até fariam

correr cortinas de uma rua inteira...

 

Y Assí pasan los dias... Pofe! Pofe!

As estações e os anos também se iam...

E os pofes!, pofes! se tornaram pufffffff...

LA 00/11

 

 

Sua vida foi difícil: era um homem

abominavelmente inteligente.

LA 00/11

 

 

Um dia ela virá,

e, jogando-me num buraco,

me tirará deste abismo.

LA 00/11

 

 

Se O Vento Não Gerar...

 

Se o vento não gerar as ventanias,

o poeta não fizer os seus poemas,

o padre não rezar as litanias,

a terra não construir as suas gemas;

 

Se o mar não florescer as ardentias,

a luz não marchetar seus novos temas,

nem reinventarmos outras alegrias

que sejam nossa força e estratagemas;

 

Se o amor deixar de ser o desafio:

a água potável de um infindo rio;

a fé não for o já termos chegado

( embora ainda estejamos deste lado ) —

então nossa esperança, companheiros,

não será nossa paz, nem seremos herdeiros.

LA 00/11

 

 

O Homem Carrega As Suas...

 

O homem carrega as suas fantasias

lá em sua intenção de ser feliz.

Pirografa a jornada de seus dias,

e segue herói, com sua flor de lis...

 

Leva as suas secretas alegrias

que ele, só ele, sabe belas: de um matiz

que lhe reflete n’alma as ardentias

desse mar que é ele mesmo por um triz...

 

Leva na sua carne constelada

as canções que aprendeu por sua estrada

e as caras ilusões, seu jogo interno.

 

Só ele sabe, num alumbre eterno,

o que é sonhar dentro do Sonho: o que é

o seu amor, sua esperança e fé.

LA 00/11

 

 

Vês Quanta Dor Mesquinha...

 

Vês quanta dor mesquinha e desgrenhada?

Muita aflição no humano coração —

embates desiguais: luta acirrada

por ter e ser, mas quase sem noção...

 

Como em tempos quaisquer: uma nonada

de vida a gerar tanta inquietação —

sempre a riqueza muito concentrada,

sempre a pobreza em vil repartição...

 

Que nada disso te enfraqueça. Antes,

te escudes com diploma e profissão —

nunca te alcance a mão dos dominantes.

 

A Deus, ao próximo e a ti mesmo: saiba

teu ser o que lhes deve. Em ti não caiba

senão as mãos de ousar-te a recriação.

LA 00/11

 

 

Nos Dezembros Molhados...

 

Nos dezembros molhados, goteando

nas latinhas cantando nas goteiras,

os olhos no sem forro das cumeeiras,

aos bocejos, o sono ia chegando.

 

Minha avó, as histórias recontando,

sentada ao lado, bem na cabeceira,

ia contando contos de sereias,

até meus olhos fossem se fechando...

 

Navios, velas, bochechudas velas,

fúrias do mar, rochedos com fantasmas...

iam-me desfilando em grandes telas...

 

Quase transpondo o sono, ouvia o tom pidonho

de suas orações em italiano ( pasmas )

que ela trouxera lá detrás do sonho.

LA 00/11

 

 

Falava Sempre A Sós...

 

Falava sempre a sós seu pensamento,

rodeado de macia solidão.

Ouvindo-o, vinha-lhe o presentimento

de que a saída estava bem à mão...

 

Saída para ser um só intento

com ele ( o seu pensar ) em oração

verbo-litúrgica de confluimento

de todo o ser com sua relação...

 

E, assim, poder passar do centro aos flancos

gozando acesso a outras realidades —

como de suas águas aos barrancos...

 

Ora emerso, submerso e já reimerso

pelas gamas de um lúcido Universo —

no humano de canais-humanidades...

LA 00/11

 

 

Um Silêncio De Ardósia...

 

Um silêncio de ardósia... além do vento

mulato sobre areias de um deserto —

que o mental recriou num pensamento

a cavalgar um grito em campo aberto.

 

Lembrança beduína, em tom isento

de medo, a andar por céu a descoberto...

A morte sempre à vista: longe e perto...

A ousadia a zombar do sentimento...

 

Pegadas de saudade no por dentro

do sonho de provar-se bem mais forte

que a fraqueza a querer-se como centro...

 

Um silêncio entre notas de uma flauta

alevantando najas entre a malta

que ama os laços que a vida tem com a morte.

LA 00/11

 

 

O Mar É Um Som Longínquo...

 

O mar é um som longínquo rebramindo

nas células de toda criatura —

a lembrança de dias refluindo

já transmudados em consciência pura...

 

A bênção das estrelas permitindo

a vida se sonhasse nascitura,

num processo tão belo quanto infindo —

por entre a sombra e a luz, buscando altura.

 

Ecoando fundo entre geleiras-fráguas,

há em nós o marulhar de muitas águas

nesse ôntico-sonhar de pai-oceano...

 

Da fera ao homem, da ameba à ave —

a vida vai do humano ao sobre-humano...

da embarcação de tronco à astronave.

LA 00/11

 

 

Mantém O Bom Humor...

 

Mantém o bom humor, André: o bom

humor. Reinventa a cada dia o riso,

o riso sobretudo de improviso —

prático-tático, esse cujo dom

 

é ser liso, macio e de bom tom:

um riso que não cause prejuízo,

nem jamais comprometa, — haja siso

em tal riso, nem cerda, nem raiom...

 

Um riso que não seja gargalhada...

mas não deixe de ser uma porrada

no sem cara de azeda situação.

 

Um riso que realize sã catarse...

assim como um orgasmo a degolar-se

sem muito tremelique e gemeção.

LA 00/12

 

 

Lançar, Lancei O Anzol...

 

Lançar, lancei o anzol, mas não fisguei

coisa alguma de suas intenções.

A pobreza das nossas relações

era maior do que quem vive em torno ao rei.

 

Quieto, no mesmo poço, me fiquei

à espera de alguns clássicos puxões...

mas foram só visões de sensações...

Pescar, pesquei. Pegar, nada peguei.

 

Enfiei a vara no barranco, à espera...

Boa sombra. Deitei, dormi. Sonhei que era

o boto que emprenhou Mariazinha...

 

Fiquei feliz da vida até a hora

que Mariazinha me chamou: “S’imbora!”

Na varinha de espera, — uma tainha.

LA 00/12

 

 

Ri, Não Muito, Que...

 

Ri, não muito, que destramela... e cai...

e vais precisar dele mais que o riso.

Há em rir um ponto quase que indiviso —

bem entre a razão, que é nossa, ou de Rai-

 

mundo. É o lado-catarse que te atrai,

ou o aspecto-vingança ( a que não viso )

do riso? Ou ( sabe Deus ) os dois? O piso

( aqui ) é bem cediço... engana e trai.

 

Quem ri por último... ? Sei lá, alguém

já disse que só ri depois. Concordo.

Mas o rir pelo rir faz muito bem.

 

Tenho um parente magro, que era gordo...

Que fez? Escola: Rir Até Cair...

Pra ele, rir foi bom, e até faz rir.

LA 00/12

 

 

 

Intuição E Lógica...

 

Intuição e lógica —

os dois únicos recursos

com que o homem tenta explicar

a natureza.

Ocorre que a natureza

é sempre mais complicada

que sua explicação.

Daí tudo servir

apenas por uns tempos.

Ou seja:

a coisa dobrada

só se desdobra

de dobra-em-dobra-entendimento.

LA 00/12

 

 

 

Pero No Mucho

 

Não somos felizes

( sabemos ) —

mas sempre vale a pena

encontrarmos um modo

de fingirmos que o somos.

..................................................

Com a morte a tiracolo,

e com tantas aflições —

que nos resta

a não ser nos apegarmos

às doces mentiras da verdade?

LA 00/12

 

 

Advér...

 

Um dia...

Ah, um dia!...

Esse advérbio

é o lado piedoso

da vida.

LA 00/12

 

 

Os Pensamentos Oxidaram...

 

Os pensamentos oxidaram todos —

chacotas se tornaram, vis apodos...

Pobres, podres idéias, tão velhinhas, —

foram para o museu das carochinhas.

 

Padre Lalau comeu a confessante:

muda, pequena, de marrom, crocante...

Sim: gostosa, macia como malte, —

uma estátua de puro chocolate.

 

Deu os bombons para a vizinha Dora,

disse-lhe que viria em outra hora...

Saiu com a boca cheia de batom.

 

Outros os tempos, outros pensamentos.

Outra coisa é que dói: não mais os sentimentos...

Lalau achou o batom cheiroso e bom.

LA 00/12

 

 

Falou Para A Mulher...

 

Falou para a mulher que ia à esquina —

comprar panela boa: Autolavina.

A mulher esperou seis anos...

                                                Lá um dia,

ei-lo com uma menina e uma tal Maria...

 

Disse à mulher que aquele dia... ( em tom de amante )

fora levado como traficante:

seis anos preso! E hoje, saindo, ( veja a sina! ) —

topa com a irmã ( irmã de pai... ), mais a menina...

 

    Não podiam ficar na rua, Rooosa!

Contei com sua alma generosa...

até a situação, meu bem, mudar...

......................................................................................................

Bígamo, tinha até boa harmonia:

bem cedo, a esposa ia trabalhar...

a menina ia à escola, e ficava Maria.

LA 00/12

 

 

 

Um amor sujo de pena,

maculado de dó —

coisa triste sentir isso

por alguém que nos é especial.

LA 00/12

 

 

 

    Tenho cara, Rosa, de sem-teto?

    Isso não. Mas de SP, ah, isso tem!

    SP?!

    Sim, amor: sem peruca...

LA 00/12

 

 

 

Se Comes-Bebes-Vestes...

 

Se comes-bebes-vestes-moras-te-divertes

o que não podes, amorzão, pagar,

e nunquissimamente te convertes

à realidade do óbvio a ulular —

 

então, ninfa do pó, então eu canto,

canto e recanto, desde seu começo,

canto e descanto aquele “Não mereço

você”... todo banhado em riso-pranto...

 

Será que o amor é aquilo que se sabe

imaturo na hora que lhe cabe

ser arguto... ou mais tolo do que insano?

 

Se é isso, há que deixá-lo ser humano...

Não graves, minha santa, os teus anéis,

que poderás perdê-los nos bordéis.

LA 00/12

 

 

Para Glorinha ( Cinco Aninhos )

 

Espantei jataís e borboletas

em torno ao rosto teu, e extraí méis

com que adocei as ágeis piruetas

de um coração em seus fiéis enlevos.

 

Tais favos degustei com as paletas

com que tracei florais nos capitéis

das colunas que aparam as caretas

rechonchudinhas como carretéis...

 

Menina, eu espantei os beija-flores

que bebiam de tuas tenras faces

a doçura rosada e de outras cores...

 

Espantei as abelhas que queriam

arrebatar-te para um céu que fazes

haver para mil olhos que te espiam.

LA 00/12

 

 

 

Criogenia

 

Pobres homens e seus (em)pilhamentos,

sua vida tornada em gana fria —

um amontoar de pós na ventania,

um ajuntar de palhas entre os ventos.

 

Pobres criaturas em seus vis tormentos —

jamais vencendo o muro da teoria,

seu desespero as leva à criogenia —

confundem vida com congelamentos...

 

Por onde passam deixam a exalar

seu triste cheiro de mortalidade —

não transcenderam sua humanidade...

 

Carregados de plúmbea densidade,

como aprender a ir-voltar: saltar

de um lado ao outro da Realidade?

LA 00/12

 

 

Pensado Por Finórios...

 

Pensado por finórios, possuído

por palavras que tornam impossível

ao homem desprender-se do terrível

processo-de-pensar-já-induzido...

 

Teúdo no pensar, bem manteúdo

no que dizer, deixando ao indizível

e aos sábios todo o lado intelegível

das coisas: “Jamais ser um sabichudo!”...

 

Deixar à classe-dona decidir

o que falar, o que sentir, a que sorrir...

e suas dores ( entre os seus ) balir.

 

E ouvir-ouvir-ouvir ( mas sempre mudo ):

saber ouvir! Ouvir sempre sisudo...

Querem-te assim: teúdo e manteúdo.

LA 00/12

 

 

 

Pensar Sempre Foi Crime...

 

Pensar sempre foi lesa-instituições.

Ousas ter pensamentos? Ousa leve —

pensar já traz em si fogueira e neve...

e mil excomunhões e prevenções.

 

Te oferecem a escada e os corrimões

e o roteiro gentil que, presto e breve,

te mostra o que se deve e se não deve

dizer, fazer, gostar... quais sensações

 

sentir, quais orações orar... e como

e de que jeito e pose e quando e quanto

fazer amor... e qual o infame tomo

 

não ler, não ler... e quanto riso e pranto

rir e chorar... e quão piedoso e terno

deves saber viver em céu-inferno.

LA 00/12

 

 

Se Em Tua Mão Me Desses...

 

Se em Tua mão me desses a escolher,

Babu, entre a verdade ou a beleza —

esta filha do Belo, com certeza,

houvera de bem mais me apetecer.

 

Não só por ser quem é, mas por trazer,

Babu, dentro de sua natureza,

a filha do Real em toda a realeza —

a beleza-verdade em gêmeo ser.

 

Se uma nos faz ter olhos remolhados,

a outra nos faz o coração arder —

cada uma é um lado com dois lados...

 

Mas mesmo assim, Babu, dessa unidade

eu faria questão de poder escolher

da verdade-beleza a beleza-verdade.

LA 00/12

 

 

 

A Vida Bateu Nele

 

A vida bateu nele.

Uma alma depurada,

feito doce de tacho:

a madureza dos frutos

e o fogo

a depuraram —

doce de tacho,

solto em si mesmo:

a vida leve,

autometabolizada

em alegria-esperança

a palmilhar o chão —

mas solta,

solta em si mesma.

LA 00/12

 

 

O Amor, Nhá-Zefa...

 

O amor, Nhá-Zefa, para ser feliz,

não se leva pra casa: que entristece,

e não sendo feliz, nem por um triz,

o pobre então definha e até falece.

 

Amor para ser bom é como um “S”:

sinuoso, e livre ao lado, acima, embaixo...

Sombra, escapole apenas amanhece...

Doce, se tira antes de esfriar o tacho...

 

Amor, pra ser bom mesmo, amesquece.

E sobe sobe sobe... e logo desce

por uma outra rua, outro endereço.

 

Amor, pra ser porreta, só existe

enquanto enquanto, e nem por isso é triste —

amor dos bons adora um fim-começo.

LA 00/12

 

 

 

Não, O Amor Não Se Foi...

 

Não, o amor não se foi,

só foi dar uns retoques...

Voltará novinho de humano:

cheio de uma saudade

orvalhada do sonho

de nos querermos sempre —

não importa que diferentemente,

e diferentes:

importa nos querermos sempre,

num sempre que jamais é muito tempo

porque um sempre que não se mede —

um sempre-amor.

 

Não, o amor não se foi,

só foi dar uns retoques...

Virá cheio da verdade

que faz arder o coração...

e repleto da beleza

que deixa os olhos molhados.

LA 00/12

 

 

Reconto

 

Segundo Fábio Josefo,

João ( São João ), o evangelista,

teria morrido longevo.

Naqueles tempos,

ia-se ao templo três vezes ao dia.

João, já bem velho e doente,

era levado em charola

pelos discípulos. Já no templo,

punham-no sentado bem à frente.

À sua hora de falar,

só dizia uma frase,

que repetia

de duas a três vezes

( sempre a mesma ):

“Filhinhos, amai-vos uns aos outros!”

Os discípulos, acostumados

àquelas suas palavras

( de seu tempo de moço )

que sempre garimpavam

o ouro dos céus,

um dia ousaram perguntar-lhe:

“Mestre, o senhor, que nos fazia

preleções tantas e tão inspiradas,

que nos ia buscar belezas-verdades

a nos adentrarem por todos os poros,

por que agora, amado Mestre,

só nos repete esta frase:

“Filhinhos, amai-vos uns aos outros?!”

...................................................................

João teria lhes respondido:

“Primeiro, porque isto é uma verdade.

“Segundo, porque, se vós fizésseis apenas isto,

seria suficiente.”

LA 00/12

 

 

Se Não Vivermos...

 

Se não vivermos

o cristianismo pelo afeto,

dificilmente poderemos

compreendê-lo

pela razão.

O homem não renascido

( não metabolizado pelo pão

e vinho simbólicos )

jamais encontrará o caminho

do seu coração criança.

Sem esse coração,

não se compreende

a linguagem do reino:

nem a verdade da beleza,

nem a beleza da verdade.

E é nesse momento

unidade-comunhão

que todo o nosso ser

se torna em luz —

e essa luz? A pessoa

que se reconhece na voz

que está por detrás da máscara.

LA 00/12

 

 

Em Geral, Quando Descobrimos...

 

Em geral, quando descobrimos

que somos infelizes,

ficamos muito magoados —

auto-apiedados mesmo.

Mas a partir daí,

vem a pergunta:

E quando foi que o fomos?

 

Aí vemos que não há motivo

pra tanto alarde,

tanto autodó e ressentimento —

vemos, com um sorriso mole

e aquele rosto embevecido

de cantinho de bar, —

que nunca fomos essas coisas...

.............................................................

Percebemos, nesse momento,

              que acabamos de perder

a doce virgindade

de algo nada desprezável —

nossa santa ingenuidade...

 

Com tal desfolhamento,

parece que a vida

fica assim mais palpável

( dir-se-ia mais penetrável

e penetrante... ),

mas,agora, assumida —

até quem sabe mais interessante...

cheia de uma felicidade

que nem exige ser feliz.

LA 00/12

 

 

A Traição...

 

A traição

tem sempre um

ou mais fins

lucrativos.

Varia, portanto,

segundo o lado

cambial das coisas,

isto é: das bolsas.

Quem a pratica mal sabe

que toda ação

tem um quê de bumerangue.

LA 00/12

 

 

 

 

Intimação

 

Dias medíocres. Estafermos.

Até parece que todo o mundo

tem de ser feliz a qualquer preço.

Uma auto-obrigação gratuita,

coisa horrível de maluca!

Cria-se assim uma desventura,

um dever de “ser feliz”,

sem que se saiba ( no caso )

o que seria ( para si )

felicidade.

 

Felicidade mercadóide

( cultural )

com os bilhetes da mais-angústia.

Mediocridade por intimação.

Ventura de silicone.

Uma bosta.

LA 00/12

 

 

Claro, O Trabalho Leva...

 

Claro, o trabalho leva ao enriquecimento,

à felicidade,

à ventura — 

dos donos das empresas.

 

Um velhote hiper-rico

conseguiu inculcar nos trabalhadores

de suas fábricas

que ele ( vindo da Itália ) começou sua megafortuna,

em menino, vendendo bananas.

A coisa pegou:

meus tios, embevecidos e empolgados,

comentavam a façanha,

orgulhosos

de trabalharem em suas indústrias.

Trabalho realmente enriquece

aqueles a quem trabalhamos.

....................................................................................................

Mas não desanimemos.

Vivemos dias que oferecem

riquíssimas traduções

do homem e suas relações...

Quem sabe logo chega a hora,

a hora de fazermos

do cinismo dos outros

e da nossa ingenuidade

alguma coisa transgênica —

a dar frutos de liberdade,

liberdade

que há de gestar-se e parir-se

de uma consciência de inclusão-repartição.

 

Uma concepção maior das coisas

é uma questão de amor-próprio —

um sentimento de também e ainda.

LA 00/12

 

 

Não Fossem...

 

Não fossem os inimigos,

com quem lutar,

o que fazer de grande ou bom?

 

Sem amigos, como perceber

que a solidão é o ateliê

do ofício de viver?

 

Sem o amor,

como saber que o ódio

está no outro canto da boca,

na outra mão do mesmo corpo?

 

Sem a esperança,

o que fazer com tanto sonhos

que desejaríamos realizados

em alguma felicidade?

 

Não fosse a fé,

como pedir a Deus

trabalhe no plantio

e vindima de nossas uvas?

LA 00/12

 

 

 

Amigos? Se Algum Houve...

 

Amigos? Se algum houve, está no céu.

Eu me fui cá ficando pra semente —

até, talvez, um belo de repente...

veneno, bala ou raio, sei lá eu.

 

Um copo de veneno tão humano —

aquele que ficava no piano...

Ou morte em preto-e-branco, ou morte em cores...

Ou charme antigo: um se-morrer de amores.

 

Sim, qualquer uma das modalidades.

Morrer é chique em todas as idades —

um ato nobre, um-fica-pra-vocês...

 

Não um cair de pano, — algo mais atro —,

o belo desabar de todo o teatro

com a frase no pó: Era uma vez...

LA 00/12

 

 

Quanto Mais Fica A Vida...

 

Quanto mais fica a vida previsível,

tanto mais doloroso o entendimento.

O bom mesmo é sentir com o pensamento

e pensar por um modo mais sensível —

 

talvez assim de um jeito indivisível,

tão certo como o próprio sentimento

traz em si o pensar mais o incremento

de mecanismo vário-intraduzível,

 

e o vice-versa disso já embutido —

como o lembrar se finge de esquecido

a renascer do próprio esquecimento:

 

o uno em seu todo-relacionamento

a fazer-se plausível-previsível

quanto mais se nos mostra divisível.

LA 00/12

 

 

 

Hasteou A Viúva Até O Céu...

 

Hasteou a viúva até o céu, sem dó:

pois o finado hasteava uns dedos mais.

Não fosse assim, a tímida Filó

nem poderia guturar seus ais...

 

Caprichou na embainhagem, qual curió

no canto. E de tal jeito o fez, com tais

floreios, tais requintes-carimbó —

que a viúva tremia igual juncais...

 

E ficaram tão caros um ao outro,

como o açúcar que amestra o jovem potro

que já não sabe o que é mais doce: se a mão ou...

 

Foi num sentir-pensar tão-sempre inconho

que se foram tornando um mesmo sonho...

até que a solidão, sem querer, os casou.

LA 00/12

 

 

Ah, Também Eu...

 

Ah, também eu

comi muitas e muitas!...

Só não molhei o pão

no fundo da panela,

nem nunca ingeri peles,

nem penas.

Quanto ao mais,

sempre fui vegetariano.

Folhas, legumes, grãos

e muita água.

Mas comi muitas... muitas!

Certa vez, foram tantas:

cedo-tarde-noite-madrugada —

que por tempos e tempos

já nem podia ouvir falar

em penacho ou peteca.

No mais,

sempre fui vegetariano.

LA 00/12

 

 

 

Para Onde Fugir...

 

Para onde fugir, quando as palavras

não podem já nos esconder? Para onde

fugir, se a solidão é das mais bravas

e o que somos são passos pela ponte?...

 

Para onde fugir, se as fiéis escravas

se esqueceram das portas de emergência?...

E como abrir seus fechos, trancas, travas

com chaves que não temos na consciência?

 

E o que fazer com as rosas estupradas

que criaram menos pétalas que espinhos

para serem semeados nas estradas?

 

Para onde ir, se somos só o eco

de nossa voz, perdido nos caminhos

que acabam — sem a humana espera — em triste beco?

LA 00/12

 

 

A Vida É Uma Só...

 

A vida é uma só

( para esse Fulano-Agora

será, sim, só-uma-só ),

e quando dizemos isso —

é que ela já passou.

 

Se se tem,

nem se dá pela coisa —

felizes sem saber,

só o notamos

quando a felicidade

já não é.

 

Quando a vida não cabe em nossas mãos,

então nem quase a vemos...

Já de mãos bem vazias,

aí, sim, a queremos —

mas já não temos: não podemos.

Corremos para o ser

e nos fingimos consolar.

 

A vida é breve —

bom é fazer na hora certa

os seus bonecos de neve.

LA 00/12

 

 

Evasão, Não, Ó Musa...

 

Evasão, não, ó Musa! — mas tesão

de descascar sementes transverbais —

a gula de adentrar outros ramais

que tenha ( de algo ) múltipla visão.

 

O charme de pensar com o coração

mil e mil sentimentos racionais

e i-los processando virtuais

em traduções-depois-de-tradução...

 

Evasão, não, ó Musa! — apenas idas

e vindas de uma vida em várias vidas:

o ruído pela coisa, o vôo pela ave...

 

a travessia pelo pensamento

de fazê-la no sonho-sentimento

de ser a vida nave em outra nave.

LA 00/12

 

 

 

Os Amigos E O Guarda...

 

Os amigos e o guarda os ajudavam:

queriam transar na ponta do poste.

Força daqui, dali, e os encimavam

com charme e classe como a um preboste.

 

Um baita poste, — assim como se fosse

da altura do terceiro andar. Lhes davam

cordas, tábuas, colchão... e o riso doce

de que conseguiriam... E ajeitavam:

 

amarraram, pregaram, escoraram...

e, enfim, numa só voz, disseram: “Já!!!”

Foi quando os dois amantes despencaram —

 

com andaime, amurada, poste ( e o plá

que já rolava... ). Mas, a salvo e são,

o casal se ajeitou ali mesmo: no chão.

LA 00/12

 

 

Consensual

 

Pediu-me a musa as contas, e eu lhe disse:

Aqui, negona, o que lhe devo: bosta!

Transas mais que cabrita pela encosta,

que padre em sua casta galinhice —

 

e me vens cá cobrar a gabolice

de um musalato de fachada? Costa

quente não tenho... e além do mais, quem gosta

de mim sou eu: com toda a sã-louquice.

 

O que posso fazer, como poeta,

é dar-te a minha parte de pateta:

o que, por mim, acumulei, e herança.

 

Pegou com as duas mãos, a carijó.

........................................................................................

Como sempre, abracei-me em Esperança —

assim me sinto em companhia e só.

LA 00/12

 

 

 

Não Faças Sobre O Instante...

 

Não faças sobre o instante em que o não feito

seja sempre mais belo que o fazer,

e de tal sorte, que não tê-lo aceito

resulte num legítimo prazer.

 

De que vale o fazer que é contrafeito

à ventura de o humano se tecer?

Ou aquele que é feito de tal jeito

que o seu fazer vai contra o próprio crer?

 

Sim, não faças, se vês que o fazimento

te vá contra o sentir do pensamento,

ou contra o meditar do teu sentir.

 

Não faças, sobretudo se o fazer,

logo antes de ser feito, te doer —

te doer por saber não construir.

LA 00/12

 

 

Se És Donzela, Te Vai!

 

Se és donzela, te vai! Não sendo, fica.

Tenho uma história longa a te contar,

pode não ser tão bela nem tão rica —

mas não fará bovino bocejar.

 

Tenho histórias vestidas de pelica

por alamedas de raiom-sonhar...

Melhor que beber água numa bica

é poder, nu, sob ela se banhar.

 

Bem melhor que contar histórias é

ouvi-las, quieto, em alma-coração —

até as estrelas porem seu boné...

 

( Quero morrer, Babu, com uma xota na mão. )

..........................................................................................

Se és donzela, te vai! Não sendo, fica:

cuido de ti, tratas da minha pica.

LA 00/12

 

 

 

Fantasmas Do Passado...

 

Fantasmas do passado, do futuro

e do presente: somos os fantasmas

de nós mesmos, portando as mesmas asmas,

mesmo medo de nós: medo do escuro.

 

Perseguimo-nos sempre, — nossos plasmas

mentais, morais e físicos no duro

inter-relacionarmo-nos com o obscuro

de nossas ganas e intenções e seus miasmas...

 

Sim, refugimos feito vendedores

( sem licença ) por nossos corredores

e labirintos, túneis e castelos...

 

Avantesmas em nós colados: selos

em corpo-alma-espírito e seus esmos...

Fantasmas em desfile por nós mesmos.

LA 00/12

 

 

A Tua Graça, Ó Pai...

 

A Tua graça, ó Pai, prefiro: a graça

a todo o ouro da ansiedade humana —

a que, em lugar de revelar, embaça,

e em vez de dar a conhecer, engana.

 

A Tua graça, e não a vil fumaça

da luxúria que amarra o olhar e o empana,

e o bom, o belo e o simples amordaça

e açula e mortaliza em sua gana.

 

A Tua graça, e não os paraísos

que o mundo oferta com seus podres risos,

entre seus lábios previamente tristes.

 

A Tua graça espero, e não os chistes

de uma perversa e tola realidade —

fundada em não-beleza e em não-verdade.

LA 00/12

 

 

Por Vezes A Leveza...

 

Por vezes a leveza é tal e tanta,

que o tempo, em nós, parece nem ligar

de ser o tempo: e esquece de passar,

ou só passa de um modo que acalanta...

 

Ou, em passando, nem atina em quanta

volta, círculo, lua vai cessar...

E, romântico, o tempo chora e canta

uma canção sem época ou lugar.

 

Aí, então, é bom desconfiar

de por que o tempo quer nos bajular —

dando a impressão de suspender o passo...

 

Mas logo é descoberto o descompasso —

morremos sem saber do passamento...

e tudo o mais, agora, é sonhamento.

LA 00/12

 

 

 

Mais Bela Do Que Ela...

 

Mais bela do que ela, só as éguas

de Faraó. Beleza assim sem tréguas

faz sempre mal ao pobre do marido —

que o tempo todo sente-se mexido...

 

O pobre nunca sabe quantas léguas

de fumo enrola d’horta das acelgas...

Sente na testa um peso desmedido...

    “Pressão alta”, lhe diz Dr. Fornido,

 

que à esposa dele dá carona em dias

de enchentes, apagões e congestionamentos —

de que vem com uns roxos de alergias...

 

Mais bela do que ela, apenas ventos

de duzentos por hora no telhado

do tal doutor... que em casa dela joga dados.

LA 00/12

 

       

Despensemos ( Porém...

 

Despensemos ( porém, não dispensemos )

o amor, amada: ao menos por enquanto.

Esse safado melodiou o pranto,

inventou sonhos, navegou extremos...

 

Fabulou tanto acerca de si mesmo,

que acreditou no seu eterno encanto —

esquecendo que o lado-desencanto

era a mesma moeda de seu esmo...

 

Agora, Amor já vê, decepcionado,

que para alguém tornar-se realizado

precisa despensar a realidade...

 

e aprender ( rapidinho ) que a verdade

( da mentira ) é extrairmos do ilusório

a graça de viver no provisório.

LA 01/01

 

 

 

Gente Com Gente

( 2000 E Gente )

 

Mais que os mares que ligam as nações,

mais que os ares que englobam as cidades,

mais que os chips a unir gente e pessoas —

seja a vida consciência da unidade.

 

E esse mundo de afetos vá criando a

Democracia da Afetividade:

a cada um respeito e o necessário —

dentro da honoris causa de ser gente.

 

Gente com gente em todos os setores —

em solidariedade oniabrangente

de todos os direitos e valores.

 

Viver-agir-fazer de modo que possamos

passar de ilhas para Continente —

em consciência maior: gente com gente.

LA 01/01

 

 

Em Moço, Andava Todo...

 

Em moço, andava todo envolto em penas —

dessas que o coração não vê nem sente.

Colavam-lhe ao redor... espiralmente:

ilhas-batom e o branco de açucenas...

 

Casado, põe as penas entre aspas...

e segue, de alma nova e convertida.

Na religião achou remédio para caspas...

A lei do carma lhe explicou a vida.

 

Aos sessenta ( imaginem! ) pega o amigo

( que lhe chamava irmão ) comendo em prato errado...

O sangue lhe concentra em torno ao umbigo:

 

lugar em que o amigo, calmo e rindo,

lhe deposita chumbo trabalhado

em aço e em forma de botão se abrindo...

LA 01/01

 

 

 

Um Dia Ela Virá

 

Um dia ela virá,

a assombração das gentes.

Um dia ela virá

( se bem ela não vem: ela se dá —

ocorre quando se torna antieconômica

a relação de um sistema entre sistemas... ).

O problema não é ela,

mas os fantasmas que se criaram ao seu redor:

ela é apenas o romper natural ( ou provocado )

de um inter-relacionamento bio-consciencial

em tempo e espaço X.

Nesse relacionamento há uma consciência maior

( já individuada ) e mil e mil outras consciências —

que sempre pegam carona dentro do princípio

de economia onto-cósmica de evolução.

A não-compreenção das multi-relaçoes,

por entre os pluri-planos-dimensões de ser —

é que lhe conferem essa nódoa triste

de pranto-fim-supestições-e-perdas....

Mas a fatalidade é sempre transcendida pela finalidade.

 

Quem quiser ver frieza e gelo nesse Processo —

com certeza verá.

Quem vir nele a mão santa de Deus —

com certeza a terá.

Um axioma que atravessa milênios é este:

O homem é o que pensa.

 

Despida das ignorâncias e superstições

( que a criaram como uma entidade ),

a tal Assombração das gentes

será apenas o romper daquele fio ( estame )

que amarra a organização de um sistema entre sistemas —

de sorte que — partido — se abrem outras gamas-dimensões

para contínuo-prosseguirmos

com o Deus que nos é

até o ponto de vermos que O somos.

LA 01/01

 

 

 

Quando Nossos Sonhos Migram...

 

Quando nossos sonhos migram

para os sonhos de padaria,

o que fazer

senão pormos mais fermento,

não na massa, mas nos sonhos

( lá em alma-coração )

a ver se eles transcendem

seu estado de farinha

e chegam a rebrotar

na haste entre o querer

e o ousar viver a memória

daquela imagem-semelhança —

soprada

em nossa argila constelada?

Lembras?

LA 01/01

 

 

Sul-Carnal

 

Bela dona,

bem mais bela

sem o “dona”:

como estrela

que eis espia

longe e fria

pela via

do mareante —

pobre amante

do longínquo

( ou propínquo )

não-singrante.

 

Ó de lis,

tua carne

tão mortal

traz o anis

celestial

vis-à-vis

com o mal

de um feliz

tão banal —

já num bis

lirial:

cicatriz

sul-carnal.

 

Bela dona,

cheiro e cor

de canela —

cujo honor

fê-la dona:

bem mais bela —

peladona.

LA 01/10

 

 

E O Que Farei Com Esse Amor...

 

E o que farei com esse amor, Hafiz,

se já não cantas nem estás?

Que pode ser, senão desinfeliz,

o amor que vá aonde já não vás?

 

O amor que, em vez de se espalhar, Hafiz,

e se esgalhar-multiplicar,

se esconde sob uma sobrepeliz —

sem mais fluir, sem mais cantar?

 

Ah, vem, Hafiz, ajuda a espadanar

as águas de um amor feliz!

Amor que possa se molhar —

as mãos, o rosto, os pés num fresco chafariz.

LA 01/01

 

 

Esquentes Não...

 

Esquentes não, Leonor:

haverá sempre identidades,

e outras doces evasivas.

Quanto mais as coisas mudam,

mais permanecem iguais.

A vida é boa, amiga,

porque nem sabe disso —

já que viver não é mais um ofício,

mas só um bico —

quebra-galho ou biscate.

 

Se a coisa é fina,

aperta mais o alicate.

Está azedo? Bota açúcar.

Melhor é ser corno discreto

que comer sola de botina.

Ou não? Se achas que não, André,

então não é.

 

Esquentes não, Amadis:

haverá sempre uma saída —

pela janela também serve

quando o risco é a própria pele.

E haverá sempre uma alma boa

que faz bainha pro teu brim

não estourar.

 

Ó Leonor!

Ó Amadis!

O bom não é o amor,

mas — sem querer —

a gente ser feliz.

LA 01/01

 

 

A Liberdade É O Infinito...

 

A liberdade é o infinito

por onde vai nosso grito —

que tentamos musicar

pelo dom de sonho-amar.

 

Se o amor é impulsão,

a liberdade é o interno

e externo chegar-lá —

enquanto — por módulos de consciência —

vamos nos transcendendo:

sendo em ser até ( nos ) sermos

Naquele ( e Aquele ) que nos conheceu

e amou primeiro.

LA 01/01

 

 

Um Dia, Hafiz...

 

Um dia, Hafiz, promete

que dançarás para mim.

Que cantarás, Hafiz,

uma canção sem fim.

Um dia, Hafiz, em que a gente

nem precise ser feliz —

porque nesse dia a vida

será dor convertida

em nem sei quê... , Hafiz, —

mas sempre linda por um triz.

LA 01/01

 

 

Agora Escreverei...

 

Agora escreverei sobre as águas

o poema que não tem graça nenhuma,

a não ser por ser escrito sobre as águas

num momento que fora bom ser engraçado,

se se pudesse chorar pelo seu nenhum chiste...

Algo assim como um beijo de titânio

sobre a boca da noite...

Ou o espirro de uma estrela

a semear-se nos longes do universo,

pelas portas niqueladas dos fundos...

Algo como fazer amor na ponta de um espinho

e ter um gozo espermatizado de hipopótamo

tingindo o rio de amarelo...

Algo como perguntar a alguém:

Que faço com o amor que me atiraste nas mãos —

se a tua parte dele já não queres?

Que faço, se minha parte nele é agora tão insuportável,

e dela não me posso desfazer, embora sei me fora bom?

Sim: o amor traído fica insuportável —

alguma coisa como brasa ou gelo

a rolar nas mãos do sentimento,

do sentimento estupefato e, agora, muito mais sozinho:

semelhante a um poema que alguém atirou

pela janela do coração lá em baixo...

bem lá em baixo, andares e andares e an...

e que caiu nas mãos de um arlequim

que, apesar de profissional, chorou de molhar os sapatos...

e assoou pelo nariz mil e mil sonhos

da cor da Aurora Boreal e das corolas

que o vento corre a masturbar

e espadanar seu gozo no chão da noite.

LA 01/01

 

 

 

Minha Vizinha Filó...

 

Minha vizinha Filó

fazia conservatório

( de piano ) em domicílio.

Às quartas-feiras mandava

o marido jogar bocha,

e recebia o pianista.

E a gente imaginava o papo

musical daqueles dois:

“Dô ré? Dô. Dô ré mi, Fá?...

Dó, Dô? Lá, Fá!

Dá, Dô! Dô, Fá.

Dô ré? Dá si!”

..............................................................

Depois de duas horas,

o pianista saía calmo,

sorrindo leve-levitado,

semblante beatificado —

com a partitura

executada.

LA 01/01

 

 

As saudades, Agora...

 

As saudades, agora, aprenderam

boas maneiras:

lavam até as mãos antes das refeições...

Já não choram enquanto comem,

nem palitam os dentes

(palitar os dentes?!) —

são fantasmas tranqüilos,

sem fricotes nem chiliques.

Já não têm o gosto amargo,

mas sabores de sorvetes

em dias de verão e praia.

Não têm os espinhos-sentimento

de terem perdido o insubstituível...

mas o impulso para o outro e o diferente.

.................................................................................

Saudades?

Claro que as há e as haverá —

principalmente as de amanhã.

LA 01/01

 

 

 

Se Não Houver Futuro...

 

Se não houver futuro,

não desesperem —

faz tempo que o já temos inventado,

e até racionalizado.

 

Viver sem inventar

é bem pouco possível —

uma vez que a realidade

é tão tola e banal,

que iria matar de tédio

tanto a feitores como a escravos.

 

Não desesperem não —

bem mais lindo

é o que não chegou a ser —

não foi banalizado.

.....................................................................

Enquanto isso,

organizemos o tempo

e façamos a história,

isto é: inventemos

um futuro ao futuro.

LA 01/01

 

 

Ó Retinas, Suponhamos...

 

Ó retinas, suponhamos

que olhássemos o mundo

como a um senhor convalescente e sério —

bem pior fora para nós

( ou melhor? ): pois teríamos medo

de ele não sarar...

e, além disso, veríamos

que ele nunca foi nada sério.

Mas um Quixote,

um Sancho de si mesmo —

passando-nos o susto

de nos vermos iguais a ele:

apenas racionalizados

entre nossa lança

e os mil e mil fantasmas que criamos,

diferentes ( é claro ) a cada geração.

 

Vede o mundo, ó retinas,

com riso e tranqüilidade —

porque o saldo de tudo, ó minhas cúmplices,

há de ser ( Deus o permita! ) o riso.

LA 01/01

 

 

Muito Bem, Minha Amiga...

 

Muito bem, minha amiga,

eu espero. Aliás, na vida,

não fiz mais que esperar.

Só tenho um pouco de receio,

minha cara, de que, ao chegares,

já não encontres

meus ossos amarrados

por esses nervos a que, hoje,

te fazes apetecida.

Se tal acontecer,

o açougueiro da esquina

( tenho-o observado )

tem refletido no olhar

um desejo saudável

de barganhar contigo

muitos suores,

humores e calores.

LA 01/01

 

 

 

Tenho Sonhado, Visto-Imaginado...

 

Tenho sonhado, visto-imaginado,

e até pedido a Deus

que um dia precises de um cavalo...

e então o troco por tuas pernas

que guardarei pra quando tiver vontade

de licor de pitanga.

Mas um dia eu te devolvo —

os sapatos e as meias...

ou, quem sabe, os trocarei

por ti inteira,

e tudo de permeio

com meu afeto quentinho.

LA 01/01

 

 

 

Tão-Logo A Bela Esposa...

 

Tão-logo a bela esposa o abandonou,

ele pôs-se a mugir como um bezerro.

Ante as filhas, chorou como no enterro

de sua mãe... Depois, silenciou.

 

Por mais de uma semana se portou

como um arbusto seco em alto cerro —

violino do vento em pranto perro,

uivando a dor chistosa de um pierrô.

 

Viu-se tendo nas mãos o insuportável

amor ( ora só dele ) — o lamentável

resto mortal, ( pelo outro ) já enterrado.

 

Vista a farsa, abre a mão e, com regalo,

amor lhe rola ao chão, já transformado

num assombroso pênis de cavalo.

LA 01/01

 

 

Sem Rumor

 

O tom tranqüilo

( como o cricri de um grilo ),

e orvalhado de ironia —

( que não peida nem pia )

em cada poema.

 

Que nasça o tema

de não haver tema nenhum —

e se urda e se construa

nessa unidade-um

de se saber que a lua

é dos que andam pela rua —

erguendo a saia da noite

a ver se já amanheceu.

 

O poema, pra ter o gesto

de Prometeu —

tem de cair do céu,

fazendo amor com o sulfite.

E que não gema,

nem grite

na noite enferma.

Amor feito sem rumor.

LA 01/01

 

 

Descompasso

 

A tecnologia

tem andado com a luz.

As inter-relações humanas

têm andado a pé manco.

Ou o homem acerta o passo,

ou vai ter torcicolos

( dos brabos ).

LA 01/01

 

 

Omelete

 

Ouvo sempre com muita atenção

o que os amigos me dizem —

mesmo porque gosto de ovos mexidos

com torradas e café com leite.

LA 01/01

 

 

 

Coisas De Moleque

 

Dizia sempre

que gostaria de saber

por que burrice não embalsamaram

o precioso fiofó

daquela tal galinha de ovos de ouro(!).

Quando moleque ( dos bons )

e que sua professora

lhes contou a tal história —

teve sérias apreensões com a molecada

que morava na circunvizinhança

daquela especial penosa...

Será, meu Deus, será quê ( ?!! )...

Sabia, desde então, que nem sempre

o ouro vale tanto...

LA 01/01

 

 

O Chaveiro E A Portaria

 

Entre os ricos detalhes

das estruturas bioquímicas

e a completa especulação —

temos as chaves genéticas,

porém, não sabemos que portas

elas abrem...

Uma literatura,

não só peculiar, mas formidável!

Chaves e portas,

portas e chaves.

Que chaves, ó portas?

Que portas, ó chaves?

Chaves-chaves! Portas-portas!

Humildade, senhores!

A Vida e o Universo

não estão para molecagens.

Deus não só “não joga dados”,

como também não é

um porteirozinho peidoreiro.

LA 01/01

 

 

O Beija-flor E A Pedra

 

Isso acontece.

Coisas acontecem.

Boas ou más, acontecem.

Não fosse assim,

qual seria o interesse,

ou melhor: o motivo-prazer

de viver?

 

E eu precisaria dizer isso,

saber isso —

para poder respirar

e nomear coisas?

 

E eu precisaria salvar o Titanic,

entrando num “buraco de verme”

e dizendo ao seu capitão

que não deixasse zarpar

aquela formidável barca?

 

Quem sabe posso abordá-lo,

agora, antes de ele partir,

mas não tenho certeza

de que ele me ouviria...

E nem o tal iceberg

saberia arrazoar —

a não ser desarrazoadamente...

 

Coisas acontecem.

Que bom! Que mau!

Coisas acontecem.

Sua infinita beleza

é não deixarem de acontecer.

 

Por vezes temos

uma beleza severa,

uma verdade acerba —

mas não menos beleza

nem menos verdade:

apenas descômodas —

não o que esperávamos.

Isso acontece.

Coisas acontecem.

Boas ou más, acontecem.

Sem acontecimentos,

essa droga a que chamamos

( vocês sabem o quê )

não poderia ocorrer.

E o que faríamos

sem as penas de suas asas,

sem a leveza de seu vôo?

LA 01/01

 

 

 

O Bicho Que Sorri

 

Se um jacaré abocanhar-lhe a perna,

não filosofe não: compre logo

( pela Internet ) um canivetinho

e arranque-lhe os cornos, isto é: as córneas —

que ele larga.

Mas se o patrão encará-lo com ira e jeito

de capitão-do-mato —

sorria-lhe feliz, como se estivesse vendo

a açucarada Monroe naquela cena

em que é assoprada em suas prendas

naquele miserável vestido branco...

Assim você preserva o seu emprego

e “salva” seu casamento —

adiando a possibilidade

de ser um descidadão

a ver o diabo-homem pelas ruas do mundo.

 

Se vir um leão louco pra mastigá-lo,

abra os braços, o casaco, o guarda-chuva —

simule-se um gigante, e ele se irá,

deixando-lhe a salvo as partes fixas

e também as balouçantes.

Mas se o amigo ( o seu melhor amigo ) lhe adentrar a casa,

esconde o que tem de melhor e mais bonito —

que ele haverá de querer abocanhá-lo,

ou ungi-lo com os seus santos azeites.

 

Enfim, meu filho,

todo bicho é inofensivo,

se comparado àquele que sorri —

seja o danado possuidor

de muitas inguinorãças,

ou muitas universidades.

Respeite-o sempre,

nunca brinque com ele.

Assim talvez ( quem sabe? )

você consiga convencer a sucuri

de que sua cinta não foi feita

com a pele de um dos seus.

LA 01/01

 

 

LER

( Lesão Por Esforço Repetitivo )

 

Fez tanto amor,

que acabou com uma LER .

O dedo sentia agulhadas

( coisa terrível! )

ao adentrar o formigueiro.

 

Pediu indenização

( já que a esposa ganhava

três vezes mais que ele ).

O juiz trabalhista

decidiu favorável.

 

Viveu feliz da vida:

se lhe era morta a espada,

restava-lhe ( superativa )

a bainha —

logo ali, do outro lado.

LA 01/01

 

 

 

21

 

O novo

é o sentimento do podemos

no aqui-agora-ação.

Seja o que for que sentimos

poder fazer,

essa possibilidade,

esse sonho a construir-se

( entre hoje e hoje ) —

é o novo.

 

Nossas necessidades

é que ditam a esse novo

atualidade e concretude.

Saber que podemos criá-lo

é estarmos em permanente

estado de criatividade

e alerta —

como agenciadores do novo.

 

Hoje a dialética

tropeça em si mesma,

e, ao levantar-se,

já tomou outro rumo.

O sentimento do mundo

vai se tornando para todos

consciência e novidade —

ser em ser-se num ver-rever

cada vez mais essencializado.

Já não há como o homem

não iluminar-se.

21 será o século

da luz focada em si mesma.

LA 01/01

 

 

Franqueza

 

Certa vez um amigo

olhou-me fixo nos olhos,

e me disse que gostava

dessa “minha” franqueza.

 

Tão-logo esse finório

notou que eu ria por dentro,

tratou de ajeitar seus passos

e se foi rapidinho.

Só não enrubesceu

porque era um sem-vergonha.

LA 02/01

 

 

Que Fazer?

 

Não ter amigo nenhum

já fora muito.

O diabo é que sempre temos

uns três ou quatro.

 

Que fazer com aquilo ou isto

que na verdade nunca foi

nem isto nem aquilo?

 

Sim, que fazer?

Não fazer: comprar feito.

Em não havendo,

encomendar ao Noel.

LA 02/01

 

 

Assesto

 

A mentira como a verdade

são dedos da mesma mão.

Querer separar uma da outra

é o mesmo que tentar

separar o som do verbo.

O bom fora aprendermos

a lidar com a imagem —

a imagem da realidade:

filtrada pelo zum

da nossa aparelhagem ôntica —

aí, sim, enxergaremos,

não essa construção

de relações sintéticas,

mas a transrealidade

da realidade.

LA 02/01

 

 

Hi-Tec

 

Eros

e sua industrialização,

sua tecnologia

vai muito bem, não tem de quê.

Na vida,

cuja graça é ser inconclusa,

fazer amor vira sempre

aquilo que nos resta.

 

Melhor é fingir que presta

o que há de ser fingido —

e rearmar depressa

o palco de outra peça.

 

Entre um enterro e umas núpcias,

o que há são opostos fluindo...

Prudente é fingir que presta

o que nos resta.

LA 02/01

 

 

Uma Só Exigência

 

Depois das 9,

ela fazia biscate

por dez reais a hora.

A vizinhança

ficava “p” da vida.

Mas se o próprio marido

incentivava —

que é que tinham com isso?

 

Ela adorava

aqueles lances-free...

E — além de tudo — dizia:

me remuneram!

 

O marido, apesar de brabo,

só lhe fazia uma exigência:

Que usasse camisinha,

“senão a matava”.

LA 02/01

 

 

No Uni-E-Multiverso...

 

No uni-e-multiverso que(m) sou eu?

Uma sombra agachada atrás da luz,

talvez. Talvez a mão de Prometeu

ainda quente do lume que conduz.

 

O que não ( ainda ) desapareceu

por ser a vida o elo-força que o seduz

entre os vários Big Bangs que Morfeu

entrega ao Sonho, entre a rosa e a cruz?

 

No entanto o tempo poescreve fugas

nos labirintos dos “eões”e “yugas”

a desvendar o multiverso ao ser.

 

Enquanto o Sonho-Quem espera paciencioso

que o ser acorde dentro do Seu gozo

e saiba que seu Deus será seu ver(-Se).

LA 02/01

 

 

Tábua No Mar

 

Ler-escrever:

meu chão natal,

minha casa

e refrigério.

Que outra coisa me levaria

a esses orgasmos de silêncio?

Que outra aventura

tanta ventura?

Qual loucura

me fora mais sadia?

Que desdouro

mais brilhante?

Em que pedra

mais quilate?

 

Ler-esvrever —

ópio que eu sempre soube

fabricar no meu ser,

isto é: em minha toda aparelhagem.

Ler-escrever —

tábua no mar

a que me agarro

( e que nem a imaginavam

os que nas águas me lançaram... ).

LA 02/01

 

 

Lesões Por Esforço Repetit...

 

De tanto,

mas tanto e tanto

exercimento,

foi colecionando LER —

1º. : na sonda espeleológica;

2º. : numa vértebra dorsal;

3º. : nos cotovelos;

4º. : no indicador e médio ( direitos );

5º. : na língua.

 

PS.

Não foi indenizado

em virtude de se tratar

de uma função de entretenimento —

tais foram as palavras

do promotor, que acrescentou:

“Os pontos lesados denunciam,

não o cargo,

mas a função exercida”.

Perdeu, portanto, o emprego

e seus campos de golfe.

LA 02/01

 

 

 

Sorte Nossa

 

Amor free-lance,

dos bons e sem-vergonha

( sorte nossa! ) —

esse que rola

na espuma do momento.

Muito dos bons:

à la carte

mal-passado,

bem-passado

e ao ponto.

Flambado,

cozido,

ao molho,

abafado,

siliconado —

com direito à felação

e sodomia.

 

Amor dos bons —

free-freecoteiro

e sem vergonha.

Gozos uivantes.

LA 02/01

 

 

Quando Eu Me For...

 

Quando eu me for, hei de chegar ( sozinho? )

e Te dizer: Babu, olha eu aqui.

Venho sujo de humano e do caminho...

Trouxe a esperança, o pio do bem-te-vi

 

e a vida que sei Tua. Ó Pai, me dá

aquele ponto-luz em que a gente se via

( lá no meu coração ) e se falava e ia

pelas Tuas varandas de maná...

 

Me dá um cantinho em Ti. E a graça e o dom

de ver, aqui, as vacas de sabugo

que minha mãe fazia... e algo tão bom

 

como a infância ( em seu não-saber sapeca )

e o pão que minha avó comprava lá no Hugo...

e me ia molhando na caneca.

LA 02/01

 

 

Bom Ter Alguém...

 

Bom ter alguém a nos dizer adeus,

a orar por nós, dizer que venceremos...

Bom ter alguém que afirme que o que temos

são bem mais que três quês... velhos ateus...

 

Bom saber que a manada dos sandeus

não nos vai esmagar, pois fugiremos

lá pelo subterrâneo que fizemos

para escapar dos tolos filisteus.

 

Bom é saber que estamos sãos e salvos

dos bons amigos: sábios ou papalvos —

pois teremos a graça de não vê-los...

 

Bom é saber que a Rosa do vizinho

não é nenhuma flor, e seus cabelos

são tão macios quanto o rosto que é lisinho...

LA 02/01

 

 

Criogenia

 

Pobres homens e seus (em)pilhamentos,

sua vida tornada em gana fria —

um amontoar de pós na ventania,

um ajuntar de palhas entre os ventos.

 

Pobres criaturas em seus vis tormentos —

jamais vencendo o muro da teoria,

seu desespero as leva à criogenia —

confundem vida com congelamentos...

 

Por onde passam deixam a exalar

seu triste cheiro de mortalidade —

não transcenderam sua humanidade...

 

Carregados de plúmbea densidade,

como aprender a ir-voltar: saltar

de um lado ao outro da Realidade?

LA 02/01

 

 

Abro O Postigo E Olho...

 

Abro o postigo e olho: está escuro.

Os elementos rugem transtornados,

os lampadários todos apagados...

e gente a procurar lugar seguro.

 

Escuras sensações de haver um muro

entre dias que gemem não-sonhados...

Cisões de dons hodiernos e passados —

uma carência órfã de futuro.

 

Luto por ver um brilho, um tênue lume —

um pisco, um pensamento-vagalume

riscando de amarelo as muitas águas...

 

Em vão. Fecho o postigo. Durmo, e sonho...

enquanto a realidade, em suas fráguas,

elabora a si mesma, e me transponho.

LA 02/01

 

 

Sensciência

 

Consciência humana,

onde teu gume,

teu lume?

Já te deixas

empastelar?

Te vendes

a preço vil

como indefesa

puela nuela?

( Ao gringo vendes

pela terceira vez

essa reconstruída

virgindade? )

Merconsciência —

comercientificada,

mercamante

desse momento @ —

que te rouba

de ti,

sensciência, num clique

na tela do capetalismo

vídeo-financeiro:

em cassino-sonância —

comercialização da vida.

 

Cuidado,

consciência humana,

se te deixas selecionar

te deletam.

LA 01/01

 

 

Momento

 

O saber

está para a economia

como o momento

para a venalidade.

E o mais é aprender a orar

no templo das finanças.

A loucura econômica

( banal, reducionista )

varre o planeta.

LA 01/01

 

 

Eis Que Uma Parte...

 

Eis que uma parte quer impor-se

como tudo e como todo —

a Economia,

comércio da alma —

Deusa erigida

no Templo do Capetalismo.

Aranha universal

    biófaga —

tecendo a sua teia

sobre a Bolota azul.

A Economia

tem banalizado a vida:

tem-na transformado no azinhavre

de um rumo e finalidade

cujo salário é a morte.

 

A direção da vida

( vale dizer ) é outra:

ou seja: a solidariedade

das relações na jornada —

o organizar-se do humano

para o seu transcender-se

apoiado no acervo coletivo

de toda a Humanidade.

 

Profetizada e imposta,

premeditada e gerida

pelos demônios de terno cinza —

inimigos da Finalidade,

paquidermes ante a Beleza,

entorpecidos ante a Verdade —

a Economia

tem criado uma chave de desvio

no caminho da Humanidade.

 

No entanto, o homem precisa caminhar.

Em terra de gente sã,

a vida e o saber,

em hipótese alguma,

devem se sujeitar à economia.

Esta, aliás, deve ser apenas uma parte

em harmonia com o todo

a envolver o Homem e o seu Destino.

LA 01/01

 

 

See, And Be Free!

 

Romanesca de requinte —

tipo fatal-dominadora,

usava a sua mágica erótica

sobre esse grande homem

( por acaso seu marido )

e o atava em parcos círculos

de autolimitação.

 

Quando ele pôde ir vendo

a dependência —

então foi se libertando,

a duras, terríveis penas, —

até transformar em humor

e riso

o que antes chamava amor.

 

Ver é libertar-se —

quando o dono dos olhos

acha que vale a pena.

LA 01/01

 

 

Pró Me...

 

Antes, milprometem.

Depois, tergifalam,

culipalreiam —

dorso-acenando...

Tergichalreiam —

escafedorizando-se...

 

Não demora,

ressurgem pró...metendo —

num despudor bem escanhoado

e com água de butique.

LA 01/01

 

 

Ah, Zefa...

 

Ah, Zefa, Zefa ( que tesão! ),

somos tão semelhantes

em nossos genes —

que o nosso puro amor

é um lindo incesto.

LA 01/01

 

 

Se sentir é enganar-se,

ver-se enganado

é o começo

de libertar-se.

LA 01/01

 

 

 

     E A Glorinha...

 

— E a Glorinha, André?

— Boa. Em paz. Obrigado.

     Entrou no meu coração,

     pediu licença —

     trancou a porta.

     Acho que nos queremos

     porque nossos pontos-de-vista

     nunca transaram.

     Só mesmo o básico —

     fundamentalmente: os nossos lados

     fundiários é que prosperam —

     e a que não faltam chuvas.

     Pro resto nem ligamos

     se encaixa ou não encaixa.

    

     O importante num casal

     ( diz a minha Glória )

     é o diálogo    

     entre os pontos nevrálgicos.

     Eu sei lá! Não entendo.

     Mas ela sempre diz que o entendimento

     é o fim de todo amor.

     LA 01/01

 

 

Conselho

 

Teus atrases e teus seios

são pequenos?

Ah, minha amiga, então pede,

pede asilo político —

o momento anda estufado

de próteses ousadas.

 

Sossega e ri em alma,

até passar a onda bochechuda,

então voltas —

e te enquadras ao novo charme

do nem grande nem pequeno —

ou do muito pelo contrário...

 

Por ora ( repito ): finge

de morta

para meteres o dedo

no anel do cirurgião.

LA 01/01

 

 

 

Clementina Era Tão...

 

Clementina era tão real,

que ele jamais conseguiu amá-la.

Sua beleza de pedra

o machucava:

era calosa.

Sempre que a intimizava

sentia-se esmagado

por caçambas e caçambas

de um prazer pedregoso.

 

Clementina não sabia

inventar felicidades.

Gabava-se de ser ( e escandia

com quatro pancadinhas )

pão/pão, queijo/queijo.

 

Era assim tão real,

que doía ( ele dizia )

na carne dele.

Seus peitos e pígios

eram de uma tumidez

ameaçadora.

 

Clementina não morreu:

virou pedra —

que servia de banco

entre o portão e a calçada —

onde ele à noite se assentava

com a vizinha Joaninha

pra ver estrelas

e vagalumes.

LA 01/01

 

 

 

Vanitas-Vanitatis

 

Graças a Deus, Melinda,

tudo é vaidade.

Quando isso me ajudaram

a descobrir,

sosseguei para sempre.

E a vaidade é tão linda

quanto você, Melinda.

LA 01/01

 

 

Ao Contar Me Emancipo

 

Ao contar me emancipo.

Mister contar e recontar

fingindo que meus contos

são outras coisas

que não eu que me sou contado.

Assim me ordeno,

me organizo —

me conheço um pouco mais,

e me vou emancipando

de mim.

LA 01/01

 

 

Achas cortês,

Fernão,

o que fizeste

com o Zuma

e o Mozim?!

LA 01/01

 

 

Vais me deixar aqui, amor, — segurando este poste?

LA 01/01

 

 

O amor é bom,

o diabo é o logo-após.

LA 01/01

 

 

Sempre muito caro.

LA 01/01

 

 

 

       Viva-a-a-a-a-a-a!...

 

      O bom mesmo é a gandaia:

      com nada sob a saia,

      a gente, Olívia, se espraia —

      e saboreia os méis,

      os mesmos que nossos pais

      degustavam nos bordéis.

 

      Fazer amor, assim, bem azeitado,

      Olívia,

      além de tobogânico,

      conserva sempre atléticas

      as interpartes.

 

    E viva-a-a-a-a-a-a!!!

    Viva o quê?

    Viva a vida, as gandaias,

      os bordéis

com as suas alfaias

      e seus méis.

      LA 01/01

 

 

Açúcares

 

Sempre aquelas formigas

buscando o açúcar de um afago.

Um sorriso,

um oi,

um tapinha,

uma palavra,

um elogio,

um beijo,

uma identificação...

e mil-e-mil-e-mil...

Por que, Senhor, por que nos... ?

Que carência-insuficiência!

.........................................................................

Mas... até que está bom.

Se isso acaba,

a vida ó:

vai pras cucuias.

Suficiente? Só a morte.

LA 01/01

 

 

 

Mas Isso É Bom...

 

Durante toda a nossa vida

muitos haverão de ter rido

barbaridades de nós.

Teremos feito rir

muita gente.

Mas isso é bom —

assim se desviaram

( se esqueceram por momentos )

de seus ridículos e loucuras.

Fomos bonzinhos sem querer.

LA 01/01

 

 

Por Uma Fenda

 

A alta poesia

é um aludir-exprimir —

delírio-imaginação

em que o verbal se mediuniza

entre o real e o transreal.

Sua procura-angústia

é a verdade-beleza

( ou a beleza-verdade ) —

recebida

sempre de forma oracular.

Alusão que precisa de expressão,

como o verbo da voz

que o modele

em argila constelada —

tudo por uma fenda

entre o sonho e o sonhado.

Quando o xamã verbaliza,

ele faz refletir

sua chispa interior

sobre a luz mais longínqua —

a lhe reverberar uma resposta

pela inter-realidade

nos casulos de espera

desse multiuniverso —

onde a glória de existir

se encarna na de viver

todas as possibilidades.

LA 01/01

 

 

 

O Amor Só Ainda Existe

 

O amor só ainda existe

para os bobos que nele acreditam.

Não dá lucro amar a Deus,

e ao próximo como a si mesmo.

Só os tolos fazem isso:

é só olhar e ver.

 

Nenhum lucro desse mundo

vale o nada ter do amor —

que, se não tem de seu,

é porque parte e se reparte,

porque doa e se doa a todos —

aos que sabem

e aos que não sabem disso.

 

Dai-nos, força, Senhor,

pra sermos bobos,

tolos,

mais outras coisas tais.

LA 01/01